domingo, 27 de julho de 2008

Identidadade Confessante: A mesa é de Cristo



7. A mesa é de Cristo
Ao orientar os primeiros pregadores e seguidores/as do movimento metodista Wesley escreve: ”De modo algum, porém, queremos nos distinguir dos cristãos reais – qualquer que seja sua denominação – como também daqueles que, sinceramente, buscam aquilo que reconhecem ainda não possuem. 'Pois quem quer que faça a vontade de meu Pai, que está no céu, este é meu irmão e irmã ou mãe'”. (João Wesley, As Marcas de um Metodista; p.8)

Num mundo em que o mapa das guerras e conflitos armados aponta as religiões organizadas como maior fator de ódio entre os povos, o ecumenismo e o diálogo inter-religioso estão entre as mais importantes afirmações de busca da Paz. “Eu não acredito na existência de uma espiritualidade que não seja solidária e que não veja na outra pessoa o reflexo de Cristo.” (Richarlls Martins, Igreja Metodista do Brasil, no artigo O mundo é minha paróquia. In: Juventude: ressuscitadora de Esperança - Caderno de Formação para Missão, p. 27)

Somente a crença equivocada de que somos donos da mesa de Cristo e portanto, mais especiais que os outros, pode explicar nossa intolerância. Por isso Wesley, ao falar das marcas dos metodistas escreve: “... Eu gostaria que toda gente entendesse que eu, e os que me seguem (os Metodistas), veementemente nos recusamos a sermos distinguidos dos outros homens a não ser pelos princípios do Cristianismo – o simples, o velho cristianismo é o que eu ensino, renunciando e detestando a todos os demais sinais que sirvam para a distinção. Qualquer pessoa que seja o que eu proclamo (qualquer que seja a denominação que prefira, pois nomes não mudam a essência das coisas) é um Cristão (...).” (João Wesley, As Marcas de um Metodista; p7.)

O compromisso com o ecumenismo e com o diálogo inter-religioso indica nossa recusa de ser seita; nossa recusa em aceitar que as religiões sejam usadas por líderes políticos/religiosos para fomentar o ódio. Por causa deles, há muita gente no mundo disposta a morrer ou matar em nome de Deus. Por isso, em nosso país devemos estar atentos aos líderes religiosos que pregam e agem contra essas e outras afirmativas para a Paz; como se Deus fosse patrimônio de certos os grupos. Ao falar das Marcas de um metodista Wesley afirmou: “Quanto, porém, a todas as opiniões que não atingem à raiz do cristianismo, nós pensamos e deixamos pensar, pois quaisquer que sejam, certas ou erradas, não são as marcas distintivas de um metodista, como também não o são palavras ou frases de qualquer espécie.” (João Wesley, As Marcas de um Metodista; p.2)

Não é só a Igreja, instituição, que deve perguntar por sua relevância; cada individuo deverá perguntar que legado deixará nesse mundo.

Quando o missionário metodista Stanley Jones e outros cristãos arriscavam suas vidas para seqüestrar mulheres viúvas que seriam mortas na cerimônia fúnebre de seus maridos, conforme a tradição em determinados lugares da Índia, demostraram a importância da “rebeldia”. Não podemos ser reféns da cultura, como não podemos ser reféns de um “Mercado religioso” orientado por conveniências de momento. É conveniente que líderes religiosos aceitem pressões moralistas a favor da homofobia, contra o ecumenismo e o diálogo inter-religioso, contra maçonaria, etc.; quando assim agem, escondem medos pessoais e apequenam-se em seus oportunismos eleitoreiros, cujo desejo primário se evidencia apenas pela manutenção de seus cargos e salários. Procure os/as “Stanleys Jones” da Igreja Metodista brasileira. A presença ou a ausência deles/as é um forte indicativo se estamos, ou não, sendo sal e luz como igreja.

Na mesa que tem Cristo como anfitrião todos são acolhidos com amor, respeito e tolerância. Como discípulos/as somos livres para "não aceitar", mas, tolerância, amor e respeito está além de nossos valores particulares; é peculiar de nossa ética cristã.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Identidadade Confessante: O Espírito Santo sopra onde quer...

8. O Espírito Santo sopra onde quer...

Há outros grupos metodistas, que como nós Confessantes, estão preocupados com a abandono da Identidade Wesleyana. Alguns apontam como evidencia disso a ausência da ordem litúrgica: o louvorzão, (ou karaokê evangélico como brincam os saudosistas) a “pentecostalização” das mensagens e das orações, a forte presença da teologia da prosperidade, a opção pela apresentação do Deus sem graça e a visível manipulação das pessoas através do terror, etc.
Com bom senso, alguns desses grupos têm entendido, como nós Confessantes, que o que se vê nos cultos é resultado da (des)orientação na condução teológica e espiritual da gente honesta que compõem nossas comunidades. Com o discurso gasto que “o culto não é para nós, é para Deus”, vai-se fecundando toda sorte de doutrinas.
Em respeito à fé sincera das comunidades, não nos cabe julgar nem fazer juízo da maneira que cada qual expressa “individualmente” sua espiritualidade. Todavia, devemos reagir com toda firmeza quando uma “forma” vira “modelo” e exigência (velada ou aberta) para todos/as metodistas; e quando pessoas são discriminadas e rotuladas de “frias” e sem o “fogo” do Espírito Santo porque não se enquadram ou não se submetem aos modelos espirituais impostos.
Ao escrever sobre As Marcas de um Metodista Wesley diz: “Nós não prendemos a nossa religião, no seu todo ou em parte, a qualquer modo peculiar de falar ou a qualquer conjunto de expressões extravagantes ou incomuns. Preferimos, antes que quaisquer outras, as palavras mais óbvias e mais simples, para comunicar o que temos a dizer, seja nas ocasiões comuns, seja quando falamos das coisas de Deus.” (As Marcas de um Metodista, p.2)

É oportuno o testemunho de um irmão Confessante da 4ª RE:
“Tenho necessidade dos credos, das antífonas, de muitos hinos, do coral, do café depois do culto. Fico encolhido diante dos abraços forçados pelo dirigente, ou de alguém que resolveu mandar Deus me abençoar com as mãos sobre a minha cabeça. Apavoram-me gritos do pregador, a exaltação do dízimo e das exigências financeiras para vaidade e não para o cuidado do próximo. Falta a referência nas Sagradas Escrituras como medida para a vida; sobra receituário de auto-ajuda no sermão. Sofrido é agüentar as duas horas de louvor, a desvalorização do estudo bíblico e da escola dominical, da visitação e de tudo que lembre a disciplina evangélica.”

Encerramos esse documento com o clamor de Wesley que revela seu esforço para que o Movimento Metodista não se tornasse uma seita; um de seus grandes temores.

“ E assim vos rogo, meus irmãos, pelas misericórdias de Deus, que não sejais divididos entre vós. É o teu coração reto para comigo, assim como o meu o é para contigo? Eu nada mais pergunto. Se assim o for, dá-me a tua mão. Não destruamos a obra de Deus por causa de simples termos e opiniões. Tu serves e amas a Deus? Isto é o bastante. Estendo-te a minha mão direita em sinal de comunhão. Se há qualquer consolação em Cristo, se há qualquer conforto no amor, se há comunhão no Espírito, lutemos juntos pela fé evangélica, andando de maneira digna da vocação a que fomos chamados, com toda humildade e mansidão, assim também com longanimidade. Suportemo-nos uns aos outros em amor e esforcemo-nos para manter a unidade do Espírito, no veículo da paz, lembrando sempre que há um só corpo como também um só espírito, pois nossa vocação está em apenas uma esperança: um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que está sobre todos, age por meio de todos e está em todos ”. (As Marcas de um Metodista, p.8)

É sempre bom lembrar: Wesley nasceu e morreu Anglicano.

O Movimento Metodista Confessante Confessante é uma Rede de amigos e amigas, jovens e adultos com o objetivo de:

Consolidar idéias e ideais e, através destes Avançar nos propósitos de integração e união entre as Regiões Eclesiásticas; e Agir para a valorização da identidade Metodista.

Junte-se a nós. Crie seu grupo de estudo: Um clube Santo ou quem sabe, um Caminho da Graça, onde pelo menos uma vez por mês você e seus amigos/as se reúnam para comunhão e conhecimento de nossas raízes.

“Perseverai na oração, velando nela com ações de graça. Orai também juntamente por nós, para que Deus nos abra a porta da palavra, a fim de falarmos do mistério de Cristo, pelo qual estou preso. Orai para que o manifeste como devo fazer. Andai em sabedoria para com os que estão de fora, aproveitando bem cada oportunidade. A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para que saibais como deveis responder a cada um.” Colossenses 4. 2-6:

Graça e Paz,
Rede Metodista Confessante
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Para aprofundar os estudos desse documento Consulte:
BARBOSA, José Carlos. Ele é Pastor Metodista e Coordenador do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Metodismo e Educação (CEPEME) IEP/UNIMEP. O texto citado aqui é parte de um trabalho sobre eclesiologia, apresentado no Concílio Regional da 5ª. RE, realizado em novembro de 2005.
BONHOEFFER, Dietrich. Discipulado.[Nachfolge]. 2a. ed. Trad. Ilson Kayser. São Leopoldo: Sinodal, 1984.
REILY, Ducan. In Revista Em Marcha: História da Igreja. Lições nº . 15, 16 e 17 . São Paulo: Imprensa Metodista,1988 - Disponível em http://www.metodistaecumenico.blogspot.com/ - dia 25/03/08).
MESTERS, Carlos. Flor sem defesa: uma explicação da Bíblia a partir do povo. 4a. ed. Petrópolis: vozes, 1991.
Juventude: ressussitadora de Esperança: Caderno de Formação para Missão. Tradução e Edição Rosângela Soares de Oliveira. Nova Iorque:Junta de Ministérios Globais da Igreja Metodista Unida, 2006 (Resultado da participação de jovens Metodista no Fórum Social Mundial em 2005).
WESLEY. João. As marcas de um metodista. Disponível em: http://www.metodistavilaisabel.org.br/docs/As_marcas_de_um_Metodista.pdf

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Perigo da religiosidade
Leia o texto de Mateus 23.1-3

É perigoso ser religioso – quanto mais religioso, mais perigo corre. A religião ensina amor e humildade. Amar os outros como a si mesmo e ser humilde são ideais muito bonitos. Praticá-los é outra coisa… Falar de amor e humildade e vivê-los são coisas distintas. Quanto mais discurso, menos prática. O amor e a humildade são silenciosos – não falam de si mesmos e não chamam atenção.

Quando a prática da religião é muito visível, pode desconfiar! É pior ainda quando a santidade se organiza. Uma vez estabelecido um sistema oficial de valores e criada uma estrutura política/social para promovê-los, abrem-se as portas para a hipocrisia e incoerência. Foi dentro deste contexto que Jesus agia nos seus confrontos com as autoridades religiosas. Jesus apoiou os ensinamentos dos fariseus. Criticou-lhes pela falta de prática. Ensinavam uma coisa, mas agiam ao contrário, transformando fé em fardo e farsa. O ser humano é o mesmo desde o início e esta disparidade entre a profissão e a prática está muito presente no Judaísmo, Cristianismo e Islamismo atual. Apesar da beleza do conceito do amor e da humildade, a igreja é “palco perfeito” para hipocrisia e incoerência, tanto individual como coletiva.

No nível individual, o ideal do bem faz que as aparências sejam importantes. É natural a pessoa querer “auto-imagem boa e ser bem-vista”. Isto faz com que a sua religiosidade se torne pública e bem visível. Reuniões servem de palco para mostrar boas qualidades espirituais, reforçando seu auto-conceito e reputação. Admitir carências e derrotas seria prejudicial à auto-imagem e ao que os outros podem pensar a seu respeito. O comportamento junto com os outros crentes é diferente do que em ambientes seculares. Até muda o tom da voz quando faz oração nos cultos. A vida religiosa e secular é compartimentada, vive-se de um jeito na igreja e de outro no lar, emprego e lazer. Na igreja pode ser manso e simpático, mas no lar, é agressivo e chato. A religiosidade pode ser apenas uma máscara para esconder carências.

No coletivo, as hierarquias eclesiásticas alimentam orgulho. Quanto mais alto sobe na escada hierárquica, mais prestígio. Por ocuparem posições elevadas os líderes podem ter a sensação de serem superiores. A humildade pode ser transformada em máscara para esconder o orgulho. Os líderes se esforçam para se manter na liderança e subir ainda mais. Para manter a sua posição, as autoridades precisam preservar o sistema e promover a instituição. Os adeptos se tornam manipulados para a manutenção da máquina. A maior parte dos dízimos cobrados é usada para o bem da estrutura e não do ser humano.

Jesus exalta o serviço humilde, sem pretensões, sem visar cargos e prestígio humano, serviço que alivia os fardos

Derrel Homer Santee é pastor missionário metodista aposentado. Acesso o Blog do autor http://sementesbiblicas.blogspot.com/ Para comentar ou ler outros artigos acesse: http://br.groups.yahoo.com/group/LittleThinks/

domingo, 13 de julho de 2008



Amig@s Confessante, a Universidade Metodista de São Paulo realizará de 27 a 31 de outubro de 2008, em evento conjunto, duas de suas tradicionais Semanas de Estudos: a Semana de Estudos Teológicos da FaTeo e a Semana de Estudos de Religião do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião. Na ocasião, o preletor principal será o destacado teólogo alemão Jürgen Moltmann.

Veja detalhes no link http://www.metodista.br/fateo/noticias/jurgen-moltmann-em-dialogo-no-brasil

As Semanas de Estudos costumam ser também oportunidade de encontro. Como um encontro presencial já tem sido solicitado; sugerimos que o Primeiro Encontro “presencial” d@s Confessantes aconteça nessa data. Há apoio para essa proposta? Que se vote!

Abraços e desejos de Paz,

Equipe de Moderação da Rede Metodista Confessante

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Credo de um Convertido

Credo de um convertido


Não creio em um Deus absolutista em sua existência e que se manifesta exclusivamente a pequenos grupos. Creio no Deus Trino e que se relaciona com todo ser humano.

Não creio em um Jesus Cristo burguês e passivo diante do sofrimento de inocentes. Creio em Jesus que luta pela justiça, denuncia a corrupção e promove a unidade.

Não creio em um Espírito Santo manipulador, proselitista e exclusivista. Creio no Espírito Vivificador, doador da Vida e que sopra onde e em quem Ele quer.

Não creio em uma igreja alienada em sua responsabilidade social. Creio na Igreja comprometida com a sociedade onde está inserida e que é instrumento transformador de uma realidade opressora promovida pelo sistema capitalista.

Não creio em um lugar de eterno tormento, chamado por “Inferno”. Creio simplesmente, em um Deus de Amor e Justiça.

Não creio em “paraíso” celestial. Creio em restauração e implantação do Reino de Deus no mundo criado e amado por Ele.

Não creio em uma evangelização que pregue uma salvação individualista. Creio na mensagem do Reino de Deus de salvação comunitária, abrangente e universal.

Não creio em estruturas eclesiásticas que utilizam seus recursos financeiros para agradar alguns com luxo e mordomia. Creio na verdadeira “Comunidade a Serviço do Povo”.

Não creio em avivamentos hipócritas e cegos para o mundo em que vivemos. Creio no avivamento que traz a compaixão aos oprimidos, a misericórdia para os sofredores e a compreensão do dever de promoção do Reino de Deus em sua totalidade.

Não creio em teologias progressistas que incentivam a prática do vício e vazias em conteúdos bíblicos. Creio em uma teologia que promova a vida e que abra novas perspectivas para o relacionamento com Deus, com o próximo e com toda criação.

Assim não creio e assim creio, até que a utopia se torne realidade, até que os muros caiam e que não sejam re-construídos, até que nossas verdades dêem lugar a Verdade de Deus.
Amém!

Rev.Antonio Carlos S. dos Santos (Altamira-Pa)

sábado, 31 de maio de 2008

Teologia existencial





Por Ricardo Gondim*

Minha nova teologia não se restringe em preparar gente para ir para o céu, quero aprender experimentar, aqui e agora, a vida em abundância que Jesus prometeu.
Por anos, não me dei conta de que agi como um religioso obstinado. Hoje, lamento ter sido um inquisitorial que defendeu a “verdadeira doutrina”; renego ter me sentado na cadeira do fariseu intolerante que espezinhou pessoas simples; choro porque já calei diante de desmandos de gente “famosa” só para continuar bem quisto; tenho vergonha de já ter envernizado minha fala para angariar simpatias de um clero que hoje desdenho.
Para surpresa dos fundamentalistas, mas para alegria dos meus familiares, mudei bastante nos últimos anos. Adianto: não estou nem um tiquinho preocupado em ser bem falado pelos puritanos que tentam ressuscitar a ética vitoriana; não perderei meu sono com os que se escandalizam com meus textos pessimistas. Aliás, aconselho os piedosos que não visitem mais meu site, pois vou continuar escrevendo textos bem sombrios.
Amiga leitora, você não imagina como eu ri quando recebi mensagens eletrônicas de crentes escandalizados com meu arrebatamento profano. Lembra aquela noite quando me deliciei com a cananéia Mercedes Sosa?, foi aquele.
Minha nova teologia não é nova e nem é minha. Ela vem sendo vivenciada por teólogos latino-americanos que se distanciaram do cânon oficial – gente da estirpe de Juan Luis Segundo, Gustavo Gutierrez, René Padilla, Orlando Costas, Leonardo Boff e Jung Mo Sung.
As coisas degringolaram de vez quando me apresentaram Brian McLaren, Rob Bell e os malucos da “Emergent Church”. Realmente, não consigo gostar dos livros do Max Lucado e se não me sinto tentado a organizar minha igreja com os “propósitos” do Rick Warren.
Minha nova teologia carrega o anseio da liberdade. Aceito que sou um romântico desvairado sempre empolgado com essa palavra tão complicada. Eis o motivo porque concordo com Karl Rahner que “a liberdade é sempre mediada pela realidade concreta do espaço e tempo, pela corporalidade e pela história do homem”[1].Assino em baixo com Jürgen Moltmann quando ele diz que “liberdade é um movimento criador". Vibro quando ele afirma que: “Aquele que em pensamentos, palavras e ações transcende o presente em direção ao futuro, este é que é livre. O futuro é para ser entendido como o espaço livre para liberdade criadora”[2]
Não tenho como negar meu apreço por Paul Tillich e por seu conceito de liberdade como fundante do destino – “A liberdade é experimentada como deliberação, decisão e responsabilidade…
Á luz dessa análise de liberdade, torna-se compreensível o sentido de destino”[3]. Gosto das articulações de Jonathan Sacks quando ele afirma que o conceito de liberdade forma o alicerce do vínculo pactual entre Deus e o homem:
O conceito de um vínculo pactual entre Deus e o homem é revolucionário e não tem paralelo em nenhum outro sistema de pensamento. Para os antigos, o homem estava à mercê de forças impessoais que tinham que ser aplacadas...; no humanismo secular, o homem está sozinho num universo cego às suas esperanças e surdo às suas preces. Todas estas visões são coerentes, e cada uma tem seus adeptos. Mas somente no judaísmo encontramos a asserção de que, apesar da sua completa disparidade, Deus e o homem se encontram como “parceiros no trabalho da Criação”. Não conheço nenhuma outra visão que confira ao ser humano tamanha dignidade e responsabilidade “[4].
Minha nova teologia tem como ponto de partida não a teoria, mas a vida com suas ambigüidades e paradoxos. Não parto de premissas teóricas do arrazoamento “científico” da verdade; não me encanto com devaneios conceituais do mundo do "andar de cima"; quero trabalhar com a revelação da história onde ponho os meus pés. Quero perceber o amor de Deus no decorrer da vida com tudo o que ela apresenta de bom e de ruim.
Não pretendo interpretar o mundo, só quero modificá-lo para que nele se antecipe o Reino de Deus. Faço minhas as palavras de Moltmann em sua análise da Teologia da Libertação:“Ao contrário das teologias metafísicas, trancendentalistas ou personalistas, a Teologia da Libertação começa com a história como palco da manifestação de Deus e do encontro do homem com Deus. Com isto ela se liga às tradições bíblicas da história de Israel e da história de Cristo... “[5]. Nesse chão hermenêutico faço minha nova teologia, procurando criar práxis que desmonte estruturas injustas, opressoras e alienantes. Sem desmerecer a ortodoxia, procuro muito mais realizar ações transformadoras da realidade, do que tentar vingar minha exatidão conceitual – “Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros” João 13.35.
Minha nova teologia é a antiga “teologia da esperança”. Acho que foi por isso que vibrei tanto com Carlos Mesters quando me ensinou que o relacionamento de Deus com seu povo é um apelo ao dinamismo e não à resignação: A presença de Deus na vida era percebida [no relato bíblico], antes de tudo, como apelo, como dinamismo, como futuro, que atraía e chamava o povo a ultrapassar-se, não permitindo que se acomodasse na estrada. A frase tantas vezes repetida: “Eu serei o vosso Deus e vós sereis o meu povo (Ex 6.7), fazia saber que o relacionamento com Deus no presente era apenas uma amostra-grátis daquilo que ele seria no futuro.
A outra frase, igualmente freqüente despertava o povo a nunca contentar-se com o que já possuía, e a aprofundar onde estava escondido o germe de toda liberdade.Com outras palavras, a presença de Deus era percebida e vivida como o fundamento da esperança que os animava e os fazia caminhar. Ela era uma força que dinamizava a vida para a frente, levando o povo a conquistar-se e a conquistar o futuro que ele entrevia no contacto com esse Deus[6].
Minha nova teologia não se restringe em preparar gente para ir para o céu, quero aprender experimentar, aqui e agora, a vida em abundância que Jesus prometeu.
Por fim, acho que minha nova teologia tem uma pitada de existencialismo – não sei se Kierkegaard gostaria de saber disso - porque acredito que o Reino de Deus já está entre nós; peço que Ele me dê olhos para ver, ouvidos para ouvir e coração para sentir esta realidade
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Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Paulo. É autor de, entre outros, Orgulho de Ser Evangélico.Para ler mais acesse os arquivos do link: http://br.groups.yahoo.com/group/LittleThinks/

quinta-feira, 15 de maio de 2008

OVELHAS, PASTORES E A COLHEITA

Por Derrel Homer Santee*

Quando Jesus viu a multidão,
ficou com muita pena daquela gente
porque eles estavam aflitos e abandonados,
como ovelhas sem pastor.
Então disse aos discípulos
-A colheita é grande mesmo,
mas os trabalhadores são poucos.
Mateus 9.36-37 (leia 9.35-10.8) - BLH

586 anos antes de Cristo o Profeta Ezequiel declarou: “Vocês, autoridades, são os pastores de Israel. Ai de vocês, pois cuidam de vocês mesmos, mas nunca tomam conta do rebanho!” (34.2) e “Por não terem pastor, as minhas ovelhas foram atacadas, mortas e devoradas por animais ferozes. Os meus pastores não foram procurá-las. Eles estavam cuidando de si mesmos e não das ovelhas.” (8) Isaías acrescenta: “Os pastores do meu rebanho não entendem nada; todos seguem os seus próprios caminhos e procuram os seus próprios interesses.” (56.11) Os profetas descreviam o povo como abandonado e explorado pelas lideranças, usando a figura do “pastor”. Isto causava sofrimento e desespero. Havia necessidade de esperança. Ezequiel trouxe junto com a denúncia uma mensagem de esperança: “Livrarei as minhas ovelhas do poder de vocês para que vocês não possam devorá-las.”

Com Jesus a história se repete. Ele “ficou com muita pena daquela gente porque eles estavam aflitos e abandonados, como ovelhas sem pastor”. O povo estava lançado a sua própria sorte e sujeito a negligência e abuso pelos seus governantes e outras autoridades (pastores). Havia injustiça, carência que resultava em “todo tipo de enfermidades”. Igual aos profetas, Jesus trouxe uma esperança. Com palavras e gestos concretos, Ele enfrentava os males que afligiam o seu povo.

No capítulo 10, Mateus relata as medidas específicas que Jesus tomou para enfrentar o desafio de “ovelhas sem pastor”. Escolheu discípulos e os enviou como “ovelhas entre lobos” para uma tarefa árdua contra a maldade dos poderes dominantes. Foram mandados, sem proteção e sem recursos, a percorrer as aldeias e ir até onde o povo estava. Jesus não escondeu o preço que eles teriam que pagar para cumprir a missão: perseguição dos inimigos, traição dos próprios irmãos e a entrega à morte.

Hoje, o povo continua a ser “ovelhas sem pastor”, abandonado pelas autoridades. A corrupção, criminalidade e exploração econômica fazem vítimas da grande multidão. O resultado é o sucateamento do sistema educacional, da saúde e da segurança. A violência e a banalização da vida estão se tornando “norma”.

O desafio nunca foi tão grande. “A colheita é grande mesmo, mas os trabalhadores são poucos”. Esquecemos o contexto desta frase. Dentro do contexto a colheita representa a missão de lutar pela justiça do Reino no meio do povo. Para nós, a colheita ganhou outro sentido, ganhar adeptos e fazer igrejas que procuram se afastar do mundo injusto e cruel. Achamos que Deus é glorificado com cânticos de louvor e uma religiosidade intensa e festiva. Confundimos grandes concentrações e entusiasmo com o Reino.

Nós, os discípulos modernos, evitamos confrontar o mal no mundo onde ele opera. Fazemos tudo para não sermos odiados e perseguidos. Procuramos ser ovelhas entre ovelhas. Ficar entre lobos é pecado. Não representamos uma ameaça para ninguém. Os lobos nos aprovam porque praticamos a nossa religião na segurança dos templos e os deixamos livres para praticar o mal e cuidar de si às custas de todos. “A colheita é grande mesmo, mas……….”
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* Derrel Homer Santee é pastor e Missionário aposentado. Para ler outros artigos acesse o Blog do Autor:http://sementesbiblicas.blogspot.com

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Uma fé em transformação: Entrevista com Magali Nascimento Cunha



Pesquisadora metodista diz que o movimento gospel está mudando o modo de ser evangélico.

Desde que o movimento pentecostal brasileiro tornou-se fenômeno de massa, no último quarto do século 20, especialistas das mais diversas áreas têm se debruçado sobre a Igreja Evangélica com lupas de pesquisador. O espantoso crescimento do segmento, que pulou de um traço estatístico para a posição de segundo maior grupo religioso do país, tem sido discutido e explicado de muitas maneiras – quase todas, diga-se de passagem, incompletas ou mesmo parciais. Por isso, trabalhos como o da professora Magali do Nascimento Cunha ganham relevância. Jornalista, doutora em Ciências de Comunicação e mestre em Memória Social e Documento, ela é docente em diversos cursos da Faculdade de Teologia da Igreja Metodista da Universidade Metodista de São Paulo e atua ainda como palestrante e conferencista. Mas observa o cenário evangélico nacional com ainda mais conhecimento de causa, já que é membro da Igreja Metodista do Brasil e do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Ninguém pense, contudo, que Magali faz algum tipo de concessão ao corporativismo. Ao contrário – a pesquisadora não poupa as críticas que julga necessárias à Igreja contemporânea. No seu mais recente livro, A explosão gospel – Um olhar das ciências humanas sobre o cenário evangélico no Brasil (Mauad Editora), Magali constrói uma tese segundo a qual esse movimento chamado gospel fundamenta-se não apenas na lógica do mercado, mas também numa série de novos comportamentos e maneiras de enxergar e praticar o Evangelho. “Vivemos o surgimento de uma cultura religiosa nova”, afirma a professora. Segundo ela, a explosão gospel criou tantas demandas que afetou até mesmo a teologia cristã deste século 21. Entender este multifacetado universo de fé e todos os seus desdobramentos talvez seja tarefa para gerações. Mas nesta entrevista, Magali Cunha aponta alguns caminhos.


CRISTIANISMO HOJE – Como a senhora define a cultura gospel?

MAGALI DO NASCIMENTO CUNHA – Vivemos o surgimento de uma cultura religiosa nova, um jeito de ser diferente daquele construído pelos evangélicos brasileiros ao longo de sua história. Novos elementos foram adicionados como resposta ao tempo presente, que é fortemente marcado pelas culturas da mídia e do mercado, e pelo crescimento de novos movimentos evangélicos, principalmente o pentecostalismo. O movimento musical chamado gospel resultou deste processo sócio-religioso e abriu caminho para outras expressões. Isso quer dizer que testemunhamos uma ampliação, sem precedentes, do mercado religioso e de formas religiosas mercadológicas. Há também uma relativização da negação do mundo, tão cara aos evangélicos brasileiros – o corpo é valorizado, assim como a diversão. Com isso, temos uma nova cultura experimentada, um novo modo de ser evangélico: privilégio à expressão musical, envolvimento no mercado e espaço para o lazer e o entretenimento.


O termo “gospel” não é abrangente demais para abrigar tantos elementos e manifestações? Na verdade, podemos dizer que as diferenças que existem entre os grupos evangélicos estão bastante “sufocadas” por essa forma cultural. Uso o termo “gospel” para definir esse modo de vida porque ele emerge do fenômeno que ganhou corpo nos anos 90 – o movimento musical que detonou um processo e configurou algo muito maior. Surgiu uma forma cultural, um modo de vida gospel. Ele não é uma expressão organizada, delimitada; mas resulta do cruzamento de discursos, atitudes e comportamentos entre si e com a realidade sociopolítica e histórