sexta-feira, 22 de março de 2013

Carta sobre a Comissão de Direitos Humanos na Câmara e sobre a Distribuição das Presidências das Comissões na Câmara


SOBRE DIREITOS HUMANOS NA CÂMARA

Vivemos um clima de acirramento dos ânimos na Câmara dos Deputados. De um lado, estão os movimentos sociais, que tinham na Comissão de Direitos Humanos o espaço institucional adequado para efetivar suas lutas. De outro, deputados evangélicos que formam a maioria na composição da Comissão, inclusive sua presidência. Vários deputados evangélicos têm assumido presidência de colegiados e poderiam ocupar o cargo na Comissão de Direitos Humanos sem grandes polêmicas. Contudo, declarações que apresentaram uma postura política adversa aos direitos humanos geraram tal acirramento.

Os principais pontos conflitantes giram em torno de direitos civis de homossexuais, racismo e liberdade religiosa. Muitos deputados evangélicos são acusados de homofóbicos, por assumirem postura contrária a todos e quaisquer direitos civis dos homossexuais. Também são considerados racistas, em função de declarações ligadas a negros e de conflitos com religiões de matrizes africanas. Há também a preocupação de que parlamentares evangélicos violem a laicidade do Estado, ao incluir na legislação princípios exclusivos de suas religiões, com o objetivo de impô-los a toda a população.

São mais de 60 deputados evangélicos na Câmara dos Deputados, o que é um número significativo no total de 513. Quase todos foram eleitos como candidatos oficiais de alguma denominação evangélica, demonstrando o forte vínculo partidário de tais denominações. Elas exercem ou podem exercer influência direta sobre as posições dos parlamentares evangélicos. Nem sempre os eleitores têm os meios adequados de avaliar e acompanhar a atuação política dos deputados que elegem, o que contribui para o descolamento do legislativo em relação à sociedade.

De forma geral, grande importância é conferida às questões econômicas em disputas no Congresso Nacional. Vivemos situações adversas para o povo nos anos 90, com uma mudança de rumo na primeira década desse século, chegando a relativos avanços em políticas sociais que levaram à redução das desigualdades. Entretanto, apesar de termos nos livrado do FMI e reduzido significativamente a taxa de juros, a opressão do poder econômico ainda é muito grande. O Estado brasileiro cobra mais impostos dos pobres em função do sistema tributário que temos e quase a metade do orçamento executado pela União vai para o bolso dos ricos através do pagamento do serviço da dívida1. Há ainda, por exemplo, questões fundamentais relativas ao tema do meio ambiente no contexto das prioridades produtivas assumidas pelo Brasil, com forte peso do agronegócio, além das mudanças climáticas globais, que criam há anos sérios desafios a uma política ambiental consistente e justa. Infelizmente, não vemos como pauta do conjunto de deputados evangélicos esses e outros temas de grande relevância para vida do povo brasileiro.

Por outro lado, além de grande preocupação em relação a questões ligadas à sexualidade, observamos também a defesa de interesses dos mais favorecidos. Como exemplo, podemos citar uma parceria entre o lobby da Confederação Nacional da Indústria (CNI) e parlamentares católicos e evangélicos, que impediu a aprovação de projeto que criaria a Contribuição Social das Grandes Fortunas (CSGF), recurso que seria destinado exclusivamente para a saúde2.

No plano dos Direitos Humanos, destacamos alguns pontos conflitantes que necessitam de amplo debate na perspectiva dos princípios cristãos:
  • Sobre Direitos Civis de Homossexuais – Temos observado uma postura dos deputados evangélicos contrária à defesa de direitos civis de homossexuais, transmitindo uma imagem de que os evangélicos odeiam os homossexuais, apesar de repetidas declarações de que os amam e de que não são homofóbicos3. Lembremos de que, mesmo entre grupos evangélicos, as interpretações bíblico-teológicas sobre homossexualidade são muito variadas. Além disso, numa sociedade pluralista como a nossa, devemos partir do pressuposto de que Direitos Humanos são princípios fundamentais e inerentes à pessoa, independentemente de orientação sexual e gênero.
  • Sobre Racismo e Liberdade Religiosa – Afirmações de deputados evangélicos com citações bíblicas a respeito da questão racial tornam necessário um aprofundamento desse debate e abrem o precedente de que tais citações sejam objeto de crítica e interpretações diversas no debate público. No passado, evangélicos escravagistas se colocavam contra a libertação dos negros e defendiam suas ideias com argumentos bíblicos. Nem por isso a compreensão dessa interpretação se manteve como a única leitura aceitável. Já não era mesmo naquela época. Somando-se a isso, observa-se um significativo número de conflitos relacionados à intolerância de evangélicos frente às religiões de matrizes africanas, com lamentáveis confusões entre divergências doutrinárias e rituais, e agressividade e desrespeito para com pessoas dessas religiões.
Tais pontos são bastante polêmicos para as igrejas evangélicas, mas estão em pauta na Câmara dos Deputados, especialmente na Comissão de Direitos Humanos. Todas as diferentes vozes que os representam precisam ser não somente ouvidas, mas ter a oportunidade de serem representadas no conteúdo das mudanças legislativas ou das políticas de Estado implementadas nessa área, que devem ser monitoradas e fiscalizadas pelo Congresso. Parlamentares evangélicos, assim como de qualquer outra religião, devem lembrar que a liberdade religiosa assegura que regras ou costumes de uma determinada religião não podem ser impostos a qualquer pessoa. Muito menos podem tais regras ou costumes serem codificados em lei. Antes, os parlamentares são chamados a fazer bom uso de princípios que venham de suas religiões para o bem geral da sociedade. Devem lembrar também que sua autoridade emana do povo. Assim, não são chamados para defender os interesses da religião A ou B, mas sim os interesses gerais da sociedade.

O lamentável histórico de corrupção na atuação de um grande número de deputados evangélicos; o distanciamento da defesa de direitos humanos; o estranhamento social face à forma de arrecadação financeira de muitas igrejas evangélicas4, que se dá majoritariamente como uma espécie de “venda de milagres”, especialmente junto às camadas mais pobres da população; a posição contrária aos direitos civis dos homossexuais, expressões de racismo e intolerância religiosa; são os elementos principais na formação da imagem pública do grupo denominado “evangélicos” na Câmara dos Deputados. Infelizmente, muito distante do que aprendemos com o exemplo de Cristo. Uma imagem que precisa ser urgentemente desfeita, tanto em face da integridade de muitos parlamentares eleitos ao longo das últimas décadas, quanto em vista do futuro de uma representação evangélica na vida política nacional.

