sábado, 4 de julho de 2009

Não nos deixes cair em tentação


Não nos deixes cair em tentação - Por Bispo Nelson Luiz Campos Leite.

A propósito dos próximos Concílios Regionais e Concílio Geral



Aqui está uma “petição” que deveria estar na mente e no coração de todos(as) nós. Vivemos num contexto onde “sedução” e “tentação” são constantes em nossas vidas. Os “valores” comportamentais do “presente século” são convidativos, enganosos e estão em contraposição com os “valores do Evangelho”. Paulo nos diz: “Não vos conformeis (tomai a forma...) com os “valores” (princípios) do presente século” (Rm. 12.2). Infelizmente, nos aspectos os mais diversos, temos, conscientes ou não, nos acomodado a “esses valores”.A motivação central de muitos grupos religiosos tem sido guiada por valores e princípios desse mundo, os quais chamamos pós-modernidade.

Os Concílios Regionais serão realizados no segundo semestre e estão às portas. A preparação regional, os grupos de logística e a movimentação das igrejas locais na escolha dos seus delegados já estão em processo. Tendo em mente que nesses Concílios é onde se elegem os delegados ao próximo Concílio Geral, é momento de reflexão séria e coerente com o Evangelho a respeito de quem e com que delegação as igrejas locais elegerão os seus representantes como “candidatos ao Concílio Geral”.

Começo a perceber a já comum movimentação e vejo que é hora de orar ao Senhor da Seara: “Não nos deixes cair em tentação!”

E por quê?

Porque é necessário que sejamos guiados por uma mente e por valores que tenham sido renovados pelo Espírito em nossas mentes para que possamos vivenciar a vontade de Deus em nossos Concílios e no Concílio Geral. A única vontade que é justa, boa, agradável e perfeita.Rm. 12.2.

O grande desafio é agir, atuar, vivenciar os Concílios Regionais e, a seguir, o Geral conforme os “valores do Evangelho”, do Reino e de acordo com a Vontade Divina. Para tal, há um preço a pagar-se: esvaziamento, quebrantamento, renúncia, conversão, mudança de valores, quebra de ambição, ausência de messianismos, Unidade no Corpo...”santificação”.

A “eleição de delegados (as) ao Concílio Geral tem levado em conta os objetivos, as aspirações individuais e de grupos. Infelizmente, o foco de maior atenção e atração é o da “eleição episcopal”. Tendo-se em mente que o “critério canônico para a eleição episcopal” continua o mesmo, apesar de tantos anseios por mudança, expressos pós-eleição no último Concílio, perdemos a oportunidade de, sob inspiração divina e autoridade do Concílio, criarmos uma forma mais clara, transparente, justa e coerente com os princípios e objetivos do Evangelho e da Igreja Metodista. “Todos (as) Presbíteros (as) são candidatáveis ao Episcopado, através de uma eleição “sem discussão e debate” sob a inspiração do Espírito Santo”. Isso tem ocorrido? Você crê na veracidade e sinceridade do desenvolvimento desse padrão numa eleição episcopal? Nós, que participamos do último Concílio e da última eleição, temos a consciência de que o critério estabelecido pelos Cânones foi realizado fielmente? Creio que existem muitos delegados e delegadas que têm agido coerentemente no decorrer de nossos Concílios, podendo receber a aprovação divina... mas será a maioria? Cada um de nós, desde a igreja local, distrito, região e área nacional dará a Deus a sua resposta.

Há muita “tentação” nesse processo de eleição, desde a igreja local até a escolha dos delegados ao Geral e, especialmente, no momento da eleição episcopal. Somos chamados a “orar”. Orar sincera e coerentemente a Deus, buscando a graça do Espírito visando seguir coerentemente o que o Evangelho e a Igreja Metodista determinam.

Pessoalmente sou favorável à mudança desse critério acima colocado. Creio que a Região deveria encaminhar para o Concílio Geral as pessoas e seus nomes que mais estejam de acordo com os princípios bíblicos do episcopado e preencham de forma coerente o que se requer de um bispo ou bispa, segundo a visão da Igreja Metodista. Isso ocorreria após ter-se uma sondagem honesta e objetiva feita na igreja local e omologada por escolha num Concílio Especial Regional.

Agora nos resta vivenciar o que continuou determinando os Cânones. Aqui entram as “tentações”: aspirações pessoais, movimentos políticos, mobilização de grupos com as mais diversas posturas doutrinárias, consciência de messianismos, acordos regionais e mobilização as mais diversas. Creio na ação do Espírito Santo, na oração, mas descreio do esvaziamento, da submissão ao Senhor, do espírito de humildade e da falta de ambição descabida e desconforme com as normativas Evangélicas. Não descreio de um “quebrantamento evangélico” e nem de um “avivamento genuíno gerado pelo Espírito”.Creio ser essa nossa maior necessidade como cristãos e Igreja. Para tal, não podemos ser obstáculos à ação divina e ser livres das “tentações” anteriormente enumeradas.
Sinceramente falando, vejo como “prioridade” o que acima está, mas temo que “tudo continuará como sempre”, abrindo justificativas, racionalizações e desculpas as mais diversas através das quais a máxima não evangélica está presente: “Os fins justificam os meios”, usada descabidamente por grande parte dos cristãos hoje, em sua maioria evangélicos.

Com que espírito participaremos dos Concílios Locais e Regionais? E, depois, nas reuniões de grupos, delegações e outras?

Chego até a pensar que, no contexto atual, melhor seria a mudança transitória de critério: “eleição episcopal nos Concílios Regionais, deixando para cada Região reconhecer aqueles e aquelas a quem o Senhor tem concedido o “carisma” para o episcopado.

Não há sistema completo e perfeito, pois em todos eles nós humanos é que estaremos decidindo e mesmo no Regional os motivos anteriormente expostos poderão existir, mas de uma forma mais controlada e com possibilidade de quebrantamento mais objetivo e real. Enquanto isso, oremos e busquemos: “Não cair em tentação” contra a vontade e os princípios do Senhor.

Bispo Honorário Nelson Luiz Campos Leite.

domingo, 24 de maio de 2009

Acerca dos 271 anos da experiência religiosa do coração aquecido de João Wesley, o fundador do movimento metodista



Por Pr. Ronan Boechat de Amorim
Ao falarmos da experiência do Coração aquecido de João Wesley naquele 24 de maio de 1738 naturalmente nos recordamos do princípio do metodismo na Inglaterra naquele já distante século XVIII.

E nos lembramos da degradação moral, social, política e religiosa em que vivia a Inglaterra de então. E como em meio aquela situação uma família se destacava em levar à sério a religião, a espiritualidade e o desejo de fidelidade a Deus. Suzana Wesley, aquela mãe e cristã tão vigorosa, ética, sensível e cheia de fibra, o quanto ela foi perseverante em educar seus filhos no temor do Senhor, distinguindo-se do que era “normal em sua época”. Vemos que João Wesley, apesar de todo ensino recebido zelosa e apaixonadamente por sua mãe Suzana, começa uma busca pessoal pela sua própria experiência com Deus. Não queria ser um cristão cujas experiências com Deus fossem limitadas às vividas e recebidas da senhora sua mãe. Ele buscava intensamente ter a sua experiência pessoal e de fé com Deus.

Foi em busca dessa experiência de fé que aceitou ir como missionário na então colônia inglesa na América do Norte, de onde volta algum tempo depois profundamente humilhado, fugindo de um processo colocado na justiça contra ele por supostas práticas pastorais inadequadas.

Em Londres, procura relacionar-se com cristãos alemães chamados de “moravianos”, que eram liderados por um conde chamado Zinzendorf. Ele ficara impressionado com a fé dos moravianos durante sua viagem de ida para a Geórgia. Quando o navio era sacudido de um lado para o outro, um grupo moraviano seguia calmo e confiante. “Nós confiamos em Deus e nossas vidas estão salvas em suas mãos”, diriam mais tarde. Em Londres torna-se amigo de um pregador moraviano que estava naquela cidade preparando-se para seguir viagem para a América. Wesley e Pedro Bolher conversam por vários dias sobre a fé, a doutrina, a salvação, a certeza de ser salvo por Deus, etc... Wesley percebe que criam exatamente na mesma doutrina, mas que lhe faltava sem dúvida, aquilo que ele se ressentia de não ter tido ainda: uma forte experiência com Deus. O que acontece numa pequena reunião dos moravianos na noite de 24 de maio de 1738 quando o pregador lia um comentário escrito quase 200 anos antes por Martinho Lutero sobre o livro de Romanos.

Ele que confessa mais tarde em seu diário ter ido à tal reunião praticamente sem nenhuma vontade; mas que por volta das 20:45h quando o pregador falava sobre as mudanças realizadas por Deus na vida dos salvos, ele sentiu seu coração estranhamente aquecido (na verdade, sentiu seu coração estranhamente abrasado, ardente) pelo poder de Deus e sentiu que seus pecados estavam perdoados, que ele confiava em Deus... um grande peso saiu de sobre seus ombros e ele deixou de ser apenas um servo, passando a experimentar a maravilhosa experiência de ser filho de Deus.

Daquele 24 de maio em diante João Wesley nunca mais foi a mesma pessoa ou o mesmo pregador. Começou um movimento de discipulado de crentes dentro da Igreja Anglicana, que visava vida de oração, estudo da Palavra de Deus, desejo por santidade e dedicação à evangelização e à missões. Ao morrer em 1792, aos 89 anos de idade, calcula-se que havia 70 mil metodistas na Grã-Bretanha (Inglaterra, Escócia e Irlanda) e que pelo menos outros 70 mil já haviam morrido durante sua vida tão longeva.
Apesar de ser perseguido pelas autoridades da Igreja Anglicana por causa de seu “entusiasmo” (fervor), deixando-o não apenas sem a designação para uma paróquia, mas proibindo-o de pregar em qualquer igreja anglicana, Wesley e todos os metodistas enquanto ele viveu não deixaram de ser nem anglicanos nem metodistas. O metodismo era um movimento de santidade e evangelização dentro da Igreja Anglicana. Quando proibido de pregar em templos anglicanos, Wesley disse: “O mundo é a minha paróquia”. Sobre o porquê Deus havia levantado os metodistas ele afirmou: “Para reformar a nação, particularmente a igreja; e para espalhar a santidade bíblica por toda a terra”. Sua grande prioridade: “Nada a fazer senão salvar almas”.

Seu “entusiasmo” não foi nem irracional nem alienante. Pois levou Wesley a compreender que além de salvar a alma da pessoa do inferno, era necessário também salvar a vida das mesmas antes da morte, tirando-as de sob o poder da pobreza, do analfabetismo, do trabalho escravo, da injustiça e de todo tipo de valores e práticas que não tivessem em conformidade com a vontade de Deus. O avivamento de Wesley não era apenas no culto, mas sobretudo no dia a dia. E sua teologia do que podemos chamar hoje de “salvação integral” levou-o também a lutar contra a escravidão, os vícios, as leis e sistema prisional desumano da Inglaterra de então.

Olhando para a história desse homem que teve seu coração “estranhamente aquecido” (coração fervente) pelo poder do Espírito Santo, não temos como não reconhecer que foi um homem tremendamente usado por Deus e que ele é um testemunho explícito e vivo de que:

1 – NÃO PODEMOS NOS SATISFAZER COM EXPERIÊNCIAS ALHEIAS E COM VIDA ESPIRITUAL MEDÍOCRE – Não devemos nos satisfazer com aquilo que generosa e amorosamente recebemos de nossos pais e de nossa Igreja. É preciso buscar nossa própria experiência de fé com Deus. Não podemos ser cristãos alimentados apenas pela fé de nossos pais e pela tradição dos que nos antecederam nessa fé. É fundamental que tenhamos nossa própria experiência de fé (e pessoal) com Deus. Deus tem mais para nós do que aquilo que nossos pais podem compartilhar conosco, repassar para nós... por mais leais a Deus e à tarefa do testemunho e do ensino cristão que eles sejam.
Não podemos nos satisfazer com relações superficiais, medíocres, ritualistas e mecânicas com Deus. É necessário que o Espírito de Deus testifique em nosso próprio coração que somos filhos e filhas de Deus. E a partir daí construir uma vida de intimidade e de experiências pessoais contínuas com o Deus vivo e presente.

2 – NÃO DEVEMOS VIVER DE ACORDO COM O MEIO SOCIAL E CULTURAL, MAS DE ACORDO COM A VONTADE DE DEUS – O meio social, político, cultural, eclesiástico e teológico com certeza influem poderosamente no tipo de pessoas que somos ou seremos, nos valores que temos ou teremos e também no tipo de espiritualidade (relação com Deus) que temos. Mas nossa maior referência e influência têm de ser o Evangelho e o Espírito Santo de Deus.

O meio ambiente, cultural e social e religioso forma, deforma, conforma, reforma, formata, etc, as pessoas; mas pessoas podem questionar a formação, superar a conformação e experimentarem reforma e transformação. Particularmente se foram despertadas para a situação em que estão e encorajadas a uma mudança significativa através e por causa do amor de Deus.

Pessoas genuinamente cristãs têm o Evangelho de Jesus como “lâmpada para os pés e luz para o caminho” (Sl 119:105). De modo que têm por natureza o discernimento que nos faz sermos críticos diante das coisas, das tradições, das inovações, das repressões, dos rolos compressores dos modismos de qualquer espécie, inclusive, os modismos teológicos.

Deus tem o poder de mudar as pessoas e o meio cultural onde as pessoas vivem. Para provocar mudanças existe também o testemunho pessoal, a evangelização (que deve ser integral curando o caráter da pessoa, seus relacionamentos e os valores e estruturas da comunidade onde vive) e, sobretudo o poder do Espírito Santo que convence do pecado, guia à verdade e faz tudo novo. Os grandes e genuínos avivamentos, inclusive, têm essa finalidade: mudam as pessoas e enchem a história humana de mais graça de Deus.

3 – PEQUENOS ENCONTROS E PESSOAS SIMPLES TAMBÉM PODEM PROMOVER GRANDES MUDANÇAS – Pessoas simples, como o missionário moraviano Pedro Bolher, podem ser tremendos canais de graça e instrumentos do agir de Deus de Deus, das mudanças de Deus, das operações de Deus em pessoas, nas histórias dessas pessoas e na história da comunidade. Wesley foi, digamos, o estopim que foi aceso através da instrumentalidade de Pedro Bolher pelo “fogo” do Espírito Santo. Depois de um tempo em Londres ponde esperava para ir como missionário nas Américas não se ouviu mais esse nome. Mas assim como o muito sem Deus é sempre pouco, o pouco com Ele muito se faz; é sempre o suficiente.

4 – QUE O CAIR É DO HOMEM, MAS QUE A SALVAÇÃO PERTENCE AO SENHOR – João Wesley, um homem que confiava em seus próprios méritos, na sua sabedoria e conhecimentos, na segurança dos ritos e do tradicionalismo, foi levado por Deus à colônia inglesa na Geórgia e ali foi quebrado como um vaso nas mãos do oleiro. Foi reduzido a alguém que não tinha mais como confiar em si mesmo. Reconheceu que precisava desesperadamente do socorro do Senhor e quando clamou este aflito, Deus o ouviu, o ergueu e o tornou um instrumento de graça e salvação confiável. Não porque era grande, mas porque sua grandeza estava em depender e em obedecer a Deus em todas as coisas.

5 – PESSOAS PODEM LIDERAR PESSOAS E AJUDÁ-LAS A SEREM TRASFORMADAS POR DEUS – João Wesley nunca teve o poder de transformar as pessoas, mas nas mãos de Deus foi um grande líder que levou pessoas a colocarem suas vidas e a fé nas mãos do único e suficiente Salvador, o Senhor Jesus.

Um homem sozinho não pode mudar ninguém (ao menos para melhor!!), não pode mudar um país inteiro, não pode mudar o mundo, transformando-o num lugar melhor e mais justo para todos, mas pode, sob o poder de Deus, vislumbrar e profetizar mudanças, proclamar e promover mudanças, animar e reunir pessoas que desejam mudanças e liderar pessoas para que mudanças de fato aconteçam.

6 – QUE A IGREJA PODE SER O LUGAR DA AUSÊNCIA DE DEUS - A Igreja (a vida das pessoas crentes, o culto, os ritos, a religião cristã, etc) pode transformar-se num lugar difícil de encontrar o Deus vivo, tal como aconteceu no tempo de Jesus com o templo de Jerusalém e seus religiosos e tal como aconteceu no tempo de João Wesley, onde, segundo estudiosos, se alguém se convertesse de seus pecados os mais surpresos seriam os próprios pregadores.

Graças a Deus porque ele não desiste de seu povo, de sua igreja e que o fermento do Reino, tal como aconteceu com João Wesley e seus companheiros metodistas, leveda toda a “massa”, todo o corpo, sendo luz que vence as trevas e sal da terra. As misericórdias do Senhor são a causa de não sermos consumidos. Aleluia!

7 – NADA QUE HOJE É GRANDE COMEÇOU GRANDE E TUDO QUE É GRANDE COMEÇOU PEQUENO – Foi assim como movimento dos metodistas e posteriormente com a Igreja Metodista. Começou com um, depois dois, depois dez, depois cem. Mas graças a Deus por aqueles que viram quando nada ainda havia para ver, a não ser através da fé. “Paulo plantou, Apolo regou, mas é Deus quem dá o crescimento”. Aleluia!

