segunda-feira, 9 de maio de 2011

Carta Aberta aos Conciliares e participantes do 19º Concílio Geral da Igreja Metodista

A Rede Metodista Confessante escreve Carta Aberta aos Conciliares e participantes do 19º Concílio Geral da Igreja Metodista, reunidos no período de 9 a 17 de julho de 2011, na cidade de Brasília, Distrito Federal.


 
Amados irmãos e irmãs em Cristo Jesus, rogamos as mais ricas benções sobre vocês e sobre a Igreja de Cristo que se faz viva onde o povo de Deus se reúne em busca dos valores do Reino de Deus aqui na Terra.

Nestes dias de Concílio, certamente é sabido por todos e todas que a vivência conciliar tem por objetivo, além da comunhão entre irmãos e irmãs de fé, a procura por resoluções ante os conflitos que impedem ou dificultam que o Reino de Deus se concretize em uma sociedade marcada por tantos males de diversas ordens, inclusive, éticos e institucionais.

Nesse sentido, o 19º Concílio Geral da Igreja Metodista do Brasil possui caráter especial, pois o 18º Concílio Geral, infelizmente, foi marcado por desentendimentos e contendas. Nós, metodistas, sempre fomos adeptos do pluralismo proposto por Wesley, em especial no sentido de “pensar e deixar pensar”. Somos de diferentes origens espirituais mas compomos uma mesma Igreja que acolheu um dia pietistas, puritanos, pentecostais, carismáticos e pessoas comprometidas com a teologia da libertação. Recuperar a “unidade” não “hegemônica” na caminhada da fé tem sido o referencial histórico da Igreja Metodista ensinado desde a Escola Dominical e é também o nosso objetivo e a nossa oração.

Queremos, também, oferecer nossa contribuição para que a unidade se restabeleça, rumo ao caminho da missão. Propomos aqui a análise de alguns pontos que julgamos carecer de proposta de mudanças, na esperança que esse 19º Concílio Geral traga luz à vida e à missão da Igreja Metodista de hoje: 

Função do episcopado na Igreja Metodista
 
A versão de 2007 dos Cânones diz no Art. 6º - “O episcopado na Igreja Metodista é encargo de serviço especial”. Se o Episcopado é encargo “de serviço especial” - e, portanto temporário - por que os bispos, após findarem esse encargo de serviço, não reassumem suas funções pastorais tal qual acontece na Igreja Metodista em várias partes de mundo? Será que na Igreja Metodista do Brasil é vergonhoso aos bispos retornaram às suas condições primárias de pastores das comunidades locais? É por isso que são sempre contemplados com os costumeiros títulos de bispos eméritos? Será que no metodismo brasileiro a condição do episcopado é superior à condição pastoral e laica?

Sugerimos que o 19º Concílio Geral proponha que os Bispos não eleitos voltem a assumir suas condições primárias de presbíteros, partindo do pressuposto que o tempo de serviço numa esfera mais ampla da Igreja nacional possibilita condições valiosas para colaborar com as necessidades das igrejas locais. A volta dos bispos ao cenário presbiteral em suas regiões de origem deve proporcionar uma soma de saberes e vivências que muito contribuirão para o desenvolvimento do caminhar missionário das igrejas locais em todo Brasil. 
 

Reorganização Geográfica das Regiões Eclesiásticas

Acreditamos que a proposta evidencia a mercantilização da fé na medida em que prioriza cidades com mais de 100 mil habitantes. Nesse sentido, há um alinhamento com a lógica mercadológica de grandes empresas nacionais e multinacionais que buscam se posicionar no mercado. Observamos que a proposta desconsidera pequenas cidades desprovidas de assistência dos poderes públicos e abandonadas pelas mega-igrejas que apenas buscam crescimento numérico e financeiro.

O editor do Jornal Tribuna Metodista (edição nº 2 - 10-03-2011), João Wesley Dornellas, membro da Igreja Metodista desde 1944, faz uma análise contundente sobre o Plano de Reorganização Geográfica das Regiões Eclesiásticas ao dizer que: “O plano contempla a possibilidade de que cada Estado seja uma região eclesiástica. A exigência seria ter 15.000 membros arrolados. Por sua vez, regiões com mais de 100.000 membros pode subdividir-se. 

Esse plano tem muitas implicações; uma delas, além de todas as questões de natureza organizacional, operacional e financeira, é que os superintendentes distritais de Estado acabarão tendo, na prática, o mesmo poder de um bispo. Quem os nomeará? Serão eleitos? O que seria mais democrático? A proposta não nos dá essa resposta. Também não está explicado como as igrejas desses distritos se representarão no Concilio Geral,” conclui Dornellas.

Nossa sugestão é que essa proposta seja recusada, pelo bem da Igreja Metodista e de sua missão de ser “sal e luz” na terra e “comunidade missionária a serviço do povo”. 