Naturalmente sabemos que o perfil dos deputados que são eleitos é construído na sociedade. O crescimento de certo perfil de igrejas evangélicas, especialmente nas periferias dos grandes centros urbanos, fornece a base social que sustenta mais significativamente os deputados evangélicos no parlamento. A defesa dos princípios cristãos relacionados aos direitos humanos depende do fortalecimento da democracia, especialmente em tais periferias. Acreditamos que a construção de novas formas de organização democrática nas periferias seja o maior desafio para os grupos religiosos e seculares que trabalham pelo enfrentamento do sofrimento humano e da injustiça social.

A Comissão de Direitos Humanos é composta por 18 deputados. Com a eleição do presidente e a maioria de membros formada por deputados evangélicos, haverá um óbvio predomínio da posição desses parlamentares nas deliberações a serem tomadas durante o ano de 2013. Essa conjuntura gerou um sentimento de frustração entre os movimentos que historicamente lutam por direitos humanos. Muitas das organizações que integram esses movimentos estão ligadas a diferentes tradições religiosas. Outras são seculares, mas contam com expressivo contingente de ativistas e apoiadores de várias religiões. Seria uma leviandade ignorar esse fato. O Brasil é muito mais complexo do que a identidade evangélica.

Como se trata de deputados evangélicos, os grupos cristãos que trabalham na defesa de direitos humanos têm uma responsabilidade especial no monitoramento da atuação da comissão durante o ano de 2013. A gravação das reuniões no site da Câmara facilita a participação. Uma ampla articulação na defesa dos direitos humanos é um dos grandes desafios que deve assumir prioridade em função de tal conjuntura.

Felizes os que têm fome e sede de justiça!

CESE – Coordenadoria Ecumênica de Serviço – www.cese.org.br
CLAI – Conselho Latino Americano de Igrejas - www.claibrasil.org.br
EPJ – Evangélicos Pela Justiça - www.epj.org.br
KOINONIA - Presença Ecumênica e Serviço - www.koinonia.org.br
Metodista Confessante – www.metodistaconfessante.blogspot.com.br
Rede Fale – www.fale.org.br
Tearfund – www.tearfund.org.br


Incentive a participação de outras organizações! Para formalizar a adesão entre em contato com uma das acima citadas.


SOBRE AS DISTRIBUIÇÕES DAS PRESIDÊNCIAS DAS COMISSÕES NA CÂMARA

A Câmara dos Deputados possui 21 Comissões Permanentes e suas presidências são distribuídas proporcionalmente ao tamanho das bancadas dos partidos. No rateio, PT e PMDB comandam três comissões. PSDB, PSD, PP e PR ficam com dois colegiados cada, enquanto PDT, PSC, PTB, o bloco PV/PPS, DEM, PSB e PCdoB presidem uma comissão. A ordem de escolha também segue o critério das maiores bancadas e os partidos pequenos não têm direito a presidir comissões permanentes.

Historicamente o PT foi o partido que mais presidiu a Comissão de Direitos Humanos e Minorias - CDHM. Segue a lista dos ex-presidentes:

- Nilmário Miranda (PT-MG): 1995 e 1999
- Hélio Bicudo (PT-SP): 1996
- Pedro Wilson (PT-GO): 1997
- Eraldo Trindade (PPB-AP): 1998
- Marcos Rolim (PT-RS): 2000
- Nelson Pellegrino (PT-BA): 2001
- Orlando Fantazzini (PT-SP): 2002
- Enio Bacci (PDT-RS): 2003
- Mario Heringer (PDT-MG): 2004
- Iriny Lopes (PT-ES): 2005 e 2010
- Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP): 2006
- Luiz Couto (PT-PB): 2007 e 2009
- Pompeo de Mattos (PDT-RS): 2008
- Manuela D’Ávila (PCdoB-RS): 2011
- Domingos Dutra (PT-MA): 2012

Esse ano o PT escolheu a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, a Comissão de Relações Exteriores e a Comissão de Seguridade Social e Família. A presidência da CDHM ficou com o PSC que é uma legenda estreitamente vinculada à Assembleia de Deus. Possui 14 deputados e duas deputadas. Nesta legislatura o PSC, presidiu a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle em 2011 e 2012.


Para ver as reuniões da CDHM pela internet acesse www.camara.leg.br e click na sequencia:
- Atividade Legislativa
-- Comissões Permanentes
--- Comissão de Direitos Humanos e Minorias – CDHM

3 Ver “Alguns Posicionamentos do EPJ no Debate Atual Sobre Homossexualidade” no site: http://www.epj.org.br/principal/artigos-e-textos/documentos-epj/73-alguns-posicionamentos-do-epj-no-debate-atual-sobre-homossexualidade
 

Dia Mundial de Oração - 2013

Dia Mundial de Oração - 2013 

Celebração da comunidade metodista ecumênica junto às igrejas e organismos parceiros em Belém-PA





Mais fotos e relatos: https://www.facebook.com/groups/DMOBelem/

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Igreja Metodista envia mensagem de solidariedade após tragédia em Santa Maria


Igreja Metodista envia mensagem de solidariedade após tragédia em Santa Maria




Às
Famílias enlutadas de Santa Maria e
Ao povo de Santa Maria

Salmo 42:11 “Porque você esta assim tão triste, ó minha alma? Porque esta assim tão perturbada dentro de mim? Ponha sua esperança em Deus! Pois ainda o louvarei; Ele é o meu salvador e o meu Deus”

Lamentamos e choramos com vocês a perda de seus queridos jovens, que no vigor de sua juventude foram surpreendidos pela fatalidade do acidente ocorrido. Com certeza a dor esta grande e o desespero deseja controlar suas vidas, hora pelas perdas, hora pela indignação causada pela irresponsabilidade do estabelecimento que não ofereceu segurança aos seus queridos.
Como Igreja Metodista no Brasil e em Santa Maria, como escolas Metodistas, Instituto Metodista Centenário e Fames, nos unimos a vocês neste momento de dor e perdas. Não há palavras para expressar nosso desejo de consolo para vocês, por isto recorremos ao Deus e Pai, na pessoa de Jesus Cristo, pois Nele vocês podem encontrar consolo frente às tristezas que invadem seus corações e forças diante das fragilidades que se encontram em todos nós nesta hora.
Sejam fortes na força que esta em Deus, sejam consolados pelo consolo que vem de Deus, dos amigos e de seus familiares, recebam todos a graça de Deus e nossa solidariedade.
Contem com a comunidade metodista que se coloca a disposição de vocês com tudo o que é e tem. Nossa solidariedade em Jesus nos permite sentir a dor que está em vocês.
Contem com nossas orações e apoio.

Salmo 30: 5 “O choro pode durar uma noite; pela manhã, porém, vem o cântico de júbilo”. 

Fraternalmente em Jesus Cristo,

Bispo Adonias Pereira do Lago – Presidente do Colégio Episcopal
Bispos, Bispa, Pastores, Pastoras, Escolas Metodistas e Colégio Centenário.

Em 27 de janeiro de 2013.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Nota de solidariedade a Dom Pedro Casaldáliga

Nota de solidariedade a Dom Pedro Casaldáliga



Ao se aproximar a desintrusão da Terra Indígena Marãiwatsèdè, após mais de 20 anos de invasão, quando os não indígenas estão para ser retirados desta área, multiplicam-se as manifestações de fazendeiros, políticos e dos próprios meios de comunicação contra a ação da justiça.

Neste momento de desespero, uma das pessoas mais visadas pelos invasores e pelos que os defendem é Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, a quem estão querendo, irresponsável e inescrupulosamente, imputar a responsabilidade pela demarcação da área Xavante nas terras do Posto da Mata.

As entidades que assinam esta nota querem externar sua mais irrestrita solidariedade a Dom Pedro. Desde o momento em que pisou este chão do Araguaia e mais precisamente, desde a hora em que foi sagrado bispo da Prelazia de São Félix do Araguaia, sua ação sempre se pautou na defesa dos interesses dos mais pobres, os povos indígenas, os posseiros e os peões. Todos sabem que Dom Pedro e a Prelazia sempre deram apoio a todas as ocupações de terra pelos posseiros e sem terra e como estas ocupações foram o suporte que possibilitou a criação da maior parte dos municípios da região.

Em relação à terra indígena Marãiwatsèdè, dos Xavante, os primeiros moradores da região nas décadas de 1930, 40 e 50 são testemunhas da presença dos indígenas na região e como eles perambulavam por toda ela.  Foi com a chegada das empresas agropecuárias, na década de 1960, com apoio do governo militar, que a Suiá Missu se estabeleceu nas proximidades de uma das aldeias e  até mesmo conseguiu o apoio do Serviço de Proteção ao Indio para se ver livre  da presença dos indígenas. A imprensa nacional noticiou a retirada de 289 xavante da região os quais foram transportados em aviões da FAB, em 1966, para a aldeia de São Marcos, no município de Barra do Garças.

Em 1992, a AGIP, empresa italiana que tinha comprado a Suiá Missu das mãos da família Ometto, quis se desfazer destas terras. Por ocasião da ECO-92, sob pressão inclusive internacional, a empresa destinou 165.000 hectares para os Xavante que, durante todo este tempo, sonhavam em voltar à terra de onde tinham sido arrancados. Imediatamente  fazendeiros e políticos da região fizeram uma grande campanha para ocupar a área que fora reservada aos Xavante, precisamente para impedir que os mesmos retornassem. Já no dia 20 de junho de 1992, algumas áreas tinham sido ocupadas e foi feita uma reunião no Posto da Mata, da qual participaram políticos de São Félix do Araguaia e de Alto Boa Vista e também havia repórteres. A reunião foi toda gravada. As falas deixam mais do que claro que a invasão da área era  exatamente para impedir a volta dos  Xavante. "Se a população achou por bem tomar conta dessa terra em vez de dá-la para os índios, nós temos que dar esse respaldo para o povo" (José Antônio de Almeida ? Bau, prefeito de São Félix do Araguaia).  "A finalidade dessa reunião é tentarmos organizar mais os posseiros que estão dentro da área... Se for colocar índio no seu habitat natural, tem que mandar índio lá para Jacareacanga, ou Amazonas, ou Pará..." (Osmar Kalil ? Mazim, candidato a prefeito do Alto Boa Vista). "Nós ajudamos até todos os posseiros daqui serem localizados... Chegou a um ponto, ou nós ou eles (os Xavante) porque nós temos o direito... Dizer que aqui tem muito índio? Aqueles que estão preocupados com os índios que tem que assentar. Tem um monte de país que não tem índio. Pode levar a metade... Na Itália tem índio? Não, não tem! Leva! Leva pra lá! Carrega pra lá! Agora, não vem jogar em nós, não... ( Filemon Costa Limoeiro, à época funcionário do Fórum de São Félix do Araguaia)

A área reservada aos Xavante foi toda ocupada por fazendeiros, políticos e comerciantes. Muitos pequenos foram incentivados e apoiados a ocupar algumas pequenas áreas para dar cobertura aos grandes. O governo da República, porém estava agindo e logo,  em 1993, declarou a área como Terra Indígena que foi demarcada e, em 1998 homologada pelo presidente FHC.  Só agora é que a justiça está reconhecendo de maneira definitiva o direito maior dos índios.  O que D. Pedro sempre pediu, em relação a esta terra, foi que os pequenos que entraram enganados, fossem assentados em outras terras da Reformas Agrária. Mas o que se vê é que, ontem como hoje, os pequenos continuam sendo massa de manobra nas mãos dos grandes e dos políticos na tentativa de não se garantir aos povos indígenas um direito que lhes é reconhecido pela Constituição Brasileira.

Mais uma vez, queremos manifestar nossa solidariedade a Dom Pedro e denunciar mais esta mentira de parte daqueles que tentam eximir-se da sua responsabilidade sobre a situação de sofrimento, tensão e ameaça de violência que eles mesmos criaram, jogando esta responsabilidade sobre os ombros de nosso bispo emérito.

