sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Na Presença de Meus Inimigos

Amanhã, 30 de setembro de 1974, há trinta e nove anos fui sequestrado pelo Exército Brasileiro.

Este é o sermão que preguei hoje:

“Na Presença de Meus Inimigos"



Sermão por Rev. Fred Morris[1], pregado na Igreja Metodista Unida Shandon em 29 de setembro de 2013.

Objetivo: Compartilhar com o povo a minha experiência de ter sido sequestrado e torturado pelo Exército Brasileiro - como testemunho da Graça de Deus sobre nós, mesmo nas piores circunstâncias. 


Atenção: Eu não deveria estar aqui hoje. Eu deveria ter “desaparecido” há 39 anos – amanhã – em 30 de setembro de 1974.

Este foi o dia no qual os militares brasileiros vieram me buscar.

Eu morava no Brasil há onze anos, servindo como missionário da Igreja Metodista Unida (United Methodist Church). Depois de ter estudado português por um ano na cidade de Campinas, fui nomeado pastor em três pequenas igrejas na região serrana, a cerca de duas horas da cidade do Rio de Janeiro. Fui transferido, após dois anos, para um bairro popular na zona norte da cidade do Rio – no lado esquecido da cidade, por assim dizer. Servi na Igreja Metodista de Pilares e em três de seus trabalhos nas favelas vizinhas.

Após uma licença de dois anos, durante a qual obtive o mestrado em Sociologia Urbana na Universidade de Chicago, a Igreja Metodista no Brasil solicitou minha volta para enviar-me a Recife, na região empobrecida do Nordeste brasileiro, para implantar e dirigir um Centro Comunitário em um bairro extremamente pobre de Olinda, a cidade-irmã de Recife.

Também pediram que eu trabalhasse com o Arcebispo da Igreja Católica de Recife, Dom Helder Câmara, um homem notável, três vezes indicado ao Prêmio Nobel da Paz por seu trabalho em favor dos pobres no Brasil e por suas campanhas internacionais contra a tortura e assassinatos cometidos pelo Exército Brasileiro como métodos de perpetuação no poder.

O arcebispo Câmara era totalmente favorável a trabalhar comigo para melhorarmos as relações entre protestantes e católicos. Logo iniciamos um grupo chamado “Equipe Fraterna”, que chegou a incluir três pastores metodistas, um pastor luterano e sua esposa, um seminarista presbiteriano, dois sacerdotes episcopais anglicanos, dois monges beneditinos, um padre jesuíta, um monge franciscano e freiras das mais diversas ordens.

Encontrávamos-nos todas as terças-feiras das 10h da manhã às 12h. A primeira hora era dedicada ao estudo bíblico, seguido por um período de avaliação do trabalho de um dos membros do grupo. (Trabalhávamos todos junto às parcelas mais pobres da população). Então terminávamos compartilhando a Eucaristia, a Santa Comunhão, presidida a cada semana por um pastor ou padre diferente, cada um de acordo com seus próprios costumes.

Além destas atividades, fui convidado a ser um assistente da revista Time. “Assistente” é o cargo mais baixo no jornalismo, geralmente servindo como carregador para os jornalistas plenos. Depois de ter consultado meu “chefe” em Nova Iorque, aceitei o pedido já que pensamos que tal fato poderia prover uma espécie de seguro de vida para o Arcebispo, que estava sendo atacado pelos militares desde o outono de 1969 quando sequestraram e assassinaram um jovem padre que trabalhara com ele na Universidade Federal do Recife. A casa do bispo havia sido metralhada duas vezes como advertência.

Nunca me preocupei com minha segurança, já que presumia que, como cidadão americano, o pior que poderia acontecer comigo caso os militares ficassem descontentes comigo seria minha deportação.

Bem, em junho de 1974 a revista Time publicou um artigo sobre o Arcebispo chamado “O Pastor dos Pobres”, que descrevia como Dom Helder trabalhava em favor de milhões de pobres em sua diocese. E a reportagem mencionava suas diversas denúncias contra o uso de tortura e desaparições de opositores do regime.

Embora a Time soubesse que eu era amigo e colaborador próximo do Arcebispo, sequer fui consultado sobre o artigo e tampouco sabia que ele estava para ser publicado. Mas o Exército Brasileiro estava, conforme descobri mais tarde, seguindo meus passos desde que conheci o Arcebispo e tinha minhas habilidades jornalísticas em mais alta conta que a própria revista, já que presumiram que eu havia escrito o artigo.

Desta forma, fui chamado ao Quartel General do Quarto Exército três vezes em agosto para um escrutínio um tanto quanto severo sobre minhas atividades. Estas visitas terminaram com advertências para que eu parasse de brincar de jornalismo e para evitar "más companhias", ou seja, o Arcebispo.

Respirei aliviado e notifiquei a Time que eu não mais seria um “assistente” (o que não fez a menor diferença já que eles não tinham nenhum interesse real no Nordeste). Também notifiquei Dom Helder para que suspendêssemos contatos por algum tempo.

Mas o pior ainda não havia passado, de forma alguma. E na segunda-feira, 30 de setembro de 1974, enquanto saía de meu apartamento com um amigo a cerca de pouco antes das 10h da manhã, fomos cercados por uns doze homens, armados com submetralhadoras e pistolas calibre 45. Fomos algemados, vendados e jogados no chão de uma picape GM. Senti o cano de uma metralhadora em minhas costelas enquanto rasgávamos as ruas de Recife em direção ao Quartel General do Quarto Exército, no centro da cidade. (Conhecia a cidade suficientemente bem e acompanhando as conversões à direita e à esquerda sabia exatamente aonde chegaríamos afinal.)

Nos arrancaram da caminhonete e nos obrigaram a tirar as roupas, com exceção das cuecas. Meu relógio e anel foram tirados. Fui novamente algemado e levado a uma cela que se tornou minha casa por um tempo indefinido.

Em alguns minutos ouvi meu amigo Luis gritar na cela ao lado, quando começaram a torturá-lo. Esperava ainda que minha cidadania estadunidense pudesse me trazer algum tipo de imunidade no tratamento, mas a esperança não durou muito quando vieram me buscar.

Com a cabeça encapuzada e mãos algemadas às costas fui empurrado e conduzido por um corredor de 13 a 16 metros até uma sala que seria para mim uma câmara de tortura.

Durante o caminho recitei silenciosamente o Salmo 23.
O SENHOR é o meu pastor; nada me faltará ... Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo.


Assim eu fazia todas as vezes que me arrastavam e, estranhamente, sentia uma calma e confiança que certamente não combinavam com as circunstâncias.

Assim que me jogavam na sala, quatro ou cinco homens começavam a me espancar, jogando-me de um lado a outro da sala. Quando eu parava de ser jogado de lado a outro dizia: Sou um cidadão norteamericano. Exijo ver meu Cônsul. Aquela foi a primeira vez que fui chutado na virilha, caindo ao chão.  Assim que conseguia ficar em pé eu era atacado novamente, com socos e pontapés de todos os lados.

Depois de mais ou menos 15 minutos de espancamento, de repente tudo ficava quieto e parecia que a maioria das pessoas haviam deixado a sala. Fiquei lá, tentando respirar, em dor por causa do ataque. Então ouvi alguém despejando água num balde. 

Oh, não! Pensei comigo. Não conhecíamos ainda o afogamento simulado naqueles dias, mas eu sabia que uma das formas de torturas favoritas do Exército Brasileiro era quase afogar a vítima em um balde d’água e reanimá-la para continuar o interrogatório.

Mas não era isso que me aguardava. O homem veio até mim, ainda encapuzado e algemado, e despejou água nos meus pés e no chão ao meu redor. Então veio e prendeu um eletrodo no meu dedão do pé direito e outro no meu mamilo direito com um gancho que perfurou a carne. Então ele veio e pude ouvi-lo puxar uma cadeira e sentar-se. 

Em seguida, começou a perguntar. Onde estava indo com o Alanir? Quem é Alanir? Respondi, já que o nome era desconhecido para mim. Recebi a primeira descarga elétrica – uma leve, mas que em breve aumentou até provocar convulsões musculares que me jogaram ao chão. Enquanto eu me debatia, deitado no chão úmido tentando levantar-me, ele dava pequenas descargas elétricas, como aquelas que se usam para tocar o gado, para que eu me levantasse. Assim que me levantei, mais perguntas. E mais choques elétricos, quedas ao chão, levantar, mais perguntas, mais choques, levantar...