Função das Instituições Metodistas de Ensino
 
As Instituições Metodistas devem ser instrumentos da Graça de Deus. É urgente a percepção de que as Instituições de Ensino devem revelar a face pública e missiológica da Igreja Metodista no Brasil. Mas, ao mesmo tempo em que as instituições têm se tornado elitistas, em função de suas altas mensalidades, também têm vivenciado graves crises financeiras. Fica evidente que algo está errado. Quem tem errado? Os gestores escolhidos a dedo pelo Colégio Episcopal? Ou a falha é do laicato que, ao não votar de forma consciente, delega ao Colégio Episcopal plenos poderes de decisão? Não seria hora de uma ampla reforma nos Cânones definindo a forma de gerência das Instituições de Ensino? 

Dito isso, nós, Metodistas Confessantes, apontamos sugestões de propostas que cremos ser relevantes: 

1) Estabelecer a liberdade das Instituições de Ensino Metodista de gerenciarem os recursos humanos de acordo com critérios técnicos do mercado; 

2) Que as Instituições de Ensino adotem critérios técnicos, abrindo, inclusive, concursos públicos para admitir gestores nas diversas áreas administrativas das Instituições de Ensino
Metodista;
 
3) O critério técnico pode ser somado ao fato do candidato ou candidata ser metodista. Mas o fato de ser metodista não deve suprimir o fator determinante, que é o critério técnico;
 
4) Que caiba ao CONSAD, Conselho Superior de Administração, órgão criado para gerir as Instituições de Ensino, definir e gerir os recursos sem interferências do Colégio Episcopal;
 
5) E nesse sentido, deve-se propor critérios de eleições de membros do CONSAD que contemplem leigos/as e clérigos/as de todas as Regiões Eclesiásticas verdadeiramente possuidores/as de currículos voltados à educação secular; tendo em vista a secularidade das Instituições Metodistas.

Função das Instituições de Ação Social

É importante a compreensão de que é através de suas instituições que a Igreja Metodista assume sua tarefa de responsabilidade pública na sociedade. Daí é preciso questionar e avaliar como a Igreja nacional e as igrejas locais têm se articulado entre atos de piedade e obras de misericórdia. E isso muito difere dos empenhos e gastos astronômicos para construir templos. É preciso recordar que Jesus nasceu num estábulo e que, portanto, não faz sentido que o investimento de energia missionária e de recursos financeiros se sobreponha ao investimento maior que é resgate de pessoas: crianças em situação de risco, idosos desamparados, resocialização de ex-presidiários, moradores de rua, adolescentes grávidas, dependentes químicos, pessoas com deficiências, pessoas sobrevivendo com o vírus HIV, etc... É urgente, pois, perguntar:

- Quanto da arrecadação das Regiões e das igrejas locais é investido em projetos sociais? Há um percentual “mínimo” (tal qual se faz com as cotas orçamentárias enviadas às Regiões) destinadas às Instituições sociais?

- Por que muitas igrejas locais não possuem nenhum projeto social? 
 
- Por que em muitas igrejas locais o ministério de assistência social se limita à arrecadação de cestas básicas?

- Por que não se vê tantas disputas por cargos nas instituições de Ação Social? 
 
- Além do pagamento dos salários de funcionários e manutenção das Sedes Regionais, em que mais o dinheiro das cotas é investido? É investido em missões, em obras sociais?

É preciso que o 19º Concílio Geral, em atitude de oração, avalie onde está o tesouro da Igreja Metodista hoje. “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração.” -
Mateus 6.21. John Wesley não se conformou com a institucionalização estéril do protestantismo de sua época. Wesley não percebia no protestantismo de sua época o compromisso com os funcionários da minas de carvão, com as prostitutas, com as vítimas do alcoolismo, com os doentes que não podiam pagar por remédios. Em resposta, juntou um grupo de estudantes e foi dar assistência aos operários das minas e aos presidiários. Criou uma farmácia de ervas medicinais e delegou uma das primeiras classes de escola dominical a uma professora que era exprostituta.
 
E nós, metodistas? O que estamos fazendo que indique que estamos alinhados com as ideologias de Wesley?

Dito isso, nós Metodistas Confessantes apontamos sugestões, que cremos ser
relevantes:

- Que haja transparência sobre o uso dos recursos financeiros, inclusive com os balancetes das Sedes Regionais e da Sede Geral disponibilizados e atualizados nos respectivos sites;

- Que seja fixado um percentual mínimo às arrecadações, tal qual se faz com as cotas orçamentárias enviadas às Regiões, destinado às Instituições de Ação Social; 
 
- Que haja compromisso de que todas as igrejas locais tenham ou apóiem ao menos um projeto social voltado ao atendimento dos pobres, dependentes químicos, crianças e adolescentes, saúde integral; etc...

Amados/as em Cristo; encerramos essa Carta Aberta dirigida aos conciliares desse 19º Concílio Geral pedindo que o fogo do Espírito Santo de Deus continue a acender a Chama da
Igreja Metodista e que pelos frutos, sejamos como igreja, reconhecidos aqui na terra como nos
céus.

Na graça e na Paz,

Rede Metodista Confessante
http://metodistaconfessante.blogspot.com/
http://br.groups.yahoo.com/group/metodista_confessante/

Este texto está resumido. Para acessar o texto completo, que será distribuído a todos/as os/as conciliares, acesse aqui. 

2 comentários:

Alunos da Faculdade de Teologia disse...

Gostei bastante da carta. Concordo plenamente que a divisão de Regiões se pauta num ideal capitalista e na vontade de poder daqueles que não são bispos e desejam ser "quase bispos" regionais. Também concordo que o cargo de bispo não deve ser vitalício (como tem sido).

O problema da carta está na parte institucional. Parece-me que a carta é contraditória, já que, num momento, se manifesta contra o "espírito" capitalista e mercadológico que está por trás da divisão de regiões; em outro, por sua vez, manifesta um posicionamento favorável ao gerenciamento de instituições de ensino de acordo com os critérios tecnicos do mercado.

Afinal, se o "espírito" de mercado não é o mais adequado para estabelecer critérios para nossa organização eclesiástica, porque seria adequado no que diz respeito à educação e às instituições? Que vantagem isto poderia ter para a igreja? A vantagem de se adequar ao modelo de educação brasileira?


Em geral, concordo com o teor desta proposta de estabelecer critérios para as instituições e para a escolha de reitores e diretores, porém, tirar este aspecto da competência dos bispos para colocar sob a competência de um grupo que não é eleito pela igreja e também não possui pré-requisitos para gerir as instituições, seria uma mudança irresponsável.
Deve-se estabelecer critérios para eleição dos membros do CONSAD, divulgar o curriculo dos candidatos antes desta eleição e colocar um ou dois membros por regiões. Após isto, o grupo poderia fazer propostas de nomes para gerir determinadas instituições e deveria apresentar estas propostas para a COGEAM. Antes da COGEAM, finalmente, eleger os reitores e administradores, os nomes deveriam ser divulgados nos informativos regionais e nacional.

Os critérios não devem se pautar totalmente em "critérios de mercado". Logicamente, é preciso analisar o curriculo de cada candidato e também estabelecer um edital. No entanto, antes de qualquer juízo institucional ou científico (que é necessário), deve-se estabelecer critérios cristãos: bom caráter, bom exemplo, cristão...

Devido a incoerência ideológica apresentada neste documento, sugiro que haja mudanças nesta proposta, visando não apenas o interesse e os ideais dos "confessantes" mas de toda a Igreja Metodista, como está explícito no documento.
Penso também que não deveríamos insistir que as instituições se afastem mais da Igreja em direção ao Estado.
Quanto mais desvincularmos as instituições de ensino da Igreja, estaremos expressando ainda mais nossa incompetência de estabelecer critérios cristãos, científicos e também acadêmicos para as instituições.

Guilherme Estevam Emilio

Fabio Martelozzo Mendes disse...

Boa noite Guilherme.

Agradecemos seu comentário. Sobre sua análise da sugestão de proposta em relação às instituições de ensino, sugiro a leitura do documento completo, pois o post é um resumo do mesmo (link no final do post).

Ainda assim pode parecer que a proposta é imbuída do espírito capitalista que visa o lucro e o dinheiro. Todavia, afirmo que não é este o espírito da proposta. O espírito é que as instituições de ensino metodistas sejam administrados de maneira profissional e que seus gestores sejam escolhidos por competência e mérito, não por indicação política.

Em relação à missão confessional das instituições metodistas, também sugiro a leitura de nosso documento fundamental, "Movimento dos Metodistas Confessantes", especialmente o ponto 4 - As Instituições Metodistas devem ser Meios da Graça.
http://metodistaconfessante.blogspot.com/2009/09/movimento-dos-metodistas-confessantes.html

Neste documento afirmamos que "Nós, Metodistas Confessantes, cremos que é essencial não deixarmos que nas comunidades, seja suprimida a mesa da Santa Ceia, aberta a todos/as cristãos/ãs a começar pelas crianças. Essa é a face mais pública da nossa abertura como Igreja e de nossa recusa a sermos seita. Na mesma direção, não podemos perder de vista a razão missionária de nossas instituições educacionais."

Também afirmamos que: " Porém há alguns anos, dirigentes da Igreja têm estabelecido uma relação venal entre a Igreja Metodista e as instituições de ensino. Em vez de mantenedora, a Igreja Nacional e algumas regiões, são por elas mantidas. Em vez de ofertar no altar, colhem mensalidade de estudantes. Em vez de as instituições de ensino serem agências missionárias, são, muitas vezes, espaços de promiscuidade e favoritismos; e isso explica parte das crises atuais."

Ao analisar nossas idéias com mais detalhes, espero que eventuais ambiguidades sejam solucionadas.

Mais uma vez, agradecemos seu comentário e esperamos poder contribuir para o debate a esse respeito na Igreja Metodista.