terça-feira, 14 de abril de 2015

Carta aberta ao revmo.bispo Roberto Alves de Souza



Carta, assinada por 55 pessoas da Igreja Metodista em Bela Aurora, entregue ao Bispo Roberto ontem, a respeito do Pastor Moisés Coppe:


Ao Revmo. Bispo Roberto Alves de Souza
Bispo Supervisor da 4ª Região Eclesiástica da Igreja Metodista
Em mãos
Juiz de Fora, 12 de abril de 2015.
Prezado Bispo,
Esta carta aberta tem a intenção de manifestar nosso sentimento e nossas preocupações em relação ao que aconteceu com o querido Pastor Moisés Coppe, que estava à frente de nossa Igreja até semana passada, quando entregou suas credenciais pastorais. Não se trata de um documento oficial da igreja local, uma vez que não foi objeto de discussão no Concílio, por falta de tempo e condições pata tal. É um manifesto pessoal, compartilhado pelas pessoas que a ele aderiram.

Primeiramente, queremos manifestar nossa profunda tristeza com a perda desse grande pastor que foi para todos nós o Moisés. Testemunhamos sua retidão de caráter, seu comportamento exemplar à frente da nossa igreja, seu amor incondicional a todas as suas ovelhas e sua brilhante capacidade de dirigir palavras sábias, profundas e embasadas na Sã Doutrina, seja nos aconselhamentos individuais, nas classes da Escola Dominical, nas pregações e em todas as demais oportunidades. É até difícil narrar a comoção que tomou conta da Igreja quando recebemos a notícia. No culto de Páscoa, apesar da beleza da programação, com destaque para a participação de nossas crianças, todos se emocionaram muito com a perda desse Pastor. De crianças a idosos, muitos choraram.

Julgamos que o Pastor Moisés foi injustiçado quando, em 2011, sofreu processo disciplinar. O motivo de tal processo – o recebimento de irmãos de Belém do Pará como membros de nossa igreja, não nos parece razoável. Como punir quem acolhe, quem recebe à comunhão? Sabemos que ele foi, muitas vezes, perseguido e injustiçado pela intransigente defesa que faz do que considera representar a essência da fé metodista e pelas corajosas críticas a determinados movimentos e ações que, embora estejam na moda, contrariam o que acreditamos ser coerente com a história do metodismo.

Estamos decepcionados também com a rápida aceitação do pedido de desligamento que ele apresentou, sem qualquer tentativa de reconciliação. Um obreiro da qualidade do pastor Moisés merecia ao menos uma tentativa de reversão dessa situação. 

Estamos, portanto, solidários ao nosso querido Pastor e manifestamos por esta carta irrestrito apoio às causas por ele defendidas.

Em Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador,

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Carta de Desligamento da Igreja Metodista no Brasil

Carta de Desligamento da Igreja Metodista no Brasil


JUIZ DE FORA, Páscoa de 2015 – Domingo da Ressurreição

Palavras iniciais
Combati o bom combate
Completei a carreira
Guardei a fé.
II Timóteo 4.7

Amigos e amigas que me conquistaram na trajetória pastoral,
Graça e paz!