A dor dos choques elétricos era insuportável. Pensei que caso continuassem, eu morreria naquela sessão. Mas então percebi que passei a um estado de “não mais ali”, onde a dor transformou-se em uma espécie de esquecimento, como uma experiência "fora-do-corpo" onde eu testemunhava algo sendo feito a alguma outra pessoa. 

A dor se transformou em um tipo de entorpecimento. Algo enevoado, nada bom, mas menos doloroso.


Eles pareciam ter entendido, então fui levado de volta à minha cela, onde fui dependurado na porta para "descansar" por um tempo, para ressensibilizar meu corpo.

Então, de volta à câmara de tortura. Salmo 23 no caminho. Eletrodos colocados, mais perguntas, mais choques, cair, levantar, cair, levantar.

Em uma dessas quedas, com minhas mãos às costas, eu torci feio meu pulso direito e senti-o inchar-se, com as algemas cortando meu pulso.

Então, por volta da terceira ida, meu torturador veio até mim e colocou o eletrodo em meu pênis, ao invés de em meu mamilo, prometendo com um cochicho que se eu não cooperasse com ele, ele o arrancaria de tanto choque.


Mais algumas idas e eu fui colocado em uma poltrona chamada de Cadeira do Dragão. Meus braços foram presos nos braços da cadeira com fivelas de couro; minhas pernas foram presas em frente da cadeira. Desta vez colocaram um eletrodo no meu dedão e outro no lóbulo da orelha direita. Aqueles foram os piores choques de todos, já que as descargas elétricas percorriam minha cabeça entorpecendo tudo e cheguei a perder a consciência uma vez ou duas.

Isso durou o dia todo até que eles se cansaram. Deve ter durado, acho, até mais ou menos às 10h da noite. Desta vez me levaram de volta à minha cela e me algemaram nas barras à altura dos olhos, de forma que não consegui sentar ou deitar. Desta forma era impossível dormir, então passei a noite em pé ou apoiado nas barras da minha cela, aguardando a primeira luz do dia, quando voltaram a me buscar.

Isto continuou com algumas mudanças e variações por quatro dias e noites. Na quarta-feira à noite eu fui jogado no chão da cela e dormi um pouco no chão de concreto.

O que eles queriam?
Depois de tudo o que foi dito e feito, o que eles queriam era que eu dissesse que era comunista e que o Arcebispo colaborava com o Partido Comunista do Brasil. Esperavam que eu delatasse o Arcebispo, dizendo que ele era comunista, ou pelo menos cooperador com os comunistas. Pareciam pensar que se fizessem que um missionário metodista delatasse um Arcebispo católico eles conseguiriam desmoralizá-lo e diminuir sua eficácia em sua oposição ao uso de tortura e assassinato por parte dos militares como forma de perpetuação no poder.

Orgulho-me em dizer que não cooperei com eles em nada neste sentido.

Finalmente, na quinta-feira, dia 3 de outubro, logo no começo da tarde, o Major Maia, o chefe da operação de tortura, veio até mim e disse que queriam que eu tomasse um banho, me vestisse já que eles me levariam para me encontrar com o Cônsul norteamericano no Recife. Acrescentou que eu deveria ser cuidadoso com o que eu diria, já que voltaria para lá.

A minha resposta, improvável àquela altura, foi rir alto.

 À qual o Major perguntou: “O que é tão engraçado?"

"Nada”, eu disse, “mas você me lembrou de uma piada que vi na tevê alguns anos atrás.” Quando o presidente Eisenhower visitou a Rússia, os líderes, querendo impressioná-lo, trouxeram um camponês e disseram que ele poderia dizer qualquer coisa ao presidente dos EUA. O velho ficou quieto e não disse nada. Eles insistiram que ele poderia se sentir à vontade para dizer o que quisesse. Então, olhando para a câmera de tevê, disse: Socorro!!

O Major Maia riu comigo, mas repetiu o aviso. 

Então tomei uma ducha – a primeira vez em quatro dias sombrios – vesti-me e fui conduzido a um Batalhão de Comunicação na periferia de Recife.

Fui recebido por um Coronel, que me levou a um quarto que servia claramente para hospedar oficiais visitantes. Parecia um Ramada Inn meio decadente, mas tinha uma cama, duas poltronas, uma mesa e um jarro com água gelada!

O coronel me deixou sozinho, dizendo que o Cônsul norteamericano chegaria em breve.

Tomei um copo d’água e sentei-me, aguardando ansiosamente a chegada do Cônsul.

Percebi um movimento do lado de fora da janela daquele quarto. Olhei com atenção e vi que um soldado brasileiro, vestindo farda camuflada, desceu de uma árvore no jardim atrás do prédio. Enquanto olhava, ele se esgueirou pelo gramado até que ele parou e percebi, quase caindo para trás, que seu fuzil, um daqueles grandões com um “bi-pé” na ponta, estava apontado para a minha testa!

De repente percebi que talvez aquilo estivesse sendo armado para minha execução. Era bem conhecido que o Exército Brasileiro costumava assassinar prisioneiros dizendo depois que eles tentavam escapar, ou que havia sido um erro de identidade, o que fosse. Será que o Major Maia disse-me que eu iria ver meu Cônsul só pra me dar um banho e colocar roupas limpas para poder me executar?

Era por volta das 4h30 da tarde, caía a noite em Recife. Levantei-me e desliguei a luz e sentei-me novamente na sala que ficava cada vez mais escura, determinado a tornar as coisas pelo menos mais difíceis para eles. Depois de 30 segundos a porta se abriu e um cabo entrou, ligou as luzes e deixou o quarto, desta vez confirmando meus temores de que seria executado.

Quanto mais eu pensava nisso, mais sentido fazia tudo aquilo. Eu sabia que se caso conseguisse sair daquela situação, eu diria a Deus e ao mundo o que haviam feito a mim. Tinha certeza que a Junta de Missões Globais da Igreja Metodista Unida me levaria para longe para fazer conferencias em todos os EUA para obter apoio no combate à violação de direitos humanos na América Latina naquela época. Se me matassem, alegando ser um erro, haveria algum barulho, mas acabaria em breve e seria o fim.

Então sentei-me lá, percebendo que aquele dia 3 de outubro de 1974 seria meu último dia de vida na terra.

E, engraçado, eu não estava com medo.
Não sou nenhum John Wayne ou nenhum 007. Não me considero capaz de grande coragem frente a perigos. Mas enquanto estava lá sentado, esperando a bala ser disparada pelo soldado, uma grande paz me envolveu como um edredom quente. Uma Paz que Excede todo o Entendimento tomou conta de mim. Eu posso fazer isto. Tudo bem. Mais tarde eu percebi que este é aquilo que o Apóstolo Paulo quer dizer com o Dom da Paz.

Então, após uma espera de 40 minutos até que o soldado recebesse a ordem de atirar, a porta se abriu e o coronel entrou com o Sr. Richard Brown, o novo Cônsul norteamericano no Recife.

Já que eu era o “anfitrião” em meu novo quarto, eu educadamente indiquei que o coronel se sentasse em frente da janela, onde ele estaria entre mim e o fuzil lá fora, e coloquei o Sr.Brown à minha esquerda.

Nunca havia me encontrado com o Sr.Brown, já que ele estava em Recife há pouco tempo. Ele começou perguntando se estava sendo bem tratado enquanto em custódia. Lembrei das ameaças feitas pelo Major Maia, então disse que estava bem, mas pisquei pra ele com meu olho que estava longe da vista do coronel. O Sr.Brown entendendo na hora disse: Sr.Morris, estou aqui em nome do governo dos Estados Unidos da América, e se o senhor estiver sendo maltratado de alguma forma, nós faremos o diabo pagar.