5 de dezembro de 2012
Conselho Indigenista Missionário - CIMI - Brasilia
Comissão Pastoral da Terra - CPT - Goiânia
Escritório de Direitos Humanos da Prelazia de São Félix do Araguaia - São Félix do Araguaia
Associação de Educação e Assistência Social Nossa Senhora da Assunção - ANSA - São Félix do Araguaia
Instituto Humana Raça Fêmina - Inhurafe - São Félix do Araguaia
Associação Terra Viva - Porto Alegre do Norte
Associação Alvorada - Vila Rica
Associação de Artesanato Arte Nossa - São Félix do Araguaia
Grupo de Pesquisa Movimentos Sociais e Educação - GPMSE - Cuiabá
Associação Brasileira de Homeopatia Popular - ABHP - Cuiabá
Fórum de Direitos Humanos e da Terra de Mato Grosso - FDHT - Cuiabá
Centro Burnier Fé e Justiça - CBFJ - Cuiabá
Fórum Matogrossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento - FORMAD - Cuiabá
Instituto Caracol - ICARACOL - Cuiabá
Rede de Educação Ambiental de Mato Grosso - REMTEA - Cuiabá

A Rede Metodista Confessante expressa seu apoio a esta nota de solidariedade e lamenta o fato da Igreja Metodista ter deixado de priorizar a pastoral indigenista e de desativar tal ministério em algumas regiões.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Quem são os metodistas?




Quem são os metodistas?



Quem são os metodistas, e por que se chamam assim? É o que nos pergunta um leitor da província de Foggia. "Pode-se intuir – escreve ele em sua carta – que os luteranos derivam da figura de Martinho Lutero; os calvinistas, de Calvino; mas por que os pertencentes à Igreja Metodista se chamam assim, por que levam esse nome?".

A reportagem é de Luca Baratto, publicada na revista Riforma, publicação semanal das Igrejas Evangélicas Batista, Metodista e Valdense italianas, 07-12-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os metodistas – aqueles que hoje fazem parte de uma grande família de Igrejas protestantes nascidas na Inglaterraem 1700, mas presente em todo o mundo, a ponto de contar com cerca de 70 milhões de membros – devem o seu nome a um pequeno grupo de pessoas que se reuniram em torno da figura do teólogo John Wesley. 

Essas pessoas se reuniam todas as noites para ler a Bíblia, dedicar-se com fervor às visitas aos encarcerados, a ajudar os pobres, à luta contra o analfabetismo. Eram tão constantes, tão metódicos na sua piedade pessoal que, no fim, alguns começaram a chamá-los, com um pouco de polêmica, de "os metodistas".

Na realidade, John Wesley e os seus amigos, ao longo do tempo, realmente inventaram um novo método, um novo modo de ser Igreja. A Inglaterra do século XVIII estava em plena Primeira Revolução Industrial. Milhares de pessoas se deslocavam do campo para as cidades, passando a viver em bairros degradados, em casas sujas, onde toda relação social se perdia. Alcoolismo, trabalho infantil, condições de trabalho humilhantes para homens e mulheres eram os males comuns daquela sociedade. 

Wesley entendeu que a sua Igreja, a Anglicana, não sabia ir ao encontro dessas pessoas. Ele pensava que não eram as pessoas que deviam se aproximar da Igreja, mas sim que era a Igreja que devia ir ao encontro delas. "O mundo é a minha paróquia", foi logo o seu lema que o levou a pregar nas praças e nos locais públicos de todos os tipos e a fazer das casas das pessoas, e não das igrejas, os lugares de uma fé cristã renovada. 

Uma espiritualidade quente e envolvente, uma pregação que não só pedia que as pessoas mudassem, mas anunciava a pessoas brutalizadas que mudar de vida realmente era possível. Uma grande atenção e sensibilidade social, tanto que justamente dentro do metodismo nasceram os primeiros sindicatos britânicos. Todas essas foram as chaves para o sucesso desse movimento que se espalhou por todo o mundo.

Na Itália, os metodistas chegaram há 151 anos: a sua história é tão longa quanto a da Itália unida. No país, eles trouxeram a mesma mistura de espiritualidade autêntica e de compromisso com a justiça social. Viver a própria fé na cidade e buscar o bem comum: essa continua sendo a espiritualidade metodista.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Curso breve de Música e culto

Curso breve de Música e culto





Este é um breve curso de liturgia e música, elaborado pelo pr.Francisco Thiago e ministrado em um encontro na Congregação em Cristais Paulistas. A linguagem do curso é prática, fugindo jargão acadêmico, apropriado para uso nas igrejas locais.

Download aqui.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Pastor que participou de ato contra homofobia é dispensado do Seminário Regional da 6ª Região

Pastor que participou de ato contra homofobia é dispensado do Seminário Regional da 6ª Região

O missionário norteamericano rev.Robert Stephen Newnum, missionário da General Board of Global Missions (Junta Geral de Missões Globais - órgão da Igreja Metodista Unida para evangelização) a trinta e cinco anos no Brasil, vinte e cinco dos quais dedicados à educação teológica no CEMETRE, foi dispensado pela direção do Seminário Regional, onde ministra atualmente Teologia Sistemática e História do Metodismo. Estima-se que aproximadamente 90% do clero metodista ativo na 6ª Região tenha sido aluno do rev.Stephen em sua carreira de professor de teologia.

A dispensa do missionário aconteceu após sua participação no ato contra a homofobia acontecido em Maringá em maio de 2012, no qual aconteceram reuniões de diálogo entre a comunidade LGBT e representantes da Arquidiocese de Maringá (Igreja Católica) e uma marcha, conhecida como Parada LGBT de Maringá. Sua participação, bem como de sua esposa, Maria Newnum, membro da Igreja Metodista Central de Maringá e ativista política na cidade, com destacada atuação pelo Partido Verde, gerou questionamentos na comunidade evangélica de Maringá, o que a motivou a escrever uma carta de esclarecimento para o pastor da IMCM, para o SD do Distrito de Maringá e para o bispo da 6ª Região. 

Ver carta aqui: http://metodistaconfessante.blogspot.com.br/2012/11/o-perfeito-amor-lanca-fora-todo-o-medo.html

Mesmo após a carta, na qual o casal Newnum reafirma sua fidelidade aos princípios bíblicos e aos documentos metodistas, as pressões continuaram a crescer e como resultado o rev.Stephen foi dispensado de suas funções no CEMETRE (Centro Metodista de Ensino e Treinamento) sem maiores explicações.



O rev.Stephen solicitou, via e-mail enviado no dia 25/10 e carta enviada nodia 27/10, uma reunião com o diretor do CEMEC para ser informado sobre os motivos de sua dispensa. No mesmo dia 27/10 foi solicitada, via carta, uma reunião com o revmo.João Carlos Lopes, bispo da 6ª Região, para também tratar do assunto. Até o presente momento, véspera da viagem do rev.Stephen aos Estados Unidos, para reunir-se com a GBGM, ele não recebeu nenhum retorno formal ou solicitação de agendamento de reunião. 

Acredita-se que a dispensa do rev.Stephen seja devido a pressões por sua participação em questões consideradas polêmicas: o ato contra a homofobia e a participação em diálogos ecumênicos junto ao MECUM (Movimento Ecumênico de Maringá) e GDI (Grupo de Diálogo Inter-religioso), mesmo que em nenhuma delas houvesse acontecido nenhum ato ou palavra de desrespeito ou desobediência aos documentos oficiais, posições e doutrinas tanto da United Methodist Church, igreja na qual o rev.Stephen foi ordenado, quanto da Igreja Metodista. Temos em nossa Igreja Metodista outro caso de retaliação por causa de um "delito de opinião".

Atualização (06/12)

1) Embora haja a carta de dispensa por parte do Conselho diretor do CEMETRE, o bispo é "soberano" para aceitar ou não a solicitação do Conselho Diretor.

2) O rev.Stephen Newnum solicitou por duas vezes que a Presidenta do Conselho Diretor fornecesse os motivos da sua dispensa, o que não foi atendido.

3) O revmo. bispo João Carlos apontou a possibilidade de receber o rev.Stephen para uma reunião em Curitiba. Todavia, a resposta foi dada às vésperas da viagem do rev.Stephen para os EUA para reunir-se com a GBGB, o que impossibilitou tal reunião

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

O perfeito amor lança fora todo o medo - Carta à Igreja Metodista Central de Maringá-PR

O perfeito amor lança fora todo o medo

Em maio de 2012 o material de divulgação da Primeira Parada LGBT de Maringá causou revolta e indignação na comunidade cristã e católica da cidade por retratar a Basílica Nossa Senhora da Glória (Catedral Menor) em seus cartazes de divulgação.

Em reuniões convocadas pelo arcebispo Anuar Battisti e por Luiz Modesto, organizador da Parada LGBT de Maringá, foram convidadas diversas pessoas de ambos os grupos, com a participação do rev.Robert Stephen Newnum convidado a mediar o encontro. Na ocasião, como fruto dos diálogos entre a comunidade católica e LGBT concluiu-se sobre a necessidade de que ambos os grupos devessem parar de demonizarem-se mutuamente e devessem impedir que a mídia continuasse a estimular a animosidade entre eles. Além do canal de diálogo estabelecido, a Igreja Católica decidiu pelo aprofundamento nos estudos e diálogos e passou a estudar a criação de uma Pastoral da Diversidade Sexual.

Todavia, como o recrudescimento dos ânimos ainda era uma realidade e que um pastor evangélico de Maringá convocava os fiéis a uma "guerra santa contra os gays" para a Marcha para Jesus de Maringá, realizada em 19 de maio de 2012, o rev.Robert Stephen Newnum e a esposa irmã Maria Newnum resolveram participar de ambas as marchas, tanto da Marcha Para Jesus quanto da Parada LGBT, com o objetivo de enfatizar o ministério salvífico e reconciliatório de Jesus e servir como exemplo de convivência pacífica e de ponte de diálogo. A participação do irmão e da irmã metodistas certamente chamou a atenção da mídia e repercutiu tanto na cidade quanto nacionalmente.

Parada Gay de Maringá (PR) reúne 5.000 pessoas

A repercussão nos veículos jornalísticos veio a levantar dúvidas em pessoas que participam da comunidade da Igreja Metodista Central de Maringá e a convite do pastor titular da igreja, rev.Eliel Cordeiro Silvestre, a irmã Maria Newnum escreveu uma carta, enviada para o pastor titular da IMCM, para o Superintendente Distrital e para o bispo da 6ª Região, que agora reproduzimos abaixo.

O perfeito amor lança fora o medo: Carta à Igreja Metodista Central de Maringá





A/c: Rev. Eliel Cordeiro Silvestre

C/c: Rev. Cláudio Luiz Freire dos Santos, Superintendente do Distrito Noroeste

C/c: Revmo. Bispo João Carlos Lopes, Presidente da 6a R.E. e Vice-presidente do Colégio Episcopal, no exercício da Presidência

Em função da preocupação de alguns irmãos e irmãs metodistas com a minha saúde espiritual escrevo, primeiramente, para expressar minha gratidão por todo cuidado e solidariedade que eu e Steve recebemos de nossa amada igreja, do Rev. Eliel Cordeiro Silvestre e do SD Rev. Cláudio Luiz Freire dos Santos.

Algumas dessas preocupações decorrem da minha participação junto aos movimentos que atuam contra a violência e a favor dos direitos humanos. Dentre as últimas ações está o atendimento a um chamado do Sr. Luiz Modesto, representante da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais - ABGLT, para nos reunirmos junto com o Arcebispo Dom Anuar Battisti e conhecermos o mapa da violência decorrente da homofobia em Maringá e região.

Espantou-nos saber que, em muitos casos, os primeiros sinais da violência decorrentes da homofobia são deixados nos corpos e na alma dos adolescentes e jovens por pessoas das próprias famílias e todas elas, nos casos apresentados a nós, de famílias cristãs.

Em um ano foram 39 agressões (a última da artista plástica Elisa Riemer) e, dentre elas, 15 foram cometidas pelos pais, segundo dados do site Maringay, que registrou ainda 2 casos de suicídios, 12 tentativas de suicídio, 6 assassinatos de travestis e 45 adolescentes expulsos de casa. Segundo informações do Rev. Célio Camargo da Igreja da Comunidade Metropolitana (ICM), alguns desses jovens são encontrados pelas ruas das cidades em estado lastimável de degradação humana. O Rev. Célio Camargo, ao que sabemos, é o único pastor que acolhe, na casa abrigo da ICM, alguns desses jovens, e os aproxima do amor e da graça de Jesus Cristo.

Diante desse quadro causou-nos tristeza e espanto saber da convocação de um pastor evangélico de Maringá para uma “guerra santa contra os gays”, antecedendo a primeira parada contra homofobia, popularmente chamada de “Parada Gay”, em Maringá. De imediato nos veio um conselho que sempre damos aos nossos alunos de teologia; diante de algo que você não sabe o que fazer pergunte: em meu lugar o que Jesus faria?

Nunca vimos na Bíblia Jesus tomando o lado do violento. Jesus sempre aparece defendendo os mais fracos, os mais pobres, os que não tinham voz. Assim, depois de orarmos a Deus, chegamos à conclusão que Jesus iria para a linha de frente da “guerra santa” e, caso houvesse qualquer tentativa de violência, sairia em defesa dos gays. Não nos restou alternativa, senão imitá-lo.

Evidentemente que nos lembramos ainda da orientação dos bispos e da bispa: “Ressaltamos que a Igreja não aceita a homofobia e abomina toda e qualquer perseguição à qualquer ser humano por conta do seu estilo de vida, da mesma forma que não podemos nos calar diante de qualquer situação que agrida a dignidade da vida.” (Pronunciamento do Colégio Episcopal sobre a PL 122/2006 - 2011).

Foi nesse sentido que concedi uma entrevista ao jornal Folha de São Paulo, reafirmando a minha crença de que a Igreja é imitadora do amor e da bondade de Jesus e não propagadora do ódio e da violência. Algo que, infelizmente, a imprensa ajuda a solidificar ao dar ênfase às manifestações decorrentes de ações isoladas de indivíduos cristãos.

Meus irmãos e irmãs, eu e Steve somos constantemente tentados a ficarmos reclusos em nosso lar, celebrando nossos cultos domésticos, bem à moda da família Wesley dos primórdios do século dezoito. Mas em nosso peito bate dois corações missionários que nos impulsionam para vermos o mundo, como via o fundador do metodismo, como uma grande paróquia. De fato nossa maior angústia é percebermos o quão pouco temos feito nessa grande paróquia onde há tantas vidas em sofrimento, em especial por causa do desamor de nós, os cristãos.

Enquanto Deus nos conceder saúde e graça, seguiremos sem medo das pessoas diferentes de nós, pois como diz 1 João 4.18, “o perfeito amor lança fora o medo”. Além disso, é mandamento de Jesus que amemos o próximo como a nós mesmos.

Compartilho com os irmãos e irmãs um texto que orienta a nossa caminhada de fé - Mateus 25.31-46. A cada vez que o lemos, encontramos novos sentidos e novos desafios que ainda temos pela frente.

Pedimos sempre que Deus nos ajude a nunca envergonharmos o nome da nossa amada Igreja Metodista, mas antes, revelá-la como ela é: uma comunidade missionária à serviço do povo.

Que a graça, o amor e a paz permaneçam com o Rev. Eliel Cordeiro, que tão cuidadosamente nos pastoreia e, com todos os irmãos e irmãs da amada Igreja Metodista Central de Maringá.

Maria Newnum – Maringá, 9 de setembro de 2012

Disponível - http://newnum.org/mblog/2012/10/17/o-perfeito-amor-lanca-fora-o-medo-carta-a-igreja-metodista-central-de-maringa/

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

WESLEY E OS POBRES: UMA AVALIAÇAO TEOLÓGICA LATINOAMERICANA DA ÊNFASE AOS POBRES NOS SERMÕES DE JOHN WESLEY


WESLEY E OS POBRES: UMA AVALIAÇAO TEOLÓGICA LATINOAMERICANA DA ÊNFASE AOS POBRES NOS SERMÕES DE JOHN WESLEY
Claudio de Oliveira Ribeiro*


Este artigo foi publicado no livro Teologia e prática na tradição wesleyana: uma leitura a partir da América Latina e Caribe  (clique no título e acesse o livro no site da Livraria Editeo)








INTRODUÇÃO

A ênfase que John Wesley (1703-1791) deu às pessoas pobres é um aspecto transparente em seus escritos e traços biográficos. Todavia, esse é um dos pontos que tem sido praticamente esquecido pelas igrejas metodistas no Brasil na atualidade. Nesse sentido, torna-se imperativo um aprofundamento da temática.

Há muitos estudos sobre o tema (“Wesley e os pobres”) especialmente de natureza sociológica e histórica, como será visto a seguir.[1] A tendência nestes estudos é afirmar que a composição dos grupos metodistas na Inglaterra no tempo de Wesley era majoritariamente de pessoas pobres. Dessa forma, o metodismo primitivo era formado por pobres e tinha da liderança (Wesley em especial) uma sensibilidade e um cuidado especial a eles, incluindo a atenção dedicada às crianças.
Teologicamente, além dos estudos históricos e sociológicos, interessa-nos o material produzido por Wesley (sermões, notas, cartas, anotações pessoais). Com isso, seria possível construir mais adequadamente uma teologia que pudesse, em sintonia com os demais estudos sobre Wesley e o metodismo, dialogar com a realidade brasileira e latino-americana em geral. Por suposto, a teologia latino-americana possui no pobre elemento central e aí têm sido encontradas diversas e criativas conexões.
Qual seria a contribuição de Wesley para uma teologia metodista latino-americana? Vários esforços já foram feitos no sentido de responder tal questão. Um dos objetivos dessa modesta análise é apresentar, em linhas gerais, um pouco do debate já estabelecido desde os anos de 1970. Nesse sentido, estão listadas algumas das contribuições mais relevantes para a compreensão de Wesley em contexto latino-americano, em especial pela ênfase dada aos pobres.
Na seqüência, como segundo e principal objetivo desse trabalho, serão feitas algumas observações sobre a referência aos pobres encontradas nos sermões de John Wesley. Com elas, espera-se poder criar bases mais apropriadas para uma interpretação teológica wesleyana em chave latino-americana.


I – A REFERÊNCIA AOS POBRES NA OBRA DE WESLEY
Nas Obras de Wesley (The Works of John Wesley), encontramos a palavra pobre (poor) registrada 1448 vezes. Metade dessas ocorrências está registrada nos diários de Wesley. Outra parte (440 vezes) se encontra nas cartas e escritos doutrinários; e, nos sermões, a palavra pobre se encontra 266 vezes citada.
Entre esses 1448 registros, por 206 vezes trata-se da expressão genérica “ricos e pobres”. Por exemplo: “Eu preguei em Cardiff; e a congregação inteira, ricos e pobres, encontrou-se na presença de Deus” (Journal, quinta-feira, 29/09/1743). Outras duas centenas de vezes, a palavra pobre tem o sentido figurado. Exemplo: “pobre pecador”, “pobre alma”, etc... Eliminados estes dois sentidos da palavra, alcançamos a marca de cerca de 1000 utilizações da palavra pobre (no sentido socioeconômico) por Wesley nos sermões, cartas, notas bíblicas e pessoais.
O que este número representa? O que ele significa? Trata-se de uma quantidade expressiva ou não? Obviamente, somente a matemática das palavras não é suficiente para se compreender a teologia. Todavia, algum significado os números indicam.
Ao se comparar a palavra pobre com outras palavras do mundo religioso, encontradas nas obras de Wesley, percebe-se que ela está acima das demais no número de ocorrências: salvação (salvation) [945], culto (worship, service) [+/- 940], Evangelho (Gospel) [879], misericórdia (mercy) [783], piedade (piety) [186], louvor (praise) [563], redenção (redemption) [267].
Acima do número 1.000 é possível encontrar apenas: Deus (God) [12.693], Cristo (Christ) [3.246], Espírito – no sentido de Santo (Holy Spirit, Holy Ghost) e também humano – [2.963], fé (faith) [2.579], pecado (sin) [2.222], graça (grace) [1.612], céu (heaven) [1.379], oração (prayer) [1.174].
Portanto, com essa comparação, é inegável o destaque que a referência aos pobres possui nas obras de Wesley. Isso significa, entre outros aspctos, que as propostas pastorais espiritualizantes que usualmente não permitem a ênfase nos pobres precisam se perguntar se, de fato, estão dentro da tradição wesleyana.[2] Por outro lado, revela que o cotidiano no qual a teologia wesleyana foi forjada foi marcado por uma relação concreta com pessoas, grupos e famílias pobres.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Duas manifestações metodistas sobre questões indígenas e das populações em risco - Márcio Monteiro Rocha

Duas manifestações metodistas sobre questões indígenas e das populações em risco  - Márcio Monteiro Rocha


Após a manifestação da revda.Maria Imaculada, o irmão Márcio Monteiro Rocha, do Projeto Luz e Vida: Missão Amazônia também teceu importantes considerações sobre o tema.


Graça e Paz,
Sem dúvida, a Cogeam e o Colégio Episcopal jamais fundamentariam os alicerces missionários da Igreja Metodista em ordem de importância. Eles estão elencados no PNM 2012-2016 assim como no PNM 2007-2011, com mínimas diferenças, seguindo outra metodologia. Nossa maior alegria é ver a Igreja Metodista mantendo ações missionárias sobre todos os seus alicerces.
Com uma observação mais atenciosa, percebemos que estes alicerces assumiram uma organização tal que são apresentados naturalmente em ordem de alerta ou de urgência, e não de importância. Concordamos que nem sempre o mais urgente é o mais importante e que nem sempre o mais importante é o mais urgente.
Quando se fala em ênfase missionária, procura-se acentuar a urgência da ação metodista sobre determinado alicerce, o que pressupõe a existência de alicerces menos urgentes. Quando se fala em prioridade missionária, procura-se determinar o alicerce que vem em primeiro lugar, o que pressupõe haver alicerces de menor prioridade. Quando se fala em alicerce, sem a urgência promovida pela ênfase ou sem o destaque promovido pela prioridade, tem-se apenas o alicerce missionário, sem maiores considerações.
Observe, por exemplo, que alicerces missionários como Missão e Comunicação e Missão e Educação Musical e Artística, receberam maior prioridade que o alicerce "Missão, Igreja e o Clamor dos Povos do Campo", isto é, pessoas que dependem da agricultura familiar, quilombolas, indígenas, ribeirinhos, movimentos populares da terra, etc...
** 1. Evangelização e Expansão Missionária.
* 2. Missão, Igreja e Discipulado.
* 3. Missão, Igreja e Meio ambiente.
* 4. Missão, Igreja e o Clamor do Desafio Urbano.
** 5. Missão, Identidade e Confessionalidade.
** 6. Missão e Igreja Local (ministérios pastoral, leigos e leigas e diaconal)
*** 7. Missão e Renovação da Experiência Religiosa
*** 8. Missão e Comunicação
*** 9. Missão e Educação Musical e Artística
**** 10. Missão, Culto e Liturgia
*** 11. Missão e Educação (cristã e EBD, teológica e secular)
**** 12. Missão e Santidade
**** 13. Missão e Dimensão Pública (cidadania, política nacional e antidrogas)
*** 14. Missão e Ação Social
**** 15. Missão e Escatologia
**** 16. Missão, Igreja e o Clamor dos Povos do Campo (agricultura familiar, quilombolas, indígenas, ribeirinhos e movimentos populares da terra, etc.)
* Valores classificados como "Ênfases Missionárias"
** Valores classificados como "Ênfases Missionárias" e como "Prioridades"
*** Valores classificados como "Prioridades".
**** Valores classificados como "Alicerces" (Cada item da lista também é um alicerce missionário).
O que não é admissível, sob qualquer pretexto, é deixar de enfatizar ou priorizar o Clamor dos Povos do Campo com a mesma abrangência e dedicação com que as seis ênfases e as nove prioridades são discutidas no PNM 2012-2016, visto ser um plano didático de orientação para as ações missionárias da Igreja, envolvendo todo o povo chamado metodista.
Na coluna lateral do PNM 2012-2016 surgem perguntas aos leitores como: "Qual destes fundamentos missionários são mais emergentes em sua realidade local?", "Que área tem maior fragilidade?" e "Como equilibrar estas questões na elaboração do Plano para o próximo período eclesiástico"? Obviamente que, para este quadriênio, determina-se que cada igreja local administre os alicerces missionários segundo a sua realidade local. A pergunta que fazemos aqui é a seguinte: isto é realmente possível à igreja local em termos de transformação social, libertação e salvação, tendo conhecimento do potencial e limite da ação missionária na realidade da área rural?
Prosseguindo, não podemos enfatizar um alicerce como Missão, Igreja e o Clamor do Desafio Urbano em um Plano Nacional Missionário com uma vigência de quatro anos sem o fazer de igual modo em relação ao alicerce Missão, Igreja e o Clamor dos Povos do Campo, ainda mais quando a base de argumentação daquela ênfase é o dado estatístico de que 90% da população brasileira está localizada em áreas urbanas, gerando problemas na saúde, educação, transporte, meio ambiente, etc... Porventura, estes problemas não são parte integrante e a razão do Clamor dos Povos do Campo?
O motivo do nosso questionamento dá-se em função de não haver qualquer ênfase ou prioridade colocada sobre o Clamor dos Povos do Campo composta por pessoas da agricultura familiar, quilombolas, indígenas, ribeirinhos, movimentos populares da terra, etc... que não dispõe de quase nenhum serviço digno de saúde, educação, transporte ou de qualquer presença significativa do Estado e onde a presença missionária evangélica é absolutamente incipiente e onde os poucos voluntários são recebidos como verdadeiros anjos enviados do céu.
Além do mais, quando se fala de empobrecidos, por exemplo, não se fala de indígenas, ribeirinhos e pessoas em situação de rua porque não fazem parte do cadastro único, que é a base de dados para a construção do mapa da pobreza, já que não são pessoas domiciliadas. Portanto, não se está deixando de enfatizar ou priorizar os 10% da população que está localizada em áreas rurais, mas um contingente estimado em milhares de pessoas que estão à margem da sociedade (o grifo é meu!).
Sabemos que há mais de 616.000 indígenas no Brasil distribuídos entre mais de 340 etnias, além de mais de 33.000 comunidades carentes somente na Amazônia brasileira com pouca ou nenhuma presença estatal ou eclesiástica. Há mais de cem etnias indígenas, no Brasil, sem presença missionária, e mais de cento e oitenta sem uma Igreja local entre eles.
Em termos mais específicos, há mais de dezessete mil comunidades ribeirinhas e indígenas sem nada do evangelho no Norte do nosso país, e falamos aqui apenas de pessoas domiciliadas, que aparecem no mapa da pobreza e que fazem parte dos 10% não enfatizados e não priorizados entre os alicerces missionários metodistas no PNM 2012-2016.
Depois da ampla discussão sobre o Clamor do Desafio Urbano, encontramos uma frase escrita como pouco ou quase nada se soubesse acerca do Clamor dos Povos do Campo: "Alertar sobre a urgente necessidade de análise dos aspectos que envolvem os Povos do Campo". E nada mais. ( o grifo é meu!)
Se deixássemos de colocar ênfase ou prioridade sobre o ensino bíblico acerca dos 10% que representam os dízimos a Deus ou se deixássemos de atribuir ênfase ou prioridade sobre os 10% da população economicamente dominante, logo sentiríamos que algo está errado em nosso planejamento. Longe de qualquer juízo de valor perguntamos: em uma perspectiva bíblica, teológica, pastoral, ética e cidadã esta falta de ênfase ou prioridade sobre os 10% da população que vive em áreas rurais é justa?
Resumindo na prática...
  1. A falta de ênfase ou prioridade sobre o Clamor dos Povos do Campo contribui significativamente para que maravilhosos empreendimentos missionários metodistas como o Barco-Hospital Missionário não tenha recursos financeiros suficientes para avançar além de algumas cidades satélites de Manaus, levando milhares de comunidades ribeirinhas e indígenas a esperar ainda mais para saber que dias melhores virão.
  2. A falta de ênfase ou prioridade sobre o Clamor dos Povos do Campo contribui significativamente para que extraordinários projetos metodistas como a Missão Maruwai, no extremo norte de Roraima, não disponha de todas as condições necessárias para atender aos clamores dos indígenas macuxis no tocante à educação,saúde, transporte e evangelização das comunidades vizinhas.
  3. A falta de ênfase ou prioridade sobre o Clamor dos Povos do Campo contribui significativamente para que as comunidades indígenas tukanas e tukanizadas como os dessanas e ticunas dos derredores de Manaus e Alto Rio Negro clamem pelo ingresso ao sistema de ensino, cursos profissionalizantes que contribuam para sua empregabilidade, condições mínimas de saúde, habitação e agricultura familiar em reservas ambientais.
  4. Finalizando, porém longe de esgotar o assunto, a falta de ênfase ou prioridade sobre o Clamor dos Povos do Campo contribui significativamente para que iniciativas Metodistas como a Missão Tapeporã não tenha a amplitude necessária para influir no fim do processo de extermínio, autoextermínio e suicídio coletivo de Guaranis-Kaiowá no Mato Grosso do Sul.
Damos Graças a Deus por haver atividades missionárias metodistas sobre todos os seus alicerces, mas questionamos a falta de ênfase e prioridade sobre o Clamor dos Povos do Campo no PNM 2012-2016. Primeiro porque as igrejas do campo não têm condições de atender à demanda de suas respectivas realidades locais sem intenso apoio da comunidade metodista como um todo. Segundo porque se trata de um Plano que orientará as ações missionárias metodistas de clérigos e leigos durante os próximos três anos. Terceiro, porque o PNM 2012-2016 se trata de uma estratégia missionária de suma importância amplamente fundamentada no Plano para a Vida e a Missão da Igreja, canonicamente doutrinário em termos de Vida e Missão.
Se a cristandade urbana, a começar pelas igrejas que estão em regiões mais ricas, não influírem sobre o desenvolvimento missionário do campo, levando consigo sua identidade e confessionalidade, mas também a consciência da necessidade de trabalhar junto às demais frentes missionárias, independentemente de suas denominações, oferecendo a nossa disponibilidade e voluntariedade às iniciativas das Organizações da Sociedade Civil, dos Estados e Municípios e, em casos específicos, até da marinha, exército e aeronáutica no que compete ao apoio a seres humanos em situação de vulnerabilidade, em um futuro próximo lamentaremos o fato de não termos sido mais determinados na execução dos nossos planos, estando em nós o poder fazê-lo. Podemos escolher ser fiéis a Deus e a sua Palavra ou fiéis a inércia religiosa que caracteriza os nossos dias.
"Não fará Deus justiça aos seus escolhidos, que a ele clamam dia e noite, embora pareça demorado em defendê-los? Digo-vos que, depressa, lhes fará justiça. Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?" (Lc 18.7,8)
Em relação às Diretrizes Pastorais para a Ação Missionária Indigenista, há dois volumes apenas na biblioteca da Fateo e a irmã Renilda Santos possui um exemplar. Não existe exemplares a venda no momento. As edições estão esgotadas. Não tenho a versão online para enviar pelo e-mail, mas com a devida autorização fizemos uma cópia dele para você e aguardamos um endereço postal para que possamos enviá-la pelos Correios.
À Disposição
Um Grande Abraço!
Márcio Monteiro Rocha
Projeto Luz e Vida: Missão Amazônia