Na epígrafe em evidência, o apóstolo Paulo, no contexto da segunda carta a Timóteo, nos estágios finais de sua própria vida, revela um resumo de sua jornada espiritual com Cristo. As três frases constituem-se num tripé fundamental para toda pessoa que deseja de todo o coração, ser fiel à carreira a que se propõe. Segundo William Barclay, teólogo escocês, é provável que o apóstolo Paulo tenha feito uma analogia entre a sua vida e os jogos romanos, usuais em seu tempo. Por exemplo, ao falar de combate, alude à competição que ocorria na arena do circo romano. Combater o bom combate refere-se, então, à consciente disposição do atleta em doar energia numa boa e justa luta independente de ganhar ou perder. No que se refere a completar a carreira, Barclay afirma que “é fácil começar; difícil terminar. Na vida é necessária a resistência, e muita gente não a tem”. Entretanto, Paulo declara que concluiu bem a carreira a que se propôs. E, em terceiro lugar, Paulo afirma ter guardado a fé, numa possível alusão ao fato de que ele honrou sua missão, sendo fiel a Cristo. (BARCLAY: The second letter to Timothy. Disponível em ipuniao.org.br/ biblioteca).
Longe de parecer-me com o referido apóstolo, tomo emprestadas as suas palavras e o comentário devocional de Barclay, para dizer: combati o bom combate, guardei a fé, mas não vou completar a carreira, pelo menos no campo ministerial na igreja metodista no Brasil. Entretanto, fiz o melhor que pude e com sincero sentimento de dedicação, pastoreei com responsabilidade os paroquianos a mim confiados, honrando em meu ministério Cristo, meu Senhor.
Numa perspectiva pessoal, esta será a última vez que escrevo a essa que foi sempre minha amada igreja. Quanto aos (às) amigos (as), continuarei a relatar meus sentimentos, num campo mais amplo e livre. De antemão, gostaria muito que todos considerassem esta minha narrativa na perspectiva de uma alma inquieta, que sempre desejou contribuir sobejamente pela causa do Reino de Deus. Em segundo lugar, espero que este comunicado seja acolhido como a expressão de alguém que espera o bem estar para todas as pessoas.


Desencantamento com a igreja metodista
Para os que acham que a minha decisão foi impensada ou tomada puramente no campo das emoções, quero deixar claro que minha inquietação com a igreja metodista iniciou-se em 2006, no campo de guerra chamado concílio geral.
Neste conclave, marcado por um alto índice de politicagem suja nos bastidores e corredores, antes e durante as sessões, acordos espúrios foram efetivados, gerando umas das mais insanas eleições da história do metodismo em terras brasileiras. Sempre ouvi em testemunhos múltiplos oriundos de amigos (as), que a eleição de um bispo ou de uma episcopisa se dava num campo de sensibilidade espiritual, onde os (as) pastores (as) reconheciam entre os pares os mais capacitados pastoralmente para o exercício de pastorear pastores (as). Entretanto, o clima pesado das eleições em 2006, a decisão contra a proposição ecumênica da igreja metodista e a patinação administrativa, aliada a hipocrisias díspares, me fizeram sofrer um primeiro processo de desencantamento. A igreja era para mim a namorada ideal, com suas imperfeições, é claro, mas ideal em minhas perspectivas pontuais. Muito do que conquistei em minha vida devo a igreja metodista, como por exemplo, os rudimentos da fé, a formação teológica e os valores que fizeram de mim uma pessoa melhor. Adjunto a essas conquistas, aprendi a ser transparente por demais. A primeira sessão do concílio em Aracruz finalizou-se, sem finalizar-se. Veio a segunda sessão, pois todas as temáticas administrativas estavam em aberto, entretanto novas conciliações esquizofrênicas aconteceram em São Bernardo do Campo, na Umesp. Os conchavos por debaixo dos panos continuaram. Fingiu-se a conciliação, mas a ferida aberta na primeira sessão, imensa por sinal, ficou aberta.

  
Debate de ideias, defesa das pessoas
Com a chegada do atual bispo da IV Região, em 2007, as expectativas eram grandes e alvissareiras. Teríamos um tempo diferenciado para a região? No concílio regional de 2006, fui eleito para a Coordenação regional de ação missionária – Coream (2007-2008). Na mesa, já no exercício da função, debatemos questões específicas inerentes à natureza da igreja metodista na IV Região, e logicamente, muitas indisposições advieram, pois a tonalidade impositiva da “presidência” se tornou evidente. Embora ciente de que as questões estavam sendo tratadas no campo das ideias e não no campo pessoal, decorreu dessa relação o surgimento de uma série de comentários, principalmente oriundos dos meus pares, que afirmavam que eu estava me levantando contra o bispo da região. Todavia, longe de mim estava a ideia de importunar qualquer pessoa dentro dos círculos sociais e eclesiásticos. Ao contrário, estava tão somente, defendendo os interesses da IV Região, tendo sido legitimamente eleito em concílio para a função. Inclusive, em uma reunião afirmei em alto e bom som que não estávamos contra o bispo. Estávamos querendo que as demandas regionais dessem muito certo, como até hoje muitos querem – Eu abandonei essa ideia. E por causa de palavras como essa e outras proposições, os comentários se ampliaram. Na época não dei muita atenção. Mas ultimamente, em meio a múltiplas revisões de vida, tenho me debruçado em agonia. Minha família muito sofreu, por ouvir o que não precisava ouvir. Enfim, minha intenção sempre foi a de trabalhar em prol do bem estar social, segundo o princípio bíblico de buscar o Reino de Deus e sua justiça.