Era tudo o que precisava, então continuei contando a ele nos mínimos detalhes tudo o que havia acontecido comigo desde segunda-feira, pancada por pancada. Ele tirou um caderno e anotou tudo o que disse a ele. Depois de uma hora e meia a porta se abriu e o cabo veio dizer que a entrevista terminara. O Sr.Brown então perguntou se eu teria qualquer marca no meu corpo que corroborasse o relato. Imediatamente tirei minha camisa e mostrei-lhe os hematomas e arranhões em minhas costas e braços. Então baixei minhas calças de forma que o coronel pudesse ver as enormes marcas roxas nas minhas nádegas, resultado das minhas repetidas quedas enquanto aguentava os choques elétricos.

Enquanto deixava, o Sr.Brown disse: Se algo semelhante voltar a acontecer contigo, cabeças vão rolar, falando claramente para os gravadores, já que sabíamos que tudo o que estava sendo dito também estava sendo gravado. Também prometeu voltar todos os dias até que fosse solto, para ver se estava sendo bem tratado.

Não permitiram que ele voltasse no dia seguinte, mas ele apareceu todos os dias pelas duas semanas seguintes.

Depois de mais 14 dias, um atraso que creio ter sido para que meus hematomas desaparecessem e minhas feridas se curassem, fui levado ao Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, sob a mira de revólveres, e colocado em um avião para Nova Iorque, onde meu irmão, o rev.Hughes B.Morris, que era então pastor de uma Igreja Metodista em Nebraska, e dois executivos da Junta de Missões Globais da IMU, o rev.Paul McCleary e o rev.Lewistine McCoy, que havia sido meu "chefe" direto nos onze anos anteriores.

Eles me informaram que eu não era mais empregado da Junta de Missões Globais, sem dar nenhuma explicação, e depois de uma hora, desejaram "o melhor".

Sem qualquer pagamento indenizatório ou qualquer tipo de ajuda, me mudei para Washington DC e comecei uma campanha pelos direitos humanos.

A revista Time pediu que eu escrevesse um artigo, o qual foi publicado na edição de 18 de novembro de 1974. Levaram-me ao Today Show, oe a outros 26 programas de tevê nos EUA e no Canadá. Falei em mais de 150 faculdades, universidades e igrejas, de Harvard e Yale até na Universidade de Chicago, UCLA e USC.

Em 11 de dezembro, testemunhei sobre minha experiência diante de um comitê do Congresso Americano. Em outubro de 1975 a revista Harper's publicou um relato de nove páginas com minhas experiências. Como resultado de todas essas atividades, em junho de 1976 o Congresso dos EUA votou para cortar qualquer ajuda militar ao Brasil – para sempre.

Depois de cerca de dois anos desempregado (havia entrado nas listas negras da CIA – por “ser um comunista” – e da própria Igreja Metodista Unida por razões não especificadas, fui para a Costa Rica e montei minha própria empresa de construção para sustentar a mim e a minha família por doze anos. 

Em 1977 fui convidado pela ABC-News para ser seu correspondente na Costa Rica e em 1982 comecei a publicar um boletim em San Jose, Costa Rica, sobre a América Central, chamado Mesoamerica. Logo se tornou a publicação mais importante na região e orgulho-me em dizer que ela desempenhou um papel importante na ajuda a muitas igrejas e grupos de solidariedade a estudantes que se opunham aos ataques genocidas promovidos por Ronald Reagan aos povos da região e que impediu que os EUA enviassem tropas à Nicarágua e a El Salvador.

Mas para mim o período mais importante na Costa Rica foi quando conheci e casei com minha adorável esposa, Argentina. Celebraremos nosso 30º aniversário de casamento ano que vem.

E o que faremos com essa história estranha?

Em primeiro lugar, eu não acredito que fosse vontade ou plano de Deus que eu fosse sequestrado e torturado. Foi uma experiência insuportavelmente horrível que nunca mais deveria ser repetida a nenhum ser humano - por qualquer razão que seja.

Todavia, creio que demonstra o que o Apóstolo Paulo diz em Romanos 8.28 “
Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.”

Isso não significa que tudo o que aconteça seja a vontade ou propósito de Deus. Significa apenas que já que amamos e confiamos em Deus, Deus pode nos abençoar mesmo nas piores circunstâncias possíveis.

Se eu não tivesse sido sequestrado e torturado em 1974, provavelmente estaria ainda morando no Brasil e não teria conhecido Argentina e nossos três filhos maravilhosos não existiriam.

Mais uma vez, o Apóstolo Paulo acerta ao terminar o capítulo 8 de sua carta aos Romanos:
Que diremos, pois, à vista destas coisas? Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou o seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura, não nos dará graciosamente com ele todas as coisas? Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus? É Deus quem os justifica. Quem os condenará? Ninguém. É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós. Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada? 

Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor


Tradução: Fabio Martelozzo Mendes - revisado pelo autor.



[1] Rev.Fred Morris foi missionário da Junta de Missões Globais da Igreja Metodista Unida no Brasil entre 1969 e 1974 e foi o primeiro cidadão norte-americano a ser torturado pelo regime militar brasileiro. Em 2008 ele foi julgado e anistiado pelo governo brasileiro. Atualmente serve como pastor da Igreja Metodista Unida Shandon, na Califórnia.




quarta-feira, 2 de outubro de 2013

ROSÁRIO: INCENDIADO O TEMPLO METODISTA SEDE DO MEDH

ROSÁRIO: INCENDIADO O TEMPLO METODISTA SEDE DO MEDH
Por Domingo Riorda


(transcrito de Prensa Ecuménica, 28/09/2013)

“Hoje puseram fogo nas instalações da Igreja Norte”, declarou o pastor Américo Dario Jara Reyes, referindo-se à Igreja Metodista da Rua San Lorenzo 2722, na cidade de Rosário, Província de Santa Fe (Argentina) onde se encontrava a sede do MEDH (Movimento Ecumênico pelos Direitos Humanos). 

Jara Reyes explicou que o MEDH utilizava este lugar como para desenvolver seu trabalho e que com o incêndio “o MEDH perdeu sua preciosa biblioteca, já que puseram fogo em todos os livros”

O pastor metodista detalhou que “(eles) deram-se ao trabalho de levar os livros ao altar e ali pôr-lhes fogo”, uma atitude premeditada que ao mesmo tempo possui uma carga de simbolismo realista: os livros que se ocupam dos Direitos Humanos devem ser queimados e para isso é preciso escolher um lugar muito especial, nesta ocasião o altar.

A interpretação não é forçada. Os responsáveis pelo incêndio “deram-se ao trabalho de levar os livros ao altar e ali pôr-lhes fogo”, isto é, os livros estavam em outro espaço das instalações e para sua queima os levaram até o lugar que eles consideravam sagrado.
Por outro lado, na mesma linha do imaginário, trata-se de um templo da Igreja Metodista que foi muito ativa na defesa dos Direitos Humanos durante a ditadura cívico-militar e continua a sê-lo no presente. Ou seja, não arriou sua bandeira.

Ao detalhar o que se perdeu no incêndio – na sexta-feira, 27 de setembro – o pastor Américo Darío Jara Reyes o resumiu dizendo: “Perdemos um belo piano, os bancos... enfim, tudo o que se poderia queimar no templo.” E acrescentou: “uma dor imensa pelo que se perdeu, especialmente pelos sonhos que o MEDH havia preservado em relação a este lugar como base de operações...” Isto delineia com clareza que se perdeu tudo, especialmente os sonhos de uma visionária defensora dos Direitos Humanos.

Chama atenção o fato de que há uma semana - sexta-feira, 20 – o jornal La Nación publicou um artigo intitulado “Falam de 30.000 desaparecidos, mas sabem que isto é falso”, desprezando os defensores dos Direitos Humanos, assinado por Ceferino Reato, antecedido por uma crítica semelhante do jornalista Jorge Lanata, da TV.

Ceferino Reata foi o editor chefe do jornal Perfil de 2005 a 2010 e anteriormente redator de política nacional do jornal Clarín. Atualmente dirige a revista econômica Fortuna, que na recente concessão dos Prêmios Fortuna às maiores e melhores empresas de 2013, outorgou o premio especial à trajetória empresarial aos irmãos Carlos e Alejandro Bulgheroni, proprietários do Grupo Bridas, porque “explicam tudo o que é preciso saber para se ter êxito nos negócios”.

Ainda que uma prestigiosa quantidade de pessoas tenha saído a desmentir as calúnias de Reato, é de se perguntar porque La Nación e outras mídias semelhantes publicam estas notas nestes momentos e se encadeiam a outros artigos similares, que têm por matiz uma campanha de desprestigio da defesa dos Direitos Humanos.

Uma resposta para isto é que se sentem fortes para publicar estes temas para em seguida armar o aparato de desestabilização. Exemplos como Honduras, Haiti e Paraguai dariam o aval para que se utilizem de caminhos novos, já que não podem usar as forças militares para os golpes de estado.

É preciso resgatar a frase do pastor metodista Jara Reyes: “Oremos para que ninguém perca sua fé mas que antes se redobrem em seus esforços!” e manter lubrificados os neurônios e abertos os olhos.

Tradução: Sérgio Marcus Pinto Lopes


Publicado originalmente em: http://ecupres.wordpress.com/2013/09/28/rosario-incendiaron-templo-metodista-sede-del-medh/



Organismos ecumênicos pedem rigor na apuração das causas do incêndio em templo metodista

ROSÁRIO - Em carta dirigida ao ministro do Interior da República da Argentina, Aníbal Florencio Randazzo, o presidente e o secretário geral do Conselho Latino-Americano de Igrejas (CLAI), respectivamente pastores Felipe Adolf e Nilton Giese, exigem uma acurada investigação das causas do incêndio que consumiu o templo da Igreja Evangélica Metodista “Norte”, de Rosário, na noite de sexta-feira, 27.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A Federação Argentina de Igrejas Evangélicas (FAIE) repudiou “esse ato vândalo que deve ser visto como mais um atentado contra a liberdade de culto e de discriminação religiosa e social”. O ataque que atinge uma igreja e um escritório de direitos humanos não foi inocente, alegam o presidente e secretário da Federação, Federico Schäfer e Néstor Míguez.

Eles também lamentam que o incêndio do templo metodista não tenha recebido a mesma atenção que a mídia dispensou ao ataque sofrido pela Igreja San Ignacio, de Buenos Aires.

O coordenador do Movimento Ecumênico pelos Direitos Humanos (MEDH) da Regional de Rosário, Luis Gonzalo Vásquez, informou que o fogo destruiu inteiramente a biblioteca acadêmica e uma parte da documentação do organismo.

Vásquez recordou o esforço empreendido para instalar o escritório do MEDH junto ao templo metodista, que ficou meses sem água, gás e eletricidade por causa da demolição de prédio em terreno ao lado. A construtora cortou esses serviços e pouco se preocupou em restabelecê-los.

Publicado originalmente em: http://www.alcnoticias.net/interior.php?lang=689&codigo=24697

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Conselho Diretor da FaTeo se reúne e acolhe carta da Congregação da Faculdade

Conselho Diretor da FaTeo se reúne e acolhe carta da Congregação da Faculdade






O Conselho Diretor da FATEO se reuniu nesta terça, 24 de setembro, acompanhado do bispo-assistente do Colégio Episcopal da Igreja Metodista Paulo Tarso de Oliveira Lockmann, e acolheu uma carta que lhe foi dirigida pela Congregação da Faculdade (conselho integrado por todos os docentes de tempo integral da faculdade mais dois docentes e dois discentes eleitos por seus pares e o presidente do Centro Acadêmico John Wesley).  A carta versa sobre a preocupação do órgão com encaminhamentos recém-comunicados que dizem respeito à futura composição do seu corpo docente e solicita que o Conselho Diretor intermedeie um processo de diálogo sobre o tema. Segue o conteúdo.
São Bernardo do Campo, setembro de 2013. 
Aos  membros  do  Conselho  Diretor  da  Faculdade  de  Teologia  da  Igreja Metodista.
Nesta.
Estimadas irmãs e estimados irmãos,
“Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens [e mulheres] as suas transgressões, e nos confiou a palavra da reconciliação” (2Co 5.19).

A Congregação da FATEO, reunida em 02 de setembro do corrente ano, refletindo  sobre  as  últimas  decisões  do  Colégio  Episcopal  quanto  ao funcionamento  e  gestão  da  Faculdade  de  Teologia,  aprovou  o encaminhamento  de  uma  carta  ao  Conselho  Diretor,  que  respeitosamente explicita as seguintes considerações abaixo:
a.  Reafirmamos  a  necessidade  de  constante  diálogo  entre  a  FATEO, Conselho  Diretor  e  Colégio  Episcopal.  Decisões  unilaterais  geram transtornos pessoais e institucionais;
b.  O corpo de colaboradores da FATEO [docentes e administrativos] tem a consciência de sua vocação e missão para com o Reino de Deus e a Igreja Metodista e, nos últimos anos, presta serviços que são dirigidos ao  corpo  da  Igreja  Metodista  e  das  Igrejas  Irmãs,  dentro  da  área  da formação e capacitação da membresia leiga e clériga [Cursos Bacharel Presencial  (matutino  e  noturno)  e  à  Distância,  Teológico  Pastoral, Integralização de Créditos; Centros: Otília Chaves, Memória Metodista, Liturgia, Arte e Homilética, Estudos Wesleyanos; intercâmbios discentes e  docentes,  nacionais  e  internacionais;  Projetos  Missionários: Solidariedade  com  a  África  e  Solidariedade  com  a  Região  Andina; Editeo; assessoria ao Colégio Episcopal e aos diversos segmentos da Igreja];  além  do  envolvimento  de  docentes  e  estudantes  com comunidades  (pastoreio  de  igrejas  locais  e  participação  no  Projeto  de Revitalização  de  Igrejas  na  3ª  RE)  e  o  atendimento  pastoral  à comunidade interna e externa da Faculdade de Teologia.
c.  Se, por um lado, o atual momento do sistema educacional metodista no País passa por profundas mudanças, inclusive com a centralização na gestão,  por  outro  lado,  espera-se  que  a  FATEO  tenha  sua  autonomia respeitada  dentro  do  marco  regulatório  que  a  própria  Igreja  Metodista estabelece  em  sua  legislação,  isto  é,  a  gestão  da  FATEO  se  dá  pelo diálogo  permanente  entre  Colégio  Episcopal,  Conselho  Diretor  da FATEO e reitoria da FATEO;
d.  Como uma casa responsável pela formação do ministério pastoral para a  Igreja  Metodista  e  também  de  outras  denominações,  a  FATEO  tem assumido  ao  longo  de  sua  história  a  postura  de  uma  pastoral  de  acolhimento  dentro  da  diversidade  própria  que  o  mundo  eclesiástico vivencia,  em  especial,  no  contexto  metodista  brasileiro.  Assim  sendo, reafirmamos  a  necessidade  de  gestos  pastorais  inclusivos  nos processos  administrativos.  Causou-nos  profunda  comoção  as informações oficiosas e depois as informações oficiais da demissão de pessoas de nosso quadro de colaboradores;
e.  Por fim, de forma respeitosa, solicitamos a este Conselho  a construção de uma linha de diálogo com o Colégio Episcopal onde se deva pautar a necessidade de  revogação  das  demissões anunciadas.  Cremos que  é possível construir um caminho para adequar as questões econômicas e políticas que envolvem a FATEO e IMS, bem como a construção de um  “programa de renovação” dos docentes de tempo integral que se realize por meio de  critérios precisos  ou  pelo  voluntariado  ou  ainda por  outro caminho dialogal que garanta a tranquilidade do corpo de colaboradores da FATEO.
Na certeza de que o ministério da reconciliação é um caminho para uma Igreja  Ministerial  nos  despedimos.  Pedimos  a  Deus,  em  oração,  que  as  questões  que  nos  envolvem  no  momento  sejam  gestadas  pelo  Conselho Diretor sob a orientação divina.
Fraternalmente, 
Congregação da Faculdade de Teologia. 