8 – NÃO TEMER AS ESTRUTURAS, AS PERSEGUIÇÕES E A PERDA DE PRIVILÉGIOS – João Wesley, de posse da tarefa que Deus lhe deu, enfrentou as tradições doentias, o clero corrompido e sem visão missionária, a cultura da frouxidão ética, a antipatia dos governantes, a perda de uma designação para uma igreja local e até mesmo a humilhação de ser proibido de pregar na igreja da qual era pastor, que seu pai, avôs e bisavôs eram pastores. Ele certamente sofreu, mas preferiu tomar sobre si a cruz de Cristo, não se deixou apequenar diante dos poderes das estruturas eclesiásticas, não se deixou corromper pelas dádivas de uma teologia e uma ação pastoral e missionária domesticada, mas se ressentiu de perder o papel de comensal na mesa das autoridades e os privilégios daí advindos. Ele preferiu ser fiel a Deus, ao seu chamado, à sua fé e à sua consciência. Como Daniel, ele preferiu estar com Deus na cova dos leões do que estar sem Ele na Mesa do rei e nas louvações do Palácio real.

9 – TER UMA AUTORIDADE QUE NÃO ABRE NÃO DO PODER, MAS EXERCER O PODER E A AUTORIDADE NO TEMOR DO SENHOR, COMO DESPENSEIRO DE DEUS E SERVO DOS DEMAIS E COMO QUEM ESTÁ PRONTO PAR AOUVIR E MUDAR - Depois que teve sua experiência com Deus naquele 24 de maio Wesley tornou-se crescentemente uma referência e uma autoridade espiritual e pastoral em seu país. Mas foi um homem que ouvia e que mudava de opinião, mesmo que isso doesse tanto quanto ter de arrancar o próprio fígado. Foi assim com a pregação de leigos, com a pregação de mulheres, com a ordenação de pregadores para ministrar a Ceia aos metodistas dos EUA quando não havia lá sacerdotes anglicanos para fazê-lo... Também aceitou a autonomia dos metodistas norte-americanos em relação à Igreja Anglicana... era contra tudo isso, mas Deus, através de sua mãe Suzana, de seu amigo Maxfield, e de outros próximos, o quebrava e remodelava sempre que necessário.

10 – É PRECISO CONTINUAR, SENDO CRIATIVO E REMINDO O TEMPO – João Wesley nunca se satisfez com o trabalho feito e os resultados obtidos. Não podia descansar enquanto houvesse pessoas a serem alcançadas e almas a serem aliviadas, perdoadas e salvas. Morreu aos 88 anos de idade, trabalhando, mesmo depois de ter exercido um ministério pastoral e evangelístico no qual pregou mais de 40 mil vezes, escrito mais de 30 livros, visitado missionariamente a Irlanda 11 vezes e a Escócia 22 vezes, viajado a cavalo mais de 4.500 milhas por ano até os seus 60 anos de idade (totalizando mais de 375.000 quilômetros), pregado e visitado... Wesley e os primeiros metodistas apoiaram a reforma do ensino que era fraco e para apenas alguns poucos privilegiados; criaram escolas para os pobres e casas de acolhida para as viúvas e órfãos pobres; apoiaram as mudanças nas leis e a reforma das prisões; lutou pela libertação dos escravos; contra o trabalho das crianças nas minas de carvão; e por uma reforma ampla e geral das leis e costumes da decaída Inglaterra do Século XVIII.

No leito, bem pouco antes de morrer escreveu ao primeiro ministro inglês de então, Wilbeforce, igualmente um metodista, para que não cessasse de lutar contra a escravidão, o mais vil pecado e vergonha sobre a face da terra. E ao invés de vangloriar-se do que fez e do legado que deixava, apenas disse: “O melhor de tudo é que Deus está conosco”.

Ainda sobre o legado que deixava, sentenciou: “Não tenho medo que o Metodismo deixe de existir. Tenho medo que ele se torne insípido”.

João Wesley, foi profundamente impactado pela sua experiência religiosa do 24 de maio de 1738, mas nunca tornou-se prisioneiro dela. Ou melhor, nunca foi homem de apenas uma única experiência com Deus. Na medida em que os anos passam daquele 1938, cada vez ele fala menos daquela experiência. Tinha outras experiências a viver e a testificar.

Como dois séculos mais tarde diria o Bispo Metodista Francis Ensley sobre aquele 24 de maio, a experiência do coração aquecido acontecida na rua Aldersgate “não livrou Wesley da luxúria, da bebedeira ou da criminalidade. Não representa a conversão aos preceitos de Cristo, ou um retorno da indiferença religiosa. Aldersgate marca uma onda contrária aos inimigos espirituais que o flagelavam. Um deles era a concepção legalista da religião que ele professava. (...) O outro inimigo espiritual foi a indiferença emocional. (...) Sua religião era antes um peso do que algo que trouxesse alívio. (...) E para uma coisa ela o inflamou: para a tarefa evangelística”.
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quinta-feira, 21 de maio de 2009

Cultura Gospel: Fruto da pós–modernidade



Por : Antônio Carlos Soares dos Santos*
Cada vez mais me convenço de que estamos vivendo um tempo de grandes perdas, de grandes “desvios”, de sepultamento das raízes do mais puro cristianismo. E o algoz tem um nome: Cultura Gospel.
Não é protestantismo, nem mesmo pentecostalismo, mas é um fruto oriundo da tal pós-modernidade. Uma das características dessa “dita-cuja” pós-modernidade é justamente a ojeriza ao passado, às tradições e tudo que possa indicar algo que um dia chamamos de IDENTIDADE.
Não entendo muito bem o que seja essa tal pós modernidade...mas uma coisa digo..não é coisa boa não...mas vamos recorrer a especialistas. O sociólogo polonês Zygmunt Bauman diz que pós modernidade é “uma realidade ambígua, multiforme, na qual, como na clássica expressão marxiana, tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Já o filosófo francês Gilles Lipovetsky declara ser “uma exarcebação de certas características das sociedades modernas, tais como o individualismo, o consumismo, a ética hedonista, a fragmentação do tempo e do espaço”.
Agora pergunto: nosso adorável mundo gospel não é pós moderno?
Com toda sua busca individualista, com seu capitalismo religioso, com as estatística de mercado, suas estratégias de Marketing... A verdade é que o pós modernismo (leia-se: cultura gospel) esvaziou o cristianismo e nós ainda batemos palmas para isso. Trocamos a seriedade e serenidade pelo êxtase momentâneo do sucesso a qualquer preço.
O Prof. Isaías Lobão Pereira Júnior em seu artigo “A Igreja Brasileira na Pós-modernidade” faz a seguinte declaração: “Na Igreja, o que antes era convicção, hoje é opção. Os mandamentos divinos passaram a ser sugestões divinas. A igreja é orientada por aquilo que dá certo e não por aquilo que é certo”.
Que grande e triste verdade! Podemos perceber cada vez mais essa realidade quando nos deparamos com algumas mensagens que exaltam tanto a busca de poder e os dons individuais e nada dizem a respeito da comunhão partilhada, da necessidade do arrependimento, do caráter de Jesus, da compaixão com os injustiçados em uma sociedade corrompida, cruel e impune.
Vivemos tempos em que a Bíblia não é mais a nossa única regra de fé, pois, as experiências pessoais acabam por suplantar o conceito bíblico de Igreja, suas doutrinas e orientações mais essenciais. É lamentável vermos nossa amada Igreja Metodista, de tantas histórias e História, de tanta tradição, se perder em meio a uma salada “gospel” de consumismo mercadológico. E todos sabem que os olhos do mercado não enxergam o individuo e sim a multidão.
Vivemos uma contradição eclesiológica, pois adotamos o discipulado como estilo de vida, mas a prática é cada vez mais de agrupamento de pessoas sem rosto e sem identidade. E não importa os meios que se usa para alcançar esse “agrupamento”, o importante é que o “número” aumente!
Deus é o produto...os fiéis, os consumidores...Deus é encontrado com várias faces de acordo com o gosto e a tendência...Tem o Deus dos ricos, o Deus dos “guerreiros”, o Deus curandeiro, o Deus-Gênio da Lâmpada...Onde antes era “Senhor, seja feita a Tua vontade” hoje é “ eu reinvidico, eu exijo, eu determino...”
Uma pregação triunfalista, ufanista...triste, dolorida para quem antes buscava a Igreja para encontrar uma palavra de consolo, carinho e até mesmo de exortação e não uma chamada para sucesso continuo e ininterrupto. Não existe mais aquela sede pelo conhecimento a Deus, não é mais o que quero conhecer, mas o que eu sinto é o que importa, se a Palavra não me agradou eu busco uma que me agrade e com isso o corpo pastoral passa não mais a aplicar o que a Igreja necessita, mas sim o que o povo quer.
Jazie Guerreiro explana muito bem isso ao dizer “Na cultura pós-moderna o religioso se expressa com um forte predomínio da experiência sobre a razão e sobre a própria explicação da fé”. Enquanto o espírito ecumênico é duramente criticado e até visto como jocoso, o sincretismo religioso vai ganhando espaço nas Igrejas e alimentando a superstição popular. Quando vemos que o símbolo se torna maior que o significado, alguma coisa está muito errada!
Ao que parece, já não sabemos mais como o autor de I Pedro nos convida a “estarmos sempre preparados para responder a qualquer pessoa que nos pedir a razão de nossa esperança” (I Pedro 3.15), talvez por considerarmos que Rick Warren com sua “obra prima” Uma igreja com propósitos tenha mais a dizer ao povo de Deus do que a própria tradição bíblica e histórica da Igreja.
Como pastor metodista, de tradição Wesleyana, me preocupo muito...hoje estou vendo que não sou festeiro, que não sou alegre o tempo todo, que tenho momentos de tristeza, de solidão...por isso compreendo que não posso prometer a Igreja nada além daquilo que Deus revela na Bíblia...Felizmente, ou infelizmente, para alguns, levo meu pastorado muito a sério.
Em meio a tantas heresias ditas à vontade nos púlpitos, televisão e rádios, quero citar um “herege” abençoado por Deus e lúcido: “Já não espero que uma relação com Deus me blinde de percalços. Não acredito, e nem quero, que Deus me revista com uma carcaça impenetrável. Acho um despautério prometer, em meio a tanto sofrimento, que uma vida obediente e pura gere segurança contra doenças, acidentes, violência”. (Pr. Ricardo Gondim). Hoje vivemos uma pós modernidade, “uma mistura de ilusão com esperança”[1], para que no fim de tudo, Deus venha a restaurar a ordem e confirmar os valores de seu Reino.
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* Antônio Carlos Soares dos Santos é pastor Metodista
[1] Gondim, Ricardo: Repensando a fé.
Fonte - http://metodistaecumenico.blogspot.com/ - 5 maio de 2009

domingo, 17 de maio de 2009

Manifesto do Movimento Metodista Confessante sobre a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos de 2009



No livro Um só Senhor, uma só Igreja publicado no Brasil em 1964 o Rev. Metodista Dr. John Robert Nelson pergunta:
"Por que tanto interesse hoje pela unidade cristã? Se o problema da unidade fosse ignorado, a vida seria muito mais fácil para a maior parte dos cristãos em todo o mundo. O fato de que diferenças doutrinárias impedem todos os membros da família de Cristo de receber a Sua Ceia na mesma mesa, não seria causa de angústia de espírito de forma alguma; a competição aberta de igrejas cristãs pregando o mesmo Evangelho da mesma Bíblia na mesma vila para confusão dos mesmos povos não-cristãos, não seria causa de escândalo; cada pequeno grupo de cristãos poderia sentir-se complacente e satisfeito em seu isolacionismo das demais igrejas vizinhas; e cada denominação poderia realizar seu próprio programa de evangelização e de serviço social sem cogitar dos outros. Tudo isto estaria certo, se não fosse por uma cousa: Jesus Cristo quer que sua Igreja seja uma em mente, espírito, vida e testemunho." (p.6).

Estamos em 2009 e as mesmas questões apontadas pelo Rev. John Robert Nelson, há 45 anos continuam latentes: Será que há esperança para o ecumenismo?

Em 1986 outro metodista, o Professor Dr. Hélerson Bastos Rodrigues em No mesmo barco: vivência inter-eclesiástica dos Metodistas do Brasil De 1960 A 1971, assim introduz seu livro:" 'Se teu coração é como o meu coração'; se amas a Deus e a toda a humanidade, não peço mais: 'Dá-me a tua mão' ". Apoiando-se na Escritura (2 Reis 10.15) João Wesley, deflagrador do metodismo, pregou sobre "O Espírito Católico" [ou seja, universal], desenvolvendo uma argumentação que se encaminhou para conclusões da seguinte ordem:
... o homem de espírito católico é o que (...) ama — como amigos, como irmãos no Senhor, como membros de Cristo e filhos de Deus, como atuais co-participantes do presente reino de Deus e co-herdeiros de seu reino eterno — a todos, de qualquer opinião ou culto, ou congregação, que creiam no Senhor Jesus Cristo; que amem a Deus e aos homens; e que, regozijando-se em louvar a Deus e temendo causar-lhe ofensa, sejam cuidadosos no abster-se do mal e zelosos nas boas obras.
Espalhados pelas Igrejas que hoje atuam em dezenas de países, os sucessores de João Wesley souberam acolher aos conselhos de seu patrono. No Brasil, também, os metodistas não perderam o ideal da unidade que vem de Jesus Cristo.”

Não esqueçamos: o autor fala da de uma realidade do ano de 1986. Ao descrever o relacionamento da Igreja metodista brasileira com a Igreja Católica Helerson Bastos diz: "Nas 'celebrações em conjunto' programaram-se situações que contaram com católicos e protestantes, entre os quais os metodistas, que elaboraram e realizaram o evento conjuntamente. Tratam-se das Semanas de Oração pela Unidade Cristã, Semanas de Oração pela Pátria, celebração de ação de graças em datas nacionais, solenidades religiosas em formaturas escolares. (...)” (p.92)

Nas páginas conclusivas do livro Helerson Bastos afirma: “Os metodistas foram se conscientizando da necessidade de conhecer mais profundamente sua própria Igreja, suas raízes, sua identidade, sem o que não teriam como prosseguir maduramente no diálogo ecumênico.” Helerson Bastos encerra o livro com os seguintes dizeres sobre o ecumenismo:
“Realidade? Utopia!
Fé. . . esperança. . . amor. ..
Dá-me a tua mão. Estamos no mesmo barco.”

Desde a publicação de No mesmo barco passaram-se 23 anos e muitos/as metodistas nesse ano de 2009 repetem as mesmas indagações: Ecumenismo é realidade? Ou utopia?

Infelizmente o 18º concílio da Igreja Metodista do Brasil realizado em julho de 2006 decidiu sua retirada de todos os organismos e eventos onde a Igreja Católica participe. Assim distanciou seus membros do sonho de um ecumenismo pleno. Mas não “matou” a “utopia” dos corações ecumênicos. Muito pelo contrário, homens e mulheres comprometidos com o metodismo “histórico” encontram-se hoje ainda mais engajados/as como a causa ecumênica, por entender que ela é, não somente o fundamento da Igreja de Cristo, mas, o alicerce do Metodismo histórico formulado pelo pai da fé do metodismo mundial.

As palavras de Wesley, fundador do metodismo, ainda chama pela união das mãos e dos corações em unidade fraterna, refutando toda “unanimidade” perversa e excludente. “Na casa de nosso Pai/Mãe, que como galinha acolhe todos/as sob suas asas, há muitas moradas...” É essa compreensão que nutre o Movimento Metodista Confessante e demais metodistas ecumênicos espalhados/as pelo Brasil.

A cada Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, nós, católicos e protestantes, temos oportunidade de testemunhar que: “Iluminados/as pela luz do Cristo que se fez homem e habitou entre nós”, temos a nítida convicção que “um novo mundo é possível”, mesmo e apesar das formulações equivocadas das lideranças “passageiras” que controlam o “poder” de nossas igrejas.

Assim na fé, na esperança e no amor podemos pedir: Dá-me tua mão; afinal estamos no mesmo barco.
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Movimento Metodista Confessante http://metodistaconfessante.blogspot.com/
Aprofunde a leitura
Um só Senhor, uma só Igreja
http://www.metodistavilaisabel.org.br/docs/Um_so_Senhor_uma_so_Igreja.pdf
No mesmo barco: vivência inter-eclesiástica dos Metodistas do Brasil De 1960 A 1971
http://www.metodistavilaisabel.org.br/docs/No_Mesmo_Barco.pdf

domingo, 7 de dezembro de 2008

UMA TRÍADE NA ESPIRITUALIDADE MINISTERIAL:CARISMA, CARÁTER E CARIDADE

*Por Bispo Josué Adam Lazier

Introdução

Gosto de pensar na espiritualidade enquanto uma relação das experiências adquiridas, do conhecimento e do saber com a vida prática. Em outras palavras, pensar na conexão do interior com o exterior. A espiritualidade nos desafia a sermos uma pessoa que evidencia esta conexão em todos os momentos da vida.

No que se refere aos ministérios desenvolvidos, a espiritualidade conecta o sentido de vocação com os atos ministeriais praticados. Destaco, portanto, uma tríade nesta espiritualidade ministerial: carisma, caráter e caridade. Sem carisma não há qualidade e autoridade no ministério que se exerce, sem caráter não há autoridade nas ações pastorais e ministeriais e sem caridade não dá para chegar ao coração das pessoas com as quais trabalhamos.

Carisma
Já tive a oportunidade de desenvolver este tema em outros textos, incluindo o livro publicado pela EDITEO (O Carisma do Ministério Pastoral), onde apresento os contornos do carisma pastoral. Ao falar de carisma estou me referindo ao ato de reconhecimento e de mandato dado pela Igreja. O carisma, seja do ministério pastoral ou dos ministérios laicos, é reconhecido pela comunidade cristã e desenvolvido em sintonia com a eclesiologia. Não cabe, seja qual for a denominação, um ministério autônomo e sem qualquer relação com as doutrinas, em especial a que define o modo de ser igreja.

Carisma significa o dom através do qual o Espírito Santo age na vida do cristão e da Igreja na medida em que o cristão se oferece a Deus em resposta ao Seu amor. O carisma se evidencia de forma comunitária e não individualizada, pois ele se expressa por meio da dedicação da pessoa ao serviço de Deus e por meio da Sua Graça.

Em outras palavras, o carisma que atribui autoridade ao ministério, não é o pessoal, não são os dons pessoais ou os talentos da pessoa, e sim o mandato, a ordenação ou a consagração realizada pela comunidade de fé.

Caráter
O ministério “carismático”, ou seja, aquele que tem o carisma dado pela Igreja é acompanhado por comportamentos e atitudes que evidenciam uma boa índole, um bom caráter, um conjunto de boas qualidades. Nas cartas pastorais (I e II Timóteo e Tito) o autor apostólico destaca várias qualidades que se referem ao comportamento ético e relacional dos líderes da comunidade de fé. Fala, portanto, de caráter e de integridade na vida pessoal, familiar e social.

Falar do carisma é o mesmo que falar da integridade da pessoa. O que confere valor e autoridade ao carisma recebido por ordenação e consagração é a integridade que a pessoa evidencia, em termos de comportamento ético, responsabilidade, transparência, honestidade, respeito e confiabilidade. Sem esta integridade a pessoa que exerce um determinado ministério, mesmo que possua o carisma, não possuirá autoridade e legitimidade para suas ações ministeriais. Da mesma forma que na figura da espiritualidade há conexão do interior com o exterior, deve existir conexão entre o carisma dado pela Igreja e o caráter da pessoa que recebe o mandato (carisma). O carisma sem caráter não tem substância e qualidade.

Caridade
Poderia falar do amor, mas preferi a expressão caridade. Parece que o amor tem sido tema dos escritores bíblicos que ficou distante de nós, tema de músicas que são cantadas nas igrejas locais dominicalmente ou tema de poesia e romance. O amor como descrito pelas sagradas escrituras e que se refere ao ato de entregar-se pelos outros, perdoar, pedir perdão, restauração, etc, parece ser algo que ficou no passado. O amor se transformou meramente numa virtude teologal quando deveria ser um fruto sempre presente na vida do cristão. Desta forma, a música que fala da volta ao primeiro amor, lembrando a carta dirigida à Igreja de Éfeso (Ap 2.4), tem razão: a Igreja precisa voltar ao primeiro amor e começar de novo suas boas obras na ótica do ágape.

Optei por falar da caridade, pois se não é possível amar como Cristo amou, que haja pelo menos caridade para com os mais fracos, caridade para com os diferentes, caridade para com o que pensam de forma diferenciada e que ela seja para integrar e incluir os que ficam marginalizados. Recordo-me das palavras do apóstolo Paulo dirigidas aos tessalonicenses, quando diz: “admoesteis os insubmissos, consoleis os desanimados, ampareis os fracos e sejas longânimos para com todos” (I Ts 5.14). Estas palavras inspiram, de certa forma, atitudes de caridade.
Caridade pode ser complacência, benevolência ou compaixão e caridoso seria aquele que procura identificar-se com o amor de Deus. Se conseguirmos isto em nossas práticas ministeriais já estaremos num bom caminho.

Tentando concluir
Não dá para concluir. Esta reflexão apresenta inquietações, preocupações, desafios, provocações, questionamentos, convite para o diálogo e para o aprofundamento do tema do carisma. Vamos seguir conversando...

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*Josué Adam Lazier é Bispo da Igreja Metodista

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A IGREJA E O MESSIAS: A Expectativa de Justiça

* Rev. Efraim Sanches Pereira
"Do tronco de Jessé sairá um rebento, ...julgará comjustiça os pobres,e decidirá com equidade a favor dos mansos da terra;"(Is 11.1,4)
Sabemos que Justiça é um ideal. Jamais, neste mundo em quevivemos, teremos a bênção de ver prevalecer aquilo que écorreto, digno, justo e perfeito. Esta retidão não é domíniodos mortais, mas dos deuses! Por causa disso, devemos abdicar de buscar a Justiça? Naturalmenteque não!
O ser humano possui dentro de sí o desejo e o apelo desempre procurar viver e agir de forma a manifestar as características que o Livro da Lei, a Bíblia, chama de "Imagem de Deus"implantada em nossas mentes e corações. Assim, nem que seja para se sentir um pouco divino, todo homem/mulher busca ser justo.
A Justiça é uma esperança! É assim que devemos ler este texto da Bíblia, onde o profeta vive um contexto de crueldades, parcialidades, desmandos, corporativismos, deslealdades, subornos dos magistrados, burla da Lei, usurpações de heranças, desigualdade social e econômica, escravidão, violência. Tudo isso é parte integrante da realidade do homem Isaías, que se revolta e num rasgode esperança, apresenta sua visão de como deveria ser um Juíz eou um Rei.
A Justiça também é compromisso. O que admira na palavra doprofeta não é a descrição do que deve ser um homem público,mas sua crença firme de que haverá um dia em que finalmente, oideal de justiça prevalecerá. Ele mantém, mesmo diante de umarealidade adversa, uma confiança de que em breve o Deus Eterno sefará notar na figura de um Enviado, que com seu comportamento perfeito, realizará os anseios e desejos dos injustiçados.
A Igreja está na condição de Agência do Reino de Deus. Ela éo Messias antes que Ele volte. Sua presença na educação, nogoverno, nas várias instâncias da vida cidadã deve sercomprometida com a realização da esperança. O Messias não está patrocinado pelo capital, mas pelo sonho de Deus e seu projeto para homem. As "autoridades" religiosas nada mais são do ques ervos e instrumentos da concretização da vontade de Deus.
Nos aproximamos do Natal, uma das épocas em que a desigualdade e a injustiça mais se fazem notar. É o momento de reafirmarmos, juntamente com Isaías, o compromisso com um futuro diferente desse nosso presente, em que inocentes são presos; autoridades não tem pejo de vir a público dizer que não punirão o faltoso, por puro corporativismo; pais de família são despedidos, em detrimento do capital; crianças são postas no mundo sem qualquer responsabilidade; poucos teimam em ter muito, quando muitos não tem nada; alguns retém mais terra do que podem cuidar; trabalhadores dignos, tratados indignamente, ficam sem salário; criminosos ilustres ficam sem punição. E se continuar, faltará espaço!
Diante do exposto, na figura do Messias, (que não tem nenhumcompromisso com essa estrutura religiosa que existe em nosso mundo e que teima ilegitimamente em ser Sua representante), assumamos com o profeta:"Naquele dia recorrerão as nações à raiz de Jessé que está posta por estandarte dos povos; a glória lhe será amorada". (Is 11.10). Renovemos nossa confiança; não abandonemos nossa utopia, pois outros viveram antes de nós, que alimentaram sua luta nesta mesma esperança, certos de que as gerações futuras não abandonariam o ideal. É difícil, mas deve sempre existir alguém que mantenha a Luz acessa, para esta denuncie e espante as trevas. Se a lâmpadaapagar-se, como encontrar o caminho?
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*Rev. Efraim Sanches Pereira- 5ªRE

sábado, 29 de novembro de 2008

Ética Pastoral

Está aberto convite para artigos sobre a Ética pastoral tendo como fonte as orientações dos cânones da Igreja Metodista do Brasil.
A idéia é expandir para as comunidades locais orientações básicas sobre o papel e os limites do "poder pastoral". Se você tem uma contribuição sobre esse tema Envie seu artigo ao email:
metodista_confessante-owner@yahoogrupos.com.br*Foto é da "Mesa da Graça" no primeiro encontro presencial Confessante
*Foto é da "Mesa da Graça" no primeiro encontro presencial Confessante

Casa dividida não subsiste

*Por Efraim Sanches Pereira
"se uma casa estiver dividida contra si mesma, tal casa não poderá subsistir" Mt 3.25

Tenho ouvido algumas notícias advindas do mundo metodista. Informam que foram instaladas "tendas da prosperidade" em nossas igrejas, e o povo está passando por elas; que existem comunidades ainda celebrando os seus cultos utilizando o Hinário Evangélico e igrejas que nem mais sabem que existiu um dia esse Hinário. Cantam a esperança e a experiência das outras denominações.
Existem ainda, aqueles que, no afã de protegerem-se contra as artimanhas e ataques do Maligno, amarram correias ao pescoço de outros, batizam-nos de Leões de Judá e saem urinando nos cantos dos templos, para marcar o território de Jesus, o Leão de Judá. Existem os metodistas que querem viver a experiência do Apóstolo Paulo, de ter ido até ao terceiro céu. Assim, praticam o arrebatamento em suas reuniões de oração, levando colchonetes para as mesmas, sendo embalados ao som de músicas evangélicas hipnotizantes, com a finalidade de viver tais experiências astrais.
Existem os preocupados com o aumento do número de membros, que se apropriam da linguagem e dos métodos dos batistas, presbiterianos, e os aplicam na evangelização e discipulado na busca do crescimento da Igreja.
Existem aqueles que aprenderam que a religião é um fenômeno e por isso, todas essas manifestações místicas são coisa da ignorância que grassa no meio do povo brasileiro. É preciso racionalizar a fé. Existem os que entendem que a religião e o metodismo só se justificam no serviço libertário á favor do pobre contra a opressão do rico e do capitalismo.
Também existem os que enxergam na igreja um meio de ascender socialmente, preparando-se para serem os futuros dirigentes das nossas instituições, na ânsia de ganhar dinheiro e poder.Existem os que vivem das modas. Dente de ouro, arrebatamento, Dons espirituais, batalha espiritual, caminhadas para Jesus, e etc. Existem os irmãos que percebem Satanás em cada canto da comunidade e desejam exorcizá-lo, falar dele o tempo todo, alertando os desavisados e inconscientes. Precisam ser ensinados dioturnamente sobre as artimanhas do maligno.
Ao tomar conhecimento dessas notícias, também fico sabendo e vendo que existem metodistas interessados em conhecer as doutrinas de João Wesley e se aprofundar no saber bíblico, sem, contudo, descobrir onde. Ao cumprir minha disciplina diária iniciando com minha meditação matinal, esbarro no versículo acima e, quase automaticamente, lembro-me de outro texto da Palavra de Deus: "O meu povo está sendo destruido porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu, te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da Lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos" Os 3.6.
Minhas orações dessa manhã são para que as ovelhas do Israel espiritual reunido na Igreja Metodista brasileira encontrem o verdadeiro pastor, nos seus pastores e em seus bispos, pois "se uma casa estiver dividida contra si mesma, tal casa não poderá subsistir" Mt 3.25.
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* Efraim Sanches Pereira é Revdo metodista da 5aRE

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

WESLEY E NÓS

WESLEY E NÓS

“Não tenho medo que o povo chamado metodistas deixe de existir na Europa ou na América. Somente receio que eles existam como uma seita morta, tendo a forma de religião, mas não o poder dela; e isto certamente será o caso se não conservarem a doutrina, a disciplina e o espírito com que iniciaram a jornada”.
John Wesley

A guinada reacionária que a Igreja Metodista vem sofrendo ao largo nas últimas duas décadas por causa da forte concorrência praticada no mercado dos bens religiosos imposta pelo avanço do neo-pentecostalismo e do gospel marqueteiro, é uma tentativa desesperada de se evitar o pior: a débâcle institucional do metodismo brasileiro. Digo institucional porque programaticamente temos deixado de ser metodistas de forma gradual ao longo de nossa história de mais de duzentos e cinqüenta anos. Historicamente este não foi um problema criado por nós, pois foi importado junto com os missionários.

Na Grã-Bretanha o metodismo primitivo foi uma resposta religiosa aos primórdios da revolução industrial, ao surgimento e crescimento dos centros urbanos, à formação do proletariado. Nas colônias da América do Norte se viveu uma conjuntura completamente diferente pois a colonização redundou na formação de uma sociedade praticamente rural e agrária formada por sitiantes pequenos e independentes. Em conseqüência os metodistas norte-americanos abandonaram num curto período de tempo o ensino e a pratica da santidade de coração e vida promovida pelo movimento wesleyano no interior de uma igreja estabelecida – Church of England (Igreja da Inglaterra). Ao invés de um movimento de renovação houve a formação de uma instituição denominacional – The Methodist Episcopal Church (Igreja Metodista Episcopal). Houve também ao mesmo tempo a substituição progressiva da co-responsabilidade no crescimento gradual em santidade promovida nas classes metodistas pela introversão intimista e exacerbada das conversões instantâneas promovidas pelos “camp-meetings”, o carro-chefe dos “American Revivals” . De fato o que ocorreu foi a apostasia individualista que tomou conta não somente do metodismo mas de todo o espectro religioso norte-americano. Tal apostasia transformou numa religião introvertida a religião social tão cara a Wesley, que proclamara “O evangelho de Cristo não conhece religião, que não seja religião social; não conhece santidade, que não seja santidade social”, religião e santidade sociais que encontraram sua maior expressão nas classes metodistas do metodismo primitivo.

O metodismo que recebemos no Brasil na última quadra do século dezenove já exacerbadamente individualista foi o resultado desse processo de acomodação do metodismo à sociedade de consumo norte-americana, consolidada vitoriosamente ao longo de todo aquele século. Basta ver a forma como nos Estados Unidos a escravidão deixou de ser uma questão soteriológica inerente à espiritualidade wesleyana, nos termos intransigentes de Wesley e Cooke, passou a ser considerada uma questão política pelo metodismo oficial e majoritário americano, portanto, sujeita às barganhas e conchavos de grupos, quer fossem escravagistas ou abolicionistas. Essa foi a prova mais evidente que o metodismo de Asbury e Jesse Lee, ao contrário do de Wesley e Cooke, no dizer feliz de um estudioso do metodismo norte-americano, resolveu ser uma igreja grande ao invés de ser uma grande igreja. Por isso, desde então, o nosso metodismo ter renunciado na prática ao compromisso proposto por Wesley de “Reformar a nação, de maneira particular a igreja, e espalhar a santidade bíblica sobre a terra”.

É freqüentemente afirmado que atual crise do metodismo brasileiro tem a ver com a chamada crise de identidade do metodismo. Mas em termos de crise de identidade confessional não estamos sozinhos. Esta é uma tensão que as demais igrejas, inclusive a católica com o crescimento avassalador de sua renovação carismática, e mesmo as pentecostais clássicas, como a Assembléia de Deus, não estão sabendo responder e acabam indo a reboque das incessantes novidades do mercado de bens religiosos. Aí diante da concorrência agressiva do neopentecostalismo, querendo salvar a instituição igreja, se deixam levar pelo que mercadologicamente dá certo – se o marketing religioso funciona então é bom e certo. O resultado dessa obsessão conservadora com o fortalecimento institucional e mercadológico é sua fixação com o crescimento numérico a qualquer custo. Creio que não há forma mais hedionda de mundanização da Igreja do que esta de se render o projeto missionário da Igreja ao deus mercado, voltando-se idolatricamente as costas a JAVÉ. Isto sim é que é IDOLATRIA!

Diante do crescimento exponencial de outras igrejas, muitas lideranças metodistas são levadas a assumir discursos e práticas do chamado neopentecostalismo no intento de atingirmos semelhantes índices de crescimento numérico. A afirmação do metodismo histórico é encarada como uma ameaça ou impedimento para o crescimento da Igreja e, pior, como fator de perda de membros de nossas igrejas para igrejas cujas teologias e práticas estão próximas de posicionamentos mais conservadores ou, até mesmo, fundamentalistas. Daí o ataque ao batismo infantil, ao batismo por aspersão (com a crescente prática de rebatismo imersionista, não só de católicos mas até mesmo de metodistas ou outros evangélicos batizados na infância), à santa-ceia para as crianças, ao sacerdócio universal de todos os crentes (o laicato manipulado pela crescente clericalização do pastorado metodista), às propostas do Plano de Vida e Missão da Igreja, ao ecumenismo, à itinerância pastoral, ao pastor cura-de-almas (substituído pelo pastor animador de auditório), ao sistema episcopal, ao genuflexório e ao altar (substituídos na maioria de nossas igrejas pelo palco da sociedade de espetáculo), à hinologia do HE e à hinologia metodista dos anos 80 e 90, à Faculdade de Teologia, às Diretrizes para a Educação Metodista, às pastorais populares junto a grupos sociais empobrecidos e fragilizados, às pastorais escolares, aos grupos societários e suas Federações e Confederações, à Escola Dominical (para uma Igreja de 180.000 membros temos somente 90.000 alunos na ED!), às revistas da Escola Dominical, à Festa de Suzana Wesley, e por aí vai a coisa.... Paralelamente, tem havido em muitas de nossas igrejas crescente introdução de ensino e costumes próprios do movimento neopentecostal. Curiosamente o atual ataque hiper-conservador ao ecumenismo, ao liberalismo e à teologia da libertação não faz nada mais, nada menos, do que, mutatis mutandis, reprisar os mesmos ataques que o movimento “Esquema” no Concílio Geral de 1965 fez ao ecumenismo, ao modernismo e ao comunismo! A história, quando se repete, mais do que farsa, o faz freqüentemente em forma de tragédia...

Creio que concessões doutrinárias e práticas como essas entre os metodistas acabam por nos tornar presas fáceis de práticas como G-12 (com os seus “encontros com Deus”), Louvor, Ato e Danças Proféticas, Igreja com Propósito, e outros, pois não sabemos mais afirmar com clareza e coragem o que nos distingue do neopentecostalismo, e deixar claro por que não podemos aceitar que a agenda de tais movimentos seja adotada acriticamente por um grupo crescente de pastores e pastoras metodistas somente porque produz crescimento numérico da igreja. E digo isto não porque sou contra crescimento numérico mas porque entendo que, como já nos advertiu anos atrás o líder pentecostal argentino Juan Carlos Ortiz em seu livro O Discípulo, freqüentemente a Igreja tende a tomar crescimento numérico como resultado de crescimento espiritual quando na verdade o que está ocorrendo é inchação, que não é sinal de saúde mas de doença grave. Por outro lado, tais concessões teológicas e práticas nos levam a cair na falácia do argumento que não se deve criticar o crescimento numérico das igrejas de tais pastores e pastoras, nas diferentes regiões da Igreja Metodista no Brasil, pois é descrer do “mover de Deus” e crescimento numérico é que enseja a possibilidade de crescimento qualitativo, numa espécie de absurdo silogismo de que é quantidade que produz qualidade, numa inversão do ensino de Jesus de que é a árvore boa que produz bons frutos.

Contudo, creio que há muita gente que não compactua em nada com essa guinada reacionária de nossa igreja. Muitos, tanto entre os chamados conservadores-tradicionais e carismáticos, como entre os chamados progressistas (rótulos para mim considerados como ultrapassados já que não fazem mais sentido diante da gravidade da atual situação da igreja), estão insatisfeitos com os atuais caminhos do metodismo brasileiro. Esta insatisfação não é tanto com o que aconteceu em Aracruz, mas é muito mais com o que vem acontecendo em todos os níveis de nossa denominação, pela forma como entre nós a doutrina e a prática do metodismo histórico vêm se desfigurando ao longo das últimas décadas.

Estou cada vez convencido que para superar tal obsessão institucional e mercadológica temos de reinventar no interior da Igreja Metodista a estratégia de John Wesley de permanecer dentro e fora da igreja, elusivamente como ele o fez. Declarar adesão incondicional á igreja e ao mesmo tempo buscar ser uma comunidade espiritual de resistência intra-eclesial nos termos wesleyanos da constante tensão entre a santidade da vida e a vida de santidade. Reinterpretar para nossos tempos pós-modernos do capitalismo tardio a doutrina wesleyana da santificação não como prática religiosa introvertida, mas de crescimento em amor a Deus e ao próximo inseridos nas experiências do duro cotidiano. Santidade pessoal manifesta na santidade social, numa tensão criativa entre obras de misericórdia e obras de piedade. Santidade pessoal e social como caminho de salvação, pois “se não somos salvos pelas obras, não somos salvos sem as obras”, no dizer de Wesley, citando Santo Agostinho, “Aquele que nos fez sem nós, não nos salvará sem nós”. Santidade interior em termos das motivações mais profundas de nossa existência e santidade exterior no compromisso fiel no uso disciplinado, contínuo e constante dos meios de graça, e no exercício contínuo das obras de amor na solidariedade irrestrita com os pobres e os setores mais vulneráveis de nossa sociedade, o amor incondicional a Deus e ao próximo.

Ao afirmamos o caráter soteriológico da santidade de coração e vida, afirmamos também que a santidade que buscamos é uma santidade ética e a ética que defendemos é uma ética de santidade – santidade da vida e vida de santidade! Com este compromisso resgatamos a força da proposta do Plano de Vida e Missão em seu engajamento na luta em favor da vida e contra todas as forças que produzem a morte.

Em resumo, estou convencido de que devemos esquecer definitivamente o modelo denominacional inserido no mercado dos bens religiosos e reinventar o modelo wesleyano contra-cultura de “ecclesiola in ecclesia”. Continuarmos dentro da igreja comprometidos com sua renovação, mas sem apostarmos na “salvação” da igreja institucional, desafiando a prática eclesiástica vigente através de uma prática eclesial de forte disciplina devocional comunitária e pessoal. Assumirmos nossa própria agenda em termos de santidade de coração e vida – de intensa espiritualidade wesleyana acaboclada (nos moldes de Taizé e Iona, no espírito mas não necessariamente de sua forma). Nos colocarmos a serviço da Igreja sem aceitar participação no seu jogo político. Não nos desgastarmos nas lutas políticas pelo controle dos órgãos burocráticos da Igreja – como concílios, coordenações, comissões, conselhos, etc.. Aceitarmos, sim, participar deles sempre que ofereçam possibilidades para o exercício da lógica da santidade da vida na prática cotidiana e dinâmica das obras de misericórdia e de piedade.

Para tal penso que enfrentar pessoal e comunitariamente duas duras questões colocadas pelos irmãos Wesley aos primeiros metodistas quanto à prática das obras de misericórdia e de piedade:

(1) Como submeter o nosso exacerbado individualismo ao compromisso com a religião social expressa na vida comunitária disciplinada – reinventar a vida disciplinada em comunidade nos termos wesleyanos de co-responsabilidade na caminhada mútua [reinvenção das classes metodistas à luz da experiência das CEBs?];

(2) Como submeter nossas aspirações econômicas pequeno-burguesas ao compromisso com os pobres – reinventar, no contexto do capitalismo consumista, a ética econômica de Wesley de “ganhar tudo o que puder, poupar tudo o que puder, e dar tudo o que puder” (Sermão 50 – “O Uso do Dinheiro”).

Tal reinvenção significará a gente deixar de apostar incondicionalmente na instituição eclesiástica (pois, “deixem os mortos enterrarem os seus mortos”... “não se põe remendo novo em pano velho”... “arrependei-vos e crede no evangelho”), mas sim procurar explorar as brechas institucionais que por ventura ainda existam (“enchei as talhas”... “lançai as redes”... “tirai a pedra”... “das riquezas de origem iníqua fazei amigos...”), e buscar desenvolver práticas eclesiais e missionárias alternativas na adoração, proclamação, testemunho e serviço. A denúncia profética das atuais práticas da religião de mercado entre nós metodistas será respaldada pelo anúncio do Evangelho do Reino mediante o testemunho eclesial missionário não-eclesiástico, no engajamento em projetos missionários concretos, prioritariamente juntos aos setores mais sofridos e vulneráveis de nossa (como, por exemplo, Uma Semana para Jesus da 5ª Região Eclesiástica). Esta será nossa maneira de reinventar o mandato histórico do metodismo de “Reformar a nação, de maneira particular a igreja, e espalhar a santidade bíblica sobre a terra”. Com John Wesley missionariamente declararemos o mundo, e não a igreja, como nossa paróquia, reafirmando assim o espírito católico (ecumênico) do metodismo.

Creio que nós metodistas brasileiros, especialmente as lideranças pastorais e as lideranças leigas altamente clericalizadas, não estamos sabendo dentro de nosso contexto ter a mesma sabedoria espiritual de João Wesley, que percebendo os sinais do tempo, não aceitou ser um mero “entusiasta”, nem também um mero “deísta”, e muito menos um mero “antinominiamo” ou “quietista”. Foi assim que Wesley, com suas possibilidades e limitações, através de uma espiritualidade articulada em termos de santidade de coração e vida, levou a sério as demandas missionárias do povo de seu tempo, particularmente das empobrecidas e incultas massas urbanas na emergente sociedade industrial da Inglaterra, e pode responder aos desafios de sua época.

O avivamento metodista do século XVIII é um bom exemplo de um movimento espiritual que procurou não perder o trem da história. Meu temor é que, como a Igreja da Inglaterra nos dias de Wesley, a instituição metodista brasileira, a nossa amada Igreja Metodista, parece que não sabe mais como fazer isto. Por isso, creio que estamos diante de uma situação tão nova que exige não o tentar restaurar o passado, mais sim afirmar o nosso compromisso com o futuro que está por chegar. Tal compromisso demanda de todos nós o mesmo rigor e compromisso espiritual, intelectual e pastoral que Wesley teve em seus dias. Não se trata mais de querer imitar ou reproduzir Wesley e o seu movimento em nossa época, mas como ele ter uma efetiva espiritualidade que responda aos desafios do mundo de hoje, e, assim descobrirmos novos caminhos que nos capacitem desenvolver uma práxis teológico-pastoral que nos possibilite enfrentar com decisão e destemor a crise espiritual e teológica que vivemos em nossos dias.


“Ecclesia reformata semper reformanda est.”

SOLI DEO GLORIA!
Reflexão apresentada pelo Bispo Paulo Ayres Mattos na abertura do Primeiro Encontro de Metodistas Confessantes

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Renovação do Batismo abre a liturgia do encontro

O Primeiro encontro presencial de Metodistas Confessantes da Tradição Wesleyana, foi marcado por momentos de alegria; aberto e fechado pela liturgia primorosa sob a coordenação do Reverendo Luiz Carlos Ramos e sua equipe litúrgica, que incluiu seu filho de 5 anos, sua graciosa esposa Vasti, Wesley Dourado e Lizéte Espíndola...
O início da liturgia foi carregado da grande emoção ao propiciar a reconfirmação simbólica do batismo, em que leigos/as e clérigos/as juntos/as levaram a fronte de uns/as dos/as (sem nenhuma preocupação hierárquica) a água batismal; que evidenciou, de forma natural e não planejada, o caráter leigo do Movimento Metodista Confessante.









Bombom d+...

Um momento muito “doce” marcou a integração... Um bombom correu a roda dos/as confessantes. As risadas, os abraços calorosos, as surpresas de testemunhos dados de uns/as sobre os/as outros/as tomou a maior parte do momento matinal... Cleber Paradela deu um show a parte contando um fato que lhe ocorreu no metrô. Todos/as riram muitoooo!!!




Com competência bondosa e serenidade desafiadora Jaider Batista e Bispo Paulo Ayres deram um show... e foram aplaudidos de pé.

Sob os temas: “Conjuntura da Igreja Metodista: desafios colocados pelas mudanças no campo religioso brasileiro”; por Jaider Batista. E “Como a experiência de Wesley nos ajuda a responder aos desafios atuais”; por Bispo Paulo Ayres, inciaram-se as reflexões inciais do encontro. Brevemente um resumo será disponibilizado...



Grupos se reunem para discutir temas da palestras




Relatores/as apresentam resumos das discussões




Mesa da graça: mugunzá, castanhas de cajú, cocadinhas, suco de uva do Rio grande e uvas de Maringá

No Café da tarde foram saboreadas as delícias regionais, após oração em volta da mesa da graça.



Grupos na parte da tarde debatem os objetivos de atuação do Movimento




Debate das discussões da Tarde




Santa Ceia de encerramento



Hora dos mimos:

No momento de ação de graças a pianista Liséte Espíndola, e demias da equipe de luturgia receberam mimos... Paulo Bessa foi mimado com cocadinhas trazidas de Salvador por Paradela e Karol e Vanessa que organizaram o Café receberam uma rosa. Todos/as receberam bombons. Os mimos foram comprados com oferta de nosso querido Paradela. E delicioso Café foi patrocinado por Paulo Bessa. Houve ainda ofertas voluntárias que será guardada para o próximo encontro que será em breve ...


segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Um punhado de sal

Um punhado de sal

Metodistas confessantes fazem seu primeiro encontro

“Não queremos construir um novo saleiro. Queremos apenas ser sal”. Talvez um dia inteiro de discussões sobre identidade e missão do metodismo no Brasil possam ser resumidos nessa única frase, nascida das reflexões do missionário Derrel Santee. Não é pouca coisa. Nessa frase, o grupo de metodistas reunido na Universidade Metodista de São Paulo, no dia 1 de novembro, destaca o seu desejo de contribuir com o fortalecimento da missão e com a valorização do metodismo brasileiro sem a necessidade de construir novas estruturas eclesiásticas ou disputar cargos nas já existentes. Uma célebre frase de John Wesley foi escolhida para definir o objetivo do grupo que nasceu a partir de uma lista de diálogos da Internet: “Deus nos levantou não para ser uma nova seita, mas para reformar a nação, particularmente a Igreja e para espalhar a Santidade Bíblica por toda a terra”.

Embora o grupo tenha escolhido o nome de “Metodistas Confessantes” – numa referência ao compromisso da Igreja Confessante do teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer – o que caracteriza esse grupo de metodistas é a paixão pela tradição wesleyana. Busca-se a construção de espaços para encontros de leigos(as) e pastores(as) interessados (as) e comprometidos com pontos essenciais da tradição metodista.

Cerca de trinta pessoas vários lugares do país estiveram presentes neste primeiro encontro. Da lista de diálogo virtual já existem mais de 130 associados. E o número de inscritos deve crescer, pois o grupo pretende criar site, fóruns de discussão e novos encontros presenciais.

O grupo pretende se manter não apenas como uma lista de diálogo virtual, a Rede Metodista Confessante – um espaço para reflexões sobre teologia e missão e cultivo da espiritualidade – mas também como um espaço de produção e socialização do conhecimento que capacite e fortaleça as igrejas locais, oferecendo alternativas de recursos teológicos, litúrgicos e didáticos comprometidos com os valores do Reino e com a história do metodismo. Do grupo fazem parte pessoas de várias idades e experiências de vida. São pessoas que sentem que podem e devem contribuir com seus conhecimentos e experiências para a missão.

Viabilizar este objetivo é, agora, o desafio do grupo. Por isso, durante o sábado inteiro muitos temas foram debatidos. Após uma análise da atual conjuntura do protestantismo brasileiro e do metodismo, em particular, o grupo discutiu seus objetivos e formas de atuação na Igreja. Oferecer oficinas de música e liturgia, preparar e disseminar materiais para estudo bíblico, divulgar livros e CDs metodistas, revitalizar o uso do Hinário Evangélico e a produção musical da Igreja são algumas das ações possíveis, no sentido de valorizar a história e o passado do metodismo com vistas ao futuro.

O grupo ainda não definiu como se organizará e como poderá concretizar seus objetivos. Há muito para discutir, definir, executar. Um primeiro passo já foi dado. Se o sal conserva o seu sabor, ele é indispensável. Se o grupo dos Confessantes conseguir se articular, a despeito das dificuldades de agenda e tempo da vida moderna, ele poderá temperar o metodismo brasileiro de boas idéias, criatividade e um compromisso histórico com os valores do Reino.


Suzel Tunes

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Programa do 1 Encontro



08:00 - Café da Manhã comunitário

09:00 – Celebração (início que culminará na celebração eucarística final): acolhida e construção de comunidade. A cargo do Rev. Luiz Carlos Ramos.

09:30 – Introdução geral e recuperação da memória da constituição do grupo: Objetivos do encontro e motivações que levaram ao surgimento do grupo na internet (Fábio Martelozzo, Maria Newnun e Anivaldo Padilha).

09:45 - Reflexões e análises:
“Conjuntura da Igreja Metodista: desafios colocados pelas mudanças no campo religioso brasileiro”. Jaider Batista.

“Como a experiência de Wesley nos ajuda a responder a esses desafios”. Bispo Paulo Ayres.

A sugestão desses temas é motivada pela percepção de que ainda não temos uma compreensão muito clara sobre a crise do protestantismo brasileiro, os fatores que influenciam determinadas práticas religiosas, o que essas praticas representam e a que tipo de necessidades elas respondem. Alem disso, parece também que não há muita clareza ou consenso sobre o que queremos dizer quando nos referimos à ”herança wesleyana”. Um mínimo de clareza sobre esses dois temas é crucial para chegarmos a um consenso sobre alguns princípios e objetivos para o grupo “Metodistas Confessantes”.

11:00 – Intervalo para café

11:20 – Reunião em pequenos grupos. Discussão sobre as duas palestras:
“Como vemos a nossa igrejas, hoje, à luz das duas palestras?” Cada grupo escolherá um/a relator/a para reportar ao plenário, no início da tarde.

13:00-14:15 - Almoço em algum restaurante nas proximidades da Umesp.

14:30-15:15 – Plenária: momento de compartilhar e reagir às reflexões dos pequenos grupos.

15:15 - Reunião em pequenos grupos. Temas para discussão:
Princípios e objetivos do grupo; metodologias; critérios de participação; formas de articulação (coordenação, regionalização etc.). Cada grupo elege um/a relator/a para reportar ao plenário. Essas pessoas se reúnem durante o café para sistematizar as propostas e apresenta-las ao plenário de forma a mais organizada possível.

Este é o momento de pensarmos sobre o que fazer: será que já temos condições de nos considerar um grupo ou movimento? Se nossa resposta for sim, como deveríamos nos organizar? Se a resposta for não ou mais-ou-menos, quais os passos ainda necessários para chegarmos a ser um movimento? Vale a pena nos constituir em movimento? Com que objetivos? Com quem?

16:00 - Intervalo para café e confraternização

16:20 - Plenária: relatório dos grupos e discussão das propostas.
Encaminhamentos para o futuro.

17:30 - Encerramento: celebração eucarística.

18:30 - jantar e despedida.