Concílio Regional de 2008
No concílio regional de 2008, confesso ter ficado muito indignado quando percebi ter sido vitimado por colegas que usaram o meu nome de forma indevida, inclusive acusando-me de armar um golpe contra o bispo, em virtude de estar participando do movimento: Metodistas Confessantes. Detesto a ideia de ver ou saber que meu nome está sendo talhado em círculo alheio. A tal sala de oração, neste mesmo concílio, que se transformou em covil de salteadores – situação da qual o bispo tomou conhecimento – corroborou com a injustiça e desfez os princípios sagrados do Reino de Deus. De minha parte, gosto muito da conversa ao pé da mesa, embora, naquele tempo e na atualidade, elas não sejam muito permitidas, afinal de contas, o que vale é seguir a “visão” imposta.
Do meu envolvimento com os Metodistas Confessantes, como a maioria sabe, surgiu a questão dos irmãos de Belém em 2010. Pela amizade e o carinho que nutria, especialmente por um irmão em específico, o qual conheci no Instituto Metodista Granbery, agi com o intuito de tentar reverter um quadro que, na minha concepção pessoal, estava sendo conduzido de forma indevida e poderia ter um desfecho pastoral emblemático e significativo. Sempre acreditei no pluralismo da igreja e na sua sempre constante busca por unidade. Sempre acreditei que o mais belo em toda a trajetória da igreja metodista estava figurado no fato dela saber lidar com as suas diferenças de forma conciliar. De fato, somos diferentes e plurais, mas isso não nos impede de termos objetivos comuns, conquistados no terreno do diálogo franco, honesto e preocupado com o bem estar das pessoas, pelo menos em sua maior parte. Em suma, nossa identidade ou o que se pensa dela, é marcada pela síntese das contradições. Essa é a minha concepção.
Na mesma época supracitada, fiquei triste ao saber, que por ocasião de uma visita a um irmão e sua família, que moravam na cidade de Belisário, juntamente com vários outros irmãos e irmãs da cidade de Juiz de Fora, espalhou-se a notícia de que eu estava me lançando candidato a bispo. Fiquei estupefato com a fofoca. Assimilei-a com certo humor e o tempo, sempre meu grande aliado, mostrou o quanto os burburinhos estavam equivocados.


Águas passadas não movem moinhos
Dizem por aí que "águas passadas não movem moinhos", o que compartilho, mas não podemos nos esquecer de que as águas passadas podem arruinar e até apodrecer o moinho. Sendo assim, não quero mais ver os moinhos que giram em minha vida serem arruinados por coisa ou pessoa alguma. Na minha concepção, alguns moinhos precisam ser abandonados à própria sorte e lançados ao mar do esquecimento, para usar aqui uma figura bíblica.
Outrossim, expresso a todos que a minha vida sempre foi um livro aberto. Casado há 24 anos com uma mulher especial e companheira, tendo um filho e uma filha, ambos na adolescência, sempre me preocupei com a minha vida familiar. Ultimamente, estava fazendo minha família sofrer, pois eu mesmo estava em sofrimento. Fiquei deprimido por três semanas. Não tinha vontade de sair de casa. Procurei um médico e ele me disse que o remédio que eu precisava administrar não poderia ser receitado por ele. Sim, meu problema era a igreja metodista no Brasil. Não a sua belíssima e rica doutrina, mas os elementos que compõem sua rasa visão na atualidade.
Em minhas intermináveis buscas por sentido em relação ao momento que estava vivenciando, a memória levou-me a lembrar-me do meu encontro diferenciado com Cristo aos 16 anos, na igreja metodista do bairro Monte Castelo – JF. Entretanto, antes de fazer meus votos na referida igreja, pesquisei e visitei diversas outras denominações com o finalidade de saber onde eu poderia desenvolver meus dons e talentos. Enfim, descobri que a que mais me apetecia era a metodista, por três fatores específicos:
1. Abertura para a ecumenicidade numa dimensão criteriosa;
2. Perspectiva conciliar com amplas participações dos leigos;
3. Teologia da graça;