O Conselho Diretor também acolheu uma carta que lhe foi remetida pelo Centro Acadêmico John Wesley revelando semelhante preocupação e solicitando processos de diálogo com os/as estudantes.
Publicado originalmente em http://www.metodista.br/fateo/noticias/conselho-diretor-da-fateo-se-reune-e-acolhe-carta-da-congregacao-da-faculdade/view

RESPOSTA DO PRESIDENTE DO CONSELHO DIRETOR DA FATEO À CARTA REMETIDA PELA CONGREGAÇÃO DA FACULDADE
Em resposta à carta que lhe foi remetida pela Congregação da FaTeo, o presidente do Conselho Diretor da Faculdade enviou a seguinte mensagem:

Campinas, 26 de setembro de 2013 

Aos membros da Congregação da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista
São Bernardo do Campo, SP
A/c do vice-reitor em exercício – Prof. Dr. Nicanor Lopes

Estimados irmãos e irmãs, saúde e paz!
Comunico  que  o  Conselho  Diretor  da  Faculdade  de  Teologia,  reunido  em  24  de setembro  nas  dependências  da  FATEO,  recebeu  a  carta  enviada  pela  Congregação,  na  qual explicitam algumas considerações relativas “às últimas decisões do Colégio Episcopal quanto ao funcionamento e gestão da Faculdade de Teologia”.
Reconhecendo  a  importância  deste  fórum  que  auxilia  na  administração  da  FATEO, conforme  disposto  nos  artigos  16  e  17  do  Regulamento  dos  Estatutos  da  Faculdade  de Teologia da Igreja Metodista, nos dispomos a apresentar as considerações assinaladas por essa egrégia  Congregação  a  aqueles  a  quem  representamos  –  Colégio  Episcopal.  Decidimos  por fazer a apresentação destas considerações através de ma reunião do Conselho pleno com o Colegiado dos Bispos e Bispa.
Para implementar tal ação, no dia 25 de setembro, quarta-feira, reuni-me na qualidade de presidente do Conselho Diretor, com o Revmo. Bispo Adonias Pereira do Lago, Presidente do Colégio Episcopal. Estamos ajustando uma data possível para efetivação desta reunião.
Aproveito o ensejo para expressar minha admiração e respeito por todos os membros desta  nobre  Congregação  e  afirmar-lhes  que  também  creio  no  ministério  de  reconciliação. Imprimiremos esforços para construir canais de diálogo.
Termino  esta  missiva,  compartilhando  meu  sentimento:  Antes  de  ser  presidente  do Conselho, sou um pastor. A Igreja Metodista quem me forjou neste ministério, ensinando-me este olhar...  olhar  pastoral  Por  isso, vejo  pastores e pastora  (Colégio  Episcopal),  dialogando com pastores e pastoras (Conselho Diretor – clérigos/as e leigos/as), que tratam com pastores (Diretoria  da  FATEO),  que  gestam  a  escola  para  que  pastores  e  pastoras  (professores  e professoras  –  clérigos/as  e  leigos/as),  ministrem  aulas  paras  futuros  pastores  e  pastoras (alunos e alunas - – clérigos/as e leigos/as). Somos uma comunidade de pastores e pastoras.
Portanto, precisamos construir caminhos para que a ação pastoral seja a premissa que reja nossos diálogos no tempo presente.
Na esperança de ser canal de bênção,

Rev. Paulo Dias Nogueira
Presidente do Conselho Diretor da FATEO

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Abaixo Assinado - Por uma FATEO Autônoma

Abaixo Assinado - Por uma FATEO Autônoma

Está sendo divulgado na internet através de e-mails e redes sociais uma iniciativa de alunos e ex-alunos da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista que visa coletar assinaturas solicitando ao Colégio Episcopal que reveja sua decisão, considerada autoritária e injusta, de demitir professores, reduzir a hora-aula e reduzir o quadro de doutores no corpo docente da FATEO.

Segue abaixo o texto da carta e link para assinar e demonstrar apoio:



Para:
Colégio Episcopal da Igreja Metodista do Brasil
Conselho Diretor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista 
Todos os cantos do mundo, 23 de setembro de 2013.

Caríssimas/os membros do Conselho Diretor da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista,

Nós, ex-alunas/os da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista – que integra a Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) – recebemos com profunda preocupação e revolta a notícia da intervenção do Colégio Episcopal nesta instituição, que resulta na demissão de professores, na redução do quadro de doutores e na diminuição de horas-aula. Além disto, a atual situação é fruto de um projeto que deseja a demissão de todos/as os/as atuais professores/as até 2016.

Não resta dúvidas em nossas mentes que esta intervenção é autoritária, inconsequente e injusta. Ela é autoritária porque jamais contou com o apoio e dicussão da comunidade acadêmica da FaTeo, seu corpo docente e discente, bem como a ampla comunidade universitária da UMESP. Uma igreja que defende os princípios éticos da democracia, do bom senso e da valorização do ser humano, além de defender a educação como parte de sua missão, se contradiz quando dá um passo como este no sentido de restringir o diálogo e tratar com ingratidão a história de dedicação com que a FaTeo foi construída, sobretudo pelo esforço de professores/as e com o apoio de estudantes de outras confissões religiosas.

A intervenção também é inconsequente, pois não mede os desdobramentos que pode trazer à vida institucional da FaTeo, seu reconhecimento acadêmico e a qualidade de sua educação. Com esta decisão, a Igreja Metodista parece demonstrar sua incompetência em compreender sua ação educacional na área teológica e a confunde com as sutilezas de disputas de poder intraeclesiásticas. Em suma, o Colégio Episcopal confunde a vocação acadêmica de um/a professor/a com o processo de nomeação pastoral. O que mais surpreende nesta intervenção é a forma com que ela ofende diretamente alguns dos princípios básicos defendidos por documentos metodistas, os quais o Colégio Episcopal deveria defender. Além disto, em última instância, a decisão do Colégio Episcopal fere a autonomia universitária e compromete a concessão pública do ensino de teologia.

Finalmente, a intervenção na FaTeo é injusta porque deixou de considerar a razão pela qual alunos/as não-metodistas (responsáveis por parte significante do ganho financeiro desta casa) escolhem esta instituição: por sua abertura teológica para o diálogo e sua credibilidade acadêmica diante do governo e das igrejas. Manifestamos assim nosso descontentamento.

Como ex-alunos/as desta casa, nos sentimos no direito e no dever de defendê-la e lutar por ela. Não apenas nossos currículos estão marcados por nossa passagem na FaTeo, mas nossas vidas inteiras. 
Atenciosamente,


Esclarecemos que esta carta e este abaixo-assinado não são iniciativa da Rede Metodista Confessante. Todavia, sua pauta também reflete algumas das preocupações que expressamos em nosso manifesto, sobretudo no ítem A e desta forma também tornamos público nosso apoio a esta iniciativa de alunos e ex-alunos da FATEO. 

Também consideramos que isto demonstra que as atitudes autoritárias do Colégio Episcopal estão repercutindo fortemente no corpo clérigo e sobretudo leigo da Igreja Metodista e fora dela. Um grupo que representa uma linha teológica da Igreja Metodista domina as estruturas de poder e, ainda que seja representativo numericamente, impõe sua forma de pensar de maneira autoritária, desrespeitando a diversidade e pluralidade de dons e ministérios que compõe a Igreja Metodista, constrangendo, perseguindo, punindo e retaliando contra pessoas que não se alinham à ideologia hegemônica atualmente implantada.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Assédio Moral por Parte das Lideranças da REMA (Região Missionária da Amazônia) contra Acadêmica de Teologia - Parte 2

Assédio Moral por Parte das Lideranças da REMA (Região Missionária da Amazônia) contra Acadêmica de Teologia - Parte 2




Dando continuidade à divulgação do processo de assédio moral empreendido pela REMA contra a acadêmica de teologia Maria Renilda Tavares dos Santos, seguem outras informações a respeito do caso.

De acordo com a acadêmica Maria Renilda Tavares dos Santos, até o momento ela não foi ouvida pela Comissão Ministerial Regional ou pela COREAM da REMA. Segundo ela estas são as razões alegadas pelo Superintendente Distrital, pelo bispo da REMA e por outras lideranças regionais para sua exclusão e abandono, conforme mensagens recebidas por ela já divulgadas anteriormente:

Nas palavras do Bispo da REMA, são alegadas as seguintes razões para a não recomendação de continuidade dos estudos:

1.    “Não desistiram do que eles chamam de  "roteiro cultural"
2.    “Torna completamente inviável qualquer atividade em conjunto.
3.    “Eles querem usar nossas comunidades como "cobaias".
4.    “O interesse maior é deles e não nosso.
5.    “A irmã fez a opção de ir para São Paulo para estudar teologia, não estando mais em atuação na sua igreja local nem na Rema.”
6.    “Nem eu e nem o Pr. [SD] deu a você qualquer credencial para representar a Rema.”
7.    “A relação da Igreja Metodista com a Comunidade Maruwai, provocou certo desconforto na Área Nacional, especialmente por parte do Presidente da Igreja.”
8.    “Os projetos precisam passar e ser encaminhado para parecer do Bispo da Região.”
9.    “Não sabe de outras coisas que aqui estão acontecendo, especialmente depois, que pela primeira vez tivemos a visita do Colégio Episcopal por ocasião do seu Retiro Espiritual em Manaus no último fim de semana.”
10.  “A irmã informa a realização do seu projeto em Manaus e cita a Rema como sua parceira.”
11.  “Nunca recebi nenhuma informação da sua parte sobre esse projeto.”
12.  “Não foi nada combinado e nem acertado qualquer detalhe (data e outros) com o Pr. [SD].”
13.  “Para nós da Rema, esta fora do nosso projeto missionário.”
14.  “Alerto a irmã para não passar uma falsa imagem da Região Amazônica, pois não é uma região de miseráveis e empobrecidos, especialmente Manaus.”
15.  “Minha preocupação de projetos que são realizados sem a cobertura eclesiástica da Igreja Metodista sem o aval das autoridades competentes.”
16.  “Missionário/a é uma função eclesiástica com nomeação episcopal para um campo missionário específico e o que me consta a irmã não tem essa nomeação.”
17.  “A irmã oferece sua conta bancaria para receber doações como missionaria.”
18.  “As iniciativas foram unilaterais.”
19.  “A irmã vai precisar primeiro tomar conhecimento da nova missão, a visão missionária que estamos implantando na Rema é bastante diferente da anterior”
20.  “A irmã corre o risco de estar falando de coisas que não estamos fazendo mais e não falar das que estamos fazendo.”
21.  “Estive com você na Fateo lhe recomendei que você se dedicasse ao que você foi fazer aí, ou seja: estudar”.

Segundo relatos, foi alegado que a acadêmica desenvolve projetos que não tem relação com a FATEO, com a Igreja Metodista ou com a REMA. Tal alegação por parte da liderança da REMA é incorreta porque a acadêmica foi recomendada para a FATEO e que seu projeto junto às comunidades indígenas e ribeirinhas da periferia de Manaus é justamente o subsídio para o desenvolvimento de seu trabalho de conclusão de curso, visando a aplicação prática e missionária dos conhecimentos adquiridos na Faculdade e também os princípios do Plano para a Vida e Missão, do Credo Social e dos Planejamentos Estratégicos Missionários. Além disso, foi divulgado que a acadêmica não se apresenta aos pastores da Igreja Metodista em Manaus quando está em período de recesso acadêmico, que não tem sido diligente junto à sua comunidade (Manaus), que não tem se dedicado a seus afazeres acadêmicos e mesmo a alegação de que ela não solicitou formalmente a recomendação para a continuidade do seu curso.

Essas alegações são inverídicas como fotos e relatórios apresentados pela acadêmica provam (que pode ser visto na postagem http://metodistaconfessante.blogspot.com.br/2013/09/assedio-moral-por-parte-das-liderancas.html ). Outras são questões burocráticas cuja solução foi encaminhada junto à FATEO e à REMA, sendo apenas pretextos para dar ar de legalidade a um ato arbitrário.

Alegadamente houve falta de agradecimento e crédito a todos aqueles/aquelas que têm andado de mãos dadas com o projeto Sombra e Água Fresca, oferecendo a ele apoio e mesmo assistência financeira e deixou-se 
de reconhecer esse apoio.

Houve um esclarecimento por parte do Projeto Luz e Vida - Missão Amazônia mas isso foi insuficiente para que as pressões e retaliações contra a acadêmica cessassem.

Por fim, após a não-renovação da recomendação e do corte das bolsas habitação e alimentação, a acadêmica enviou uma carta à sua igreja de origem (Igreja Metodista Central em Manaus, reproduzida neste blog em postagem no dia 09/09/2013) descrevendo em detalhes minuciosos todo o processo de exclusão e abandono. Embora a carta tivesse sido amplamente divulgada, o bispo da REMA alegou não ter tido conhecimento da mesma, conforme correspondência reproduzida abaixo.


From: [...]
CC: mrenilda.santos@hotmail.com
Subject: RE: À Igreja do Senhor Jesus Cristo que está em Manaus-AM,
Date: Wed, 31 Jul 2013 11:40:54 -0300
Ola Pr. [...] e demais membros da Coream - Rema.

Graça e paz.
Eu não vou me pronunciar sobre esse assunto até que receba este documento oficialmente como Bispo Presidente da Região Missionária da Amazônia e consequentemente presidente da Coordenação Regional de Ação Missionária da Rema.
Seja qual for a intenção, a Igreja Metodista tem seu canais competentes pelos quais deve transitar as questões afim.
Precisamos de paz e tranquilidade para dar continuidade  a visão missionária que o Senhor nos tem dado e não podemos permitir que nada venha nos distrair, pois como disse Neemias " estamos fazendo uma grande obra ".


Um abraço a todos e todas.

[...] Bispo Missionário - Região Missionária da Amazônia



“Pede-me, e te darei as nações como herança e os confins da terra como tua propriedade.” Salmos 2. V.8


From: mrenilda.santos
Subject: RE: À Igreja do Senhor Jesus Cristo que está em Manaus-AM,
Date: Thu, 1 Aug 2013 18:20:46 -0300

“Ele te declarou, ó homem, o que é bom e que é o que o SENHOR pede de ti: que pratiques a justiça, e ames a misericórdia, e andes humildemente com o teu Deus.” (Mq 6.8)
A ausência de um pronunciamento já era aguardada. A mesma ausência já havia caracterizado este relacionamento. Não houve edificação, seja por meio de palavras, ações ou quaisquer outras formas de expressão.

Entre os destinatários de minha carta não se encontra a presidência regional, pois já é ciente de todos os assuntos que trato, inclusive dos que não foram mencionados nela.

Seja na presidência da Região Missionária da Amazônia, na presidência da Coordenação Regional de Ação Missionária da Rema ou na presidência da República Federativa do Brasil, atentar contra a integridade, segurança e bem estar de um ser humano é crime passível de punição. Não há prudência em se fazer acepção de pessoas. Claras são minhas intenções, e os canais competentes pelos quais devem transitar as questões afins não se limitam, necessariamente, aos da Igreja Metodista que nada tem haver com isto.

Deus não muda. A visão que o Senhor deu à Igreja Metodista do Brasil permanece a mesma e é claramente identificável nos documentos que norteiam as ações missionárias metodistas.

A paz e a tranquilidade desejadas para dar continuidade à visão missionária metodista brasileira serão alcançadas quando a misericórdia e a verdade se encontrarem; quando a justiça e a paz se beijarem (Sl 85.10).

A paz e a tranquilidade desejadas não surgirão antes disso. Se surgirem, é prudente que se verifique o que realmente está debaixo da pele das ovelhas.

Se estamos fazendo uma grande obra, seria igualmente prudente verificar o que o Senhor pede de nós, pois o que Ele quer é que pratiquemos a justiça, amemos a misericórdia, e andemos humildemente com o nosso Deus (Mq 6.8).
No Amor de Cristo Jesus,
Maria Renilda Tavares dos Santos.
“Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.” Mc 16.15

Outras postagens sobre assédio moral nas igrejas evangélicas:

09 de setembro de 2013

Assédio Moral por Parte das Lideranças da REMA (Região Missionária da Amazônia) contra Acadêmica de Teologia
http://metodistaconfessante.blogspot.com/2013/09/assedio-moral-por-parte-das-liderancas.html

04 de setembro de 2013


Igreja Mundial do Poder de Deus é condenada por assédio moral
http://metodistaconfessante.blogspot.com.br/2013/09/igreja-mundial-do-poder-de-deus-e.html

19 de agosto de 2013

Assédio Moral na Igreja - Prática Nefasta que Urge Combater
http://metodistaconfessante.blogspot.com.br/2013/08/assedio-moral-na-igreja-pratica-nefasta.html

Manifesto a Respeito da Atual Situação da Igreja Metodista

Manifesto a Respeito da Atual Situação da Igreja Metodista




Nós, membros leigos, leigas, clérigos e clérigas, manifestamos nossa preocupação com a atual conjuntura da Igreja Metodista, denominação à qual pertencemos e onde exercemos nossa vocação cristã e nosso chamado de vida.

A Igreja Metodista, ramo do cristianismo protestante surgido como resultado do avivamento evangélico de John e Charles Wesley, tem se destacado na atuação constante e presente na sociedade, visando o testemunho do Espírito Santo através do exercício de atos de piedade (participação nos cultos, sacramentos, exercícios devocionais e de oração) e atos de misericórdia (vestir o nu, alimentar o faminto, visitar o preso e o enfermo, abrigar o peregrino). Neste propósito de avivamento e santidade, conforme a compreensão dos irmãos Wesleys, que não concebiam santidade que não fosse santidade social, a Igreja Metodista foi pioneira na Inglaterra na fundação de escolas públicas para abrigar os filhos e filhas dos mineiros e operários, pioneira no movimento das escolas dominicais, que em sua origem além do ensino bíblico visava o ensino de gramática e matemática para crianças abandonadas e em situação de rua na época da revolução industrial, pioneira na luta por justiça social combatendo ativamente o tráfico escravagista e atuando fortemente pela reforma e humanização do sistema prisional e pioneira na criação de um sistema de enfermarias e caixas de empréstimos para atendimento às populações mais carentes de sua época.

A Igreja Metodista estabeleceu-se no Brasil através do trabalho missionário de Spaulding, Kidder e outros, a partir do ano de 1836. Muito embora tal projeto missionário fosse de matriz liberal-conservador, de cunho guerreiro-salvacionista e desta forma rejeitando a cultura brasileira e sua matriz, a Igreja Metodista foi pioneira no Brasil no campo educacional, através da colaboração de Martha Watts; no campo social, com a implantação do Instituto Central do Povo, através de Tucker; na assistência à saúde, principalmente na assistência aos portadores de hanseníase, através do trabalho de Eunice Weaver; na participação política cidadã e republicana, pioneira entre os evangélicos até então alheios às preocupações com a sociedade em geral, através de Guaracy Silveira e Ruy Ramos e no uso do rádio e da televisão para a pregação do evangelho, através de Joel Jorge de Mello. Tais pioneiros e pioneiras metodistas em terras brasileiras esforçaram-se para a perpetuação do legado espiritual de John e Charles Wesley, a despeito de suas limitações.

                Posteriormente, com o estabelecimento missionário nos mais diversos países do mundo, a Igreja Metodista continuou pioneira ao fazer parte dos mais diversos organismos ecumênicos, nos EUA, na Inglaterra, na Europa, América Latina e no mundo, na grande maioria dos casos como membro-fundador. A Igreja Metodista é membro-fundador do Conselho Mundial de Igrejas, do Conselho Latino Americano de Igrejas, da Confederação Evangélica do Brasil, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Brasil), da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Brasil) e de organismos ecumênicos nos EUA, Reino Unido, Europa e nas demais localidades do mundo. Esta convicção, a de que a unidade de testemunho dos cristãos é um imperativo, sempre foi um elemento impulsionador da missão como libertação integral dos seres humanos do pecado e das forças promotoras da morte. A Igreja Metodista, ainda no século XIX, foi pioneira no desenvolvimento do conceito de Evangelho Social, culminando no fato de ser a primeira igreja a desenvolver um Credo Social, um documento doutrinário basilar que orienta e guia seus membros no exercício cidadão da fé. A Igreja Metodista também é pioneira no reconhecimento e valorização da vocação feminina, desde a época dos irmãos Wesleys, sendo em todas as localidades onde está instalada uma das primeiras (senão a primeira) igrejas a aprovar a ordenação presbiteral de mulheres, garantindo direitos iguais e agindo de maneira contundente em favor da igualdade de gênero.

                Portanto, causa-nos preocupação a atual situação da Igreja Metodista que, para muitas pessoas, constitui ruptura com a longa e gloriosa trajetória de lutas e conquistas em favor do Reino de Deus e da libertação das pessoas das estruturas promotoras da morte, da exclusão, da discriminação e da opressão.

     a) Lamentamos e expressamos nossa perplexidade com a intervenção do Colégio Episcopal na autonomia universitária da UMESP e nos atos arbitrários cometidos contra docentes da Faculdade de Teologia. O curso de teologia da Igreja Metodista oferecido na UMESP é reconhecido pelo Ministério da Educação e Cultura (MEC) e avaliado como uma das melhores graduações em teologia em no país. Tal status foi conquistado através da dedicação e excelência acadêmica dos profissionais da UMESP e da FATEO. Há quase cem anos os professores são escolhidos conforme recomendação de Paulo em I Timóteo 5.17: "Devem ser considerados merecedores de dobrada honra os presbíteros e presbíteras que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino". Há tempos a Igreja vem escolhendo homens e mulheres com vocação pastoral reconhecida, que além de pastores e pastoras, cultivam a pesada disciplina do estudo, qualidade tão estimulada pelo próprio John Wesley. Estes servos e servas que, além de presidirem bem à Igreja como pastores e pastoras se afadigam no ensino, há tempos confirmam esta dupla vocação com as nomeações pastorais que recebem ao lado da labuta disciplinada do ensino, como contribuem com reflexões e comunicações não apenas nos inúmeros encontros da Igreja pelo país, como por meio de seus escritos. Nossos professores e professoras da FATEO têm atestado publicamente serem homens e mulheres de Deus. Por isso mesmo, face à inequívoca competência acadêmica acumulada, conseguiram fazer nosso curso de teologia reconhecido pelo MEC, conforme os rigorosos critérios daquele órgão. O curso de pós-graduação (strictu sensu) em Ciências da Religião é um curso avaliado como nota cinco pela CAPES/MEC, e tal situação só é possível pelo fato de que na pós-graduação a ênfase nos estudos é na produção de conhecimento científico, não no estudo de doutrinas denominacionais.

     Desta forma, sendo a graduação em teologia e a pós-graduação em ciências da religião cursos oferecidos à comunidade em geral, não apenas aos membros da Igreja Metodista, com cobrança de anuidade de acordo com valores de mercado, não nos parece ético que critérios casuísticos sejam adotados para a imposição de medidas que visam restringir a produção de conhecimento, alinhando-o à linha teológica hegemônica adotada pelo Colégio Episcopal, nem que a Igreja Metodista beneficie-se das mensalidades pagas pelos alunos e alunas que não fazem parte da Igreja Metodista para financiarem um seminário confessional.

     Parece-nos razoável que a Igreja Metodista mantenha seminários confessionais para a formação de obreiros e obreiras de acordo com a doutrina e orientação teológica estabelecidos pela Igreja Metodista em seus Concílios Gerais, como atualmente é o caso do Seminário Metodista César Dacorso Filho, na 1ª Região, que se estabeleceu como curso livre, sem reconhecimento do MEC, para atendimento das necessidades da Igreja Metodista. Todavia, não nos parece razoável que a igreja venha a se locupletar com os recursos financeiros obtidos pelas instituições de ensino, cujo funcionamento é regulamentado pelo Ministério da Educação e Cultura, tendo em vista a imposição de pensamento.

     b) Lamentamos e expressamos nossa preocupação com a postura autoritária, que busca calar vozes discordantes e divergentes, ao invés de estabelecer um proveitoso diálogo com vistas ao enriquecimento da experiência cristã através do exercício dos múltiplos dons e vocações. Tem-se multiplicado na Igreja Metodista, a partir do XVIII Concílio Geral da Igreja Metodista, realizado em 2006 em Aracruz-ES, exemplos de constrangimentos, perseguições, punições, retaliações, alijamentos e expulsões de membros nas diversas Regiões Eclesiásticas, tanto em nível local, distrital, regional e geral. Quando um membro da Igreja Metodista, seja leigo, leiga, clérigo ou clériga, sofre um processo de perseguição em sua maioria ilegal, esse membro não encontra guarida nas instâncias internas de mediação de conflitos, sejam as Comissões Regionais de Justiça, Comissão Geral de Constituição e Justiça, bispo ou bispa presidente de região ou Colégio Episcopal. Mais de uma vez membros da igreja que buscaram as instâncias internas visando à mediação e solução de conflito foram ignorados, tendo suas queixas sido arquivadas pelos presbíteros e presbíteras competentes. Tais presbíteros e presbítera com nomeação episcopal não tem o direito de ignorar os Cânones, Manual de Disciplina e Código de Ética Pastoral como fizeram nesses casos. Os bispos e bispa são presbíteros e presbítera eleitos e eleita conciliarmente para supervisionarem a Igreja, não se constituindo como ordem ou classe diferenciada de clérigos e clérigas. Na Igreja Metodista o episcopado é visto como cargo e como serviço, sendo o bispo ou bispa submissos aos Cânones e aos Concílios, não o inverso.

Preocupa-nos que cada vez mais o ministério episcopal da Igreja Metodista seja caracterizado pelo abandono das tradições democráticas, conciliares e canônicas que marcam a atuação do metodismo no mundo todo desde sua constituição como corpo eclesiástico independente, primeiramente nos Estados Unidos e depois na Inglaterra. Preocupa-nos que o ministério episcopal na Igreja Metodista esteja cada vez mais parecido com ministérios autointitulados apostólicos, que confere ao líder da igreja ou denominação poderes absolutos para decidir sobre os destinos da igreja e de seus comandados, sem que tal líder autocrático e personalista tenha de se subordinar a um sistema conciliar, conexional e canônico.

Desta forma manifestamo-nos contra a existência da figura do “Ato de Governo”, que é um instrumento autoritário e ditatorial, reminiscente dos Atos Institucionais utilizados pelo governo de exceção do Brasil. A Igreja Metodista é dirigida canonicamente pelos Concílios (local, distrital, regional e geral) e em seus interregnos pelas Coordenações de Ação Missionária (local, distrital, regional e geral). Portanto, é teologicamente e legalmente estranho ao metodismo a figura do episcopado monárquico, tal como existe nas Igrejas Católicas e Ortodoxas, ou a figura do episcopado autocrático conforme o modelo empresarial adotado pelas novas comunidades evangélicas de matriz neopentecostal.

     c) Expressamos nossa grande preocupação com a atual falta de transparência na gestão de recursos financeiros e gastos por parte da liderança da Igreja Metodista. As igrejas locais estão enfrentando desde final de 2011 processos de bloqueio judicial de seus recursos financeiros (contas correntes, poupanças e aplicações financeiras) com objetivo de quitar a imensa dívida trabalhista do Instituto Bennett. Até o presente momento não houve nenhuma comunicação oficial por parte do Colégio Episcopal esclarecendo à membresia leiga, que vê os frutos de suas contribuições financeiras e de sua dedicação no exercício da missão bloqueado de maneira aparentemente sem relação com sua atuação local. A situação financeira das instituições educacionais da Igreja Metodista, que são fonte de renda para custeio de despesas das Regiões e da Sede Nacional, através da transferência de recursos a título de aluguel, precisa se tornar pública para a membresia da igreja, bem como a publicação de balancetes mensais e planilhas de custos detalhadas.

     d) Apelamos ao Colégio Episcopal para que revejam as decisões que tem tornado a Igreja Metodista cada vez mais isolada e sectária e cada vez menos alinhada à tradição e história metodista, de respeito, tolerância, pluralidade e cooperação missionária. Causa constrangimento o fato de termos na figura do revmo. Paulo Lockmann o presidente do Concílio Mundial Metodista eleito na mesma reunião que o corpo que congrega as igrejas de tradição metodista aprovou a assinatura da Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, unindo-se à Igreja Católica e à Federação Luterana Mundial na compreensão deste aspecto teológico. No exercício de sua presidência o revmo. Paulo Lockmann participou de diversos cultos e celebrações ecumênicas ao redor do mundo, representando a comunidade metodista mundial, mas sua própria comunidade é impedida de vivenciar o testemunho conjunto com cristãos e cristãs de diversas confissões e tradições.

     O XVIII Concílio Geral aprovou a criação de uma comissão que se incumbiu de revisar a Carta Pastoral sobre o Ecumenismo. Tal comissão deu origem à Carta Pastoral Para Que Todos Sejam Um. Este documento foi chancelado pelos bispos e bispa e nele há orientações para estudo e compreensão da unidade dos cristãos na perspectiva metodista. No XIX Concílio Geral aprovou-se proposta de valorização da Carta, para que a mesma fosse estudada em nível local pelos pastores, pastoras, leigos e leigas. Todavia, até o momento o Colégio Episcopal da Igreja Metodista não tem cumprido seu papel de guardião da unidade orgânica e institucional da igreja e orientado o corpo clerical para o estudo, nem desenvolvido estratégias para a conscientização de sua membresia sobre a concepção metodista da unidade.

     e) Lamentamos profundamente o fato de que, a despeito de Carta Pastoral escrita e publicada em 2004, a Igreja Metodista esteja em processo de adoção do G-12 como modelo eclesiológico e doutrinário, contando com a omissão ou mesmo com a comissão das autoridades episcopais. Em diversas regiões e diversos distritos da Igreja Metodista no Brasil igrejas, pastores e pastoras têm sido coagidos e coagidas a adotarem o G-12, muito embora em seus documentos oficiais a Igreja Metodista afirme que “discipulado não é metodologia, mas estilo de vida”. Leigos e leigas muitas vezes tem sua participação em ministérios, como colaboradores ou coordenadores, vedada pelo fato deste membro não ter participado dos Encontros (como são chamados os retiros espirituais de iniciação no modelo em células). Leigos e leigas muitas vezes tem sua participação em Congressos Regionais de Discipulado pelo fato desses membros não terem participado de “escolas de líderes” (muito embora tal figura inexista na legislação canônica metodista) ou não serem “líderes de célula” (adotando inequivocamente a nomenclatura e prática do G-12 que o Colégio Episcopal tão clara e inequivocamente condenou). Tais situações são contrárias aos Cânones da Igreja Metodista, que determinam os direitos e deveres dos membros leigos, e também ao documento Dons e Ministérios, adotado oficialmente pela Igreja Metodista como sua forma de organização eclesial e regulando a participação dos leigos e leigas na vida da Igreja Metodista.

     Lamentamos também o processo de deterioração e abandono da Escola Dominical, que tem sido sistematicamente substituída por encontros de células e escola de líderes nas igrejas locais, a perda de representatividade e manipulação dos grupos societários, o abandono da liturgia oficial da Igreja Metodista, o abandono de práticas metodistas como o batismo infantil, o batismo por aspersão e a Ceia do Senhor às crianças.

     f) Apelamos ao Colégio Episcopal para que as ações autoritárias e decisões obscuras deem lugar a um amplo processo de diálogo no qual todas as diferentes concepções de missão coexistentes na Igreja Metodista, todas as linhas teológicas representadas em sua membresia leiga e clériga (tradicionais, conservadores, liberais, progressistas, carismáticos e neopentecostais) possam sentar juntos em torno da mesa da fraternidade e da compreensão.

                Que este processo amplo de diálogo, com ampla representatividade das diversas vocações, não apenas contando com representantes da linha teológica hegemônica, vise à discussão do conceito de missão, dons e ministérios, vocação e atuação cristã cidadã. Que a pluralidade de pensamento sempre presente na Igreja Metodista seja vista como riqueza, não como ameaça. Que todos e todas sejam estimulados e estimuladas a contribuírem ativamente com a missão que é de Deus, sendo portanto, de todas as pessoas. Que todos e todas tenham sua individualidade e particularidade respeitada, dentro de uma concepção de missão construída coletivamente e conciliarmente, conforme a história e tradição metodista.

                Desta forma, subscrevemos este manifesto, na fé, esperança e amor firmados em Jesus Cristo, Senhor da Igreja e Senhor da história, confiantes na atuação do Espírito Santo no mundo e na igreja, mesmo em momentos de obscuridade e fechamento de espaços de convivência, respeito e diálogo.


                São Paulo, inverno de 2013, ano do Senhor.

Os irmãos e irmãs da Igreja Metodista que desejarem subscrever o manifesto podem fazê-lo clicando aqui: Assinamos o Manifesto a Respeito da Atual Situação da Igreja Metodista