Esses elementos me alimentaram a alma e me deram contentamento para a jornada cristã. Trabalhei sempre entendendo a nossa pluralidade. Defendi perspectivas, valorizando ideias alheias e até diferentes das minhas. Nunca fui um conservador ou tradicional. Sempre lutei e preguei pela boa renovação da igreja. Sempre entendi que uma igreja viva precisava de novas inspirações para a vida pública. No metodismo, sempre encontrei isso.
Mas agora, os tempos são outros. Eu estou completamente boquiaberto com o volume de proposições neopentecostais no arcabouço da igreja metodista no Brasil. O fato é que uma instituição como a metodista precisa de dinheiro para se manter estruturalmente. Antes, o dinheiro provinha de instituições ecumênicas e das Universidades Metodistas. Hoje, o caminho se dá pela arrecadação financeira indiscriminada. Recentemente, encontrei uma manifestação em rede social, convidando pessoas para comprarem a “água consagrada”. Nesse arcabouço, entristece-me saber que líderes nas igrejas estão oprimindo seus membros com doutrinas espúrias e campanhas fraudulentas. Entristece-me saber dascampanhas financeiras travestidas de campanhas de prosperidade. Entristece-me saber que muitos estão evidenciando o assédio moral sobre os membros da igreja, quando estes se opõem aos famigerados “encontros com Deus(?)”. Entristece-me saber que os bons são os que fazem a igreja encher-se a qualquer custo. Entristece-me saber que a boa fé dos(as) irmãos(ãs) é usada para que a(o) pastora(or) tenha um alto salário. A(O) obreira(o) é digna(o) do seu salário, mas é indignidade explorar a fé alheia. Entristece-me saber que asassessorias estão preocupadas, em sua maioria, com a posição social e o status quo.Pastores(as) estão abandonados(as) à própria sorte. Muitos só permanecem por falta de opção. Poderia citar uns cinquenta, sem pestanejar. Isso só na IV Região. Nunca se chegou a um nível tão grandioso de doenças emocionais e físicas, como na atualidade, além de crises homéricas. Nos corredores eclesiásticos, clamores, os mais diversos, se intercruzam desvelando problemas, no mínimo, assustadores.


Cansaço gerado pela teimosia
Eu não sou perfeito e nem padrão de santidade amorfa para ninguém, mas sempre zelei pelo púlpito e pela prática pastoral equilibrada. Luto pelas pessoas quando as vejo injustiçadas pelo sistema. Foi essa igreja quem me conquistou para o ministério pastoral e quem me preparou para ser o que hoje sou. Amei profundamente e me desiludi profundamente quando suas principais balizas foram alteradas, fazendo ruir o edifício histórico que apresentava os monumentos de uma sempre viva tradição wesleyana. Não compactuo com:
1.      Autoritarismo dos líderes eclesiásticos, com aceitação muda de imposições ditatoriais;
2.      Visão do G12;
3.      Igreja em células;
4.      Favorecimento dos bajuladores ou os que “puxam o saco”;
5.      Chacotas e piadinhas sobre os que não se adéquam;

Eu, de fato, hoje, não consigo mais defender ou mesmo aplicar à dinâmica do meu ministério pessoal os procedimentos burocráticos solicitados pela igreja metodista, em geral. Não consigo mais ser submisso ao que não acredito. Se no passado assim agi, foi muito mais por acreditar na possibilidade de transformação. Mas ela não veio; ela não ocorreu, ou veio de um jeito estranho ao meu olhar e ao olhar de muitos.
Pode parecer fuga ou coisa do gênero, mas não quero mais lutar contra os monstros imaginários que perambulam por esta instituição. Ademais, o que julgo importante não serve para a “visão” atual. Cansei, e não mais quero exercer o meu direito de falar e de me expor como muitas vezes o fiz. Cansei de tudo isso. Recolho-me à minha insignificância. Todas essas reflexões nascem no terreno da angústia e se aguçam ainda mais quando percebo que sou apenas um joguete nas mãos da instituição. Não quero mais sê-lo.
Assim, lanço-me à sorte, deixando uma trajetória pastoral de 22 anos, começada na igreja metodista de Conselheiro Lafaiete (1992) – meu primeiro desafio missionário, passando pelas igrejas metodistas de Goiabeiras – ES (1997-1999); Central de Belo Horizonte (2000-2003); Benfica em Juiz de Fora (2004-2005); Pastoral do Granbery (2006-2007); Jardinópolis em Juiz de Fora (2007); e culminando agora na igreja metodista Bela Aurora (2008-2015).


O exercício do ministério pastoral
Para mim, ainda, o exercício da carreira ministerial em uma comunidade que tipifica sempre a esperança de um novo amanhecer é especial, mesmo quando o momento é um crepúsculo cinzento e nebuloso.
Juro que tentei salvaguardar a minha alma das intempéries do dia-a-dia para manter-me sóbrio no exercer de minha prática na igreja local. Mas, em vão! Os mandos e desmandos oriundos de um processo sem base histórica, sem o mínimo de leitura criteriosa da tradição, deixaram-me sempre com uma pulga atrás da orelha e múltiplas inquietações no exercício de minha função.
Deixo o exercício ministerial na igreja metodista com honra. Não dividi a comunidade e nem convidei qualquer pessoa para sair comigo.
Saio sem nenhuma perspectiva profissional, tampouco atividade remunerativa que me auxilie financeiramente, pelo menos por enquanto. Corro o risco da minha decisão, acompanhado de minha família. Como já se tornou evidente em minhas palavras, perdi todas as coisas, porque perdi a alegria – esse elã vital – em exercer, prontamente, minhas autênticas inclinações e convicções pastorais. Mas vou recuperá-la, brevemente.  Mesmo assim, quero deixar claro que deixo de ser pastor da igreja metodista no Brasil, mas não deixo de ser um pastor metodista!


Nãos!
E para os incautos, um ditoso aviso: coisa alguma me desabona no campo da moral. Não estou em pecado. Não roubo. Não adultero. Não sou relapso com a obra. Não prego mal e sem fundamentos bíblicos. Não organizo o culto nas coxas. Não sou um teólogo fraco. Não ministro equivocadamente os sacramentos. Não maltrato as pessoas. Não sou preguiçoso. Não sou maledicente. Não tenho medo. Não recuo diante dos desafios quevalem à pena. Não me considero melhor e nem pior do que qualquer pessoa. Sou, sim, tomado continuamente por um angustiante sentimento de inadequação e de desencantamento para com a igreja metodista.
Essas deformações que se instalaram em minha alma me fazem desistir do ministério na igreja metodista no Brasil, mas não do ministério pastoral para o qual Deus me chamou.


Entrega das credenciais
Ao longo dos últimos nove anos, fui convidado a entregar minhas credenciais. Diziam: “Se não está satisfeito, então sai! Pois a igreja metodista agora é assim!” Muitos, inclusive, torceram para eu entregar as credenciais. Demorei a tomar essa decisão, pois para mim, entregar uma credencial é mero ato institucional e sem valor espiritual. Mesmo porque o meu ministério pastoral pessoa alguma pode tirar! Além do mais, por causa da igreja metodista em Bela Aurora, segurei a entrega até onde pude! Hoje, continuo submisso a Deus e ao chamado que Ele me fez. Hoje, quero tão somente a possibilidade de exercer meu ministério. Hoje, almejo a oportunidade de expressar a minha fé em consonância com outros, visando o bem estar comum e integral. Hoje, não quero mais continuar nesta igreja metodista, pois seus mandos e desmandos atuais provocam-me náuseas. Não existem mais as construções no campo conciliar, somente a imposição de visões inconsistentes. Sempre me preparei para assessorar a medida do possível as instâncias da igreja, visando a sua maior aproximação à dinâmica do Reino de Deus. Acontece que, por uma razão óbvia, elencada em várias frases neste texto, minhas emoções foram determinantemente afetadas e me fizeram uma pessoa triste. Mas eu não sou assim!
Sendo assim, entreguei as minhas credenciais à igreja metodista no Brasil. Para os que torceram por isso, dedico minhas credenciais. Tomem-na nas mãos e celebrem os despojos como bem pretenderem.


Palavras finais
Uma pergunta agora se faz necessária. Quais coisas ficam para mim?
Ficam para mim, tão somente, as pessoas queridas que tornaram minha caminhada menos áspera, as boas memórias e os rastros de coisas boas realizadas ao longo dos últimos anos.
Peço perdão aos que se decepcionaram com a minha decisão. Peço perdão aos que ficaram chateados. Mas que todos saibam que eu tentei permanecer. Foi-me impossível, por causa das afrontas que sofri a ainda sofro por parte de gente que nunca conversou comigo.
Portanto, já desligado oficialmente da igreja metodista no Brasil, lanço-me às proposições que o mundo me apresentar.
Não citarei nomes aqui, mesmo porque aos amigos eu já confidenciei todos os meus sentimentos. Saio com a benção de gente que gosta de mim. Saio com a benção de quem conhece a minha vida. Saio com a benção de gente que eu respeito profundamente.
No mais, só posso agradecer o que se passou, lamentar profundamente o caminho proposto para a igreja metodista na atualidade, e confiar na trajetória que em algum momento, se abrirá para mim, ou não.
Kírie Eleyson.

Moisés Abdon Coppe

Ex-pastor da igreja metodista no Brasil

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Teologia é no plural – Hugo Assmann e a Teologia Latino-Americana da Libertação

Teologia é no plural – Hugo Assmann e a Teologia Latino-Americana da Libertação




A singularidade da teologia de Hugo Assmann pode ser encontrada em vários aspectos. O texto destaca três deles: a busca incessante pelo “fato maior” de cada momento da história, para que a teologia possa responder, o mais adequadamente possível, aos desafios do tempo presente; a ânsia em forjar uma compreensão ecumênica da vida e da teologia, a fim de que os esforços teológicos não sejam reféns das ‘amarras’ eclesiásticas; e o anúncio, em tom retumbante, de que o Reino de Deus não se esgota na história, mas vai além, e por isso, ajuda a relativizar os projetos humanos, horizontalizantes demais, que tendem a se tornar idolátricos. As três buscas acompanharam o teólogo e possibilitara-lhe, ao longo das décadas de produção científica, que novos enfoques fossem dados, novos temas assumidos e uma compreensão teológica plural formulada e indicada.

Artigo de Claudio de Oliveira Ribeiro



sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

A tortura como método: Reverendo Fred Morris

A tortura como método: Reverendo Fred Morris


No dia 11 de dezembro de 1974, eu fui convidado a testemunhar perante um comitê do Congresso dos EUA sobre minhas experiências nas salas de tortura do Exercito Brasileiro.  Neste testemunho entre muitas outras coisas eu disse o seguinte:

“A tortura embrutece e desumanize não apenas aqueles que são torturados mas aqueles que torturam, aqueles que são intimidados pela tortura de outros, e aqueles que se esforçam para ignorar o fato que tortura existe.
“A tortura desumaniza aqueles que são torturados os tratando como menos-que-umano e, em muitos casos, por os forçar a sentir sentimentos menos-que-umano e frequentemente a praticar atos menos-que-umano.  Se uma pessoa é obrigada a trair amigos, companheiros e família pela tortura, como acontece com muitos, o dano psicológico e espiritual poderá ser irremediável, sem falar dos danos físicos que frequentemente resultam.
“A tortura desumaniza aqueles que torturam.  Além da psicopatologia induzida e encorajada naqueles que praticam a tortura, pessoas e governos que torturam, por qualquer motivo, traem o contrato social com seus semelhantes e efetivamente se retiram da comunidade humana.
“A tortura desumaniza aqueles que são intimidados por ela.  Líderes religiosos que deixam de proclamar o Evangelho em sua plenitude por medo; estudantes que deixam de fazer a busca da verdade por medo de represálias; trabalhadores que, por medo de repressão, não se permitem a organizar para defender seus interesses; políticos que somente podem carimbar propostas autoritárias de regimes ditatoriais, por medo das conseqüências de ações de consciência—todos estes, e, de fato, toda a comunidade humana participa na desumanização coletiva causada pela tortura.
“A tortura desumaniza aqueles que tentam ignorar sua existência, dizendo que é ‘assunto interno,’ ou uma fase passageira.  Tal indiferença resseca as fontes de simpatia humana e compaixão e quebra o contrato social da comunidade mundial de estar preocupada com toda a família humana.  Civilização e liberdade não são construídas e nem podem ser mantidas por aqueles que adotam a postura de indiferença.”

Fred Morris
Rev.Fred Morris foi missionário da Junta de Missões Globais da Igreja Metodista Unida no Brasil entre 1969 e 1974 e foi o primeiro cidadão norte-americano a ser torturado pelo regime militar brasileiro. Em 2008 ele foi julgado e anistiado pelo governo brasileiro. 

Em 30 de setembro de 1974 o rev.Fred Morris foi sequestrado pelo Exército Brasileiro. Em 29 de setembro de 2013 ele pregou este sermão na Igreja Metodista Unida Shandon.





quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça

Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça


Dia 10 de dezembro. Dia Internacional dos Direitos Humanos. Dia da entrega do relatório da Comissão Nacional da Verdade.

Notícias sobre a Igreja e a Ditadura.


Comissão relata papel de igrejas no golpe


Documento sobre abusos da ditadura, a ser revelado quarta-feira, menciona apoio e depois condenação de religiosos ao regime de 64. O apoio dado pelas igrejas do Brasil ao golpe militar de 1964 e, mais tarde, à consolidação da ditadura, terá destaque no relatório final da Comissão Nacional da Verdade que será entregue à presidente Dilma Rousseff na quarta feira.


A informação é do coordenador do grupo de trabalho encarregado de analisar a questão religiosa naquele período, o cientista social Anivaldo Padilha.


Em entrevista ao Estado, ele observou que já existe grande quantidade de estudos e pesquisas sobre as perseguições sofridas pelas igrejas e a resistência de religiosos e leigos à ditadura. O colaboracionismo, porém, ainda teria sido pouco estudado. "Lideranças religiosas católicas e protestantes apoiaram o golpe e contribuíram em seguida para a legitimação e consolidação da ditadura", afirmou.




Relatório da Comissão Nacional da Verdade é entregue à presidenta Dilma Rousseff e também disponibilizado na internet


Em solenidade realizada na manhã desta quarta-feira (10) em Brasília, foi entregue à presidenta Dilma Rousseff o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Com quase 4.500 páginas, divididos em três volumes, o material reúne o relato das atividades desenvolvidas pelo colegiado durante os dois anos e sete meses de investigações, além de fatos apurados, conclusões e recomendações.



Ao todo, foram cerca de 1,1 mil depoimentos colhidos durante o trabalho. O capítulo referente ao papel das igrejas na ditadura está no Volume 2, Texto 4, páginas 151 a 196.


Simultaneamente à apresentação do trabalho à presidenta Dilma – observada sob olhos atentos e emocionados de familiares de presos políticos e de outras autoridades no Palácio do Planalto -, o material também foi disponibilizado para a sociedade no site da CNV.




Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade.



Entregue às/os brasileiras/os. Qualquer pessoa pode acessar o conteúdo completo. O Capítulo referente ao Papel das Igrejas na Ditadura está no Voluma 2, Texto 4, páginas 151 a 196. 




Projeto revela memórias dos militantes protestantes durante a ditadura


Nos dias 11 e 12 de dezembro, no Rio, acontece o lançamento simultâneo do documentário “Muros e Pontes: Memória Protestante na Ditadura”, do livro “Memórias Ecumênicas Protestantes” e do acervo digital com mais de 20 mil páginas de documentos, contando a trajetória de homens e mulheres que fizeram parte da resistência protestante à ditadura no Brasil.



Os lançamentos são atrações do seminário “Protestantes, Democracia e Ditadura”, que começa às 14h do dia 11, no Hotel Golden Park, na Glória. (A exibição do filme fica para às 18h, no Auditório da CAARJ/OABRJ, na Avenida Marechal Câmara, nº 210, Castelo). O evento recomeça no dia seguinte, às 9h e continuará trazendo debates com personagens que fizeram e fazem parte de história da resistência protestante (que se entrelaça com a trajetória do Movimento Ecumênico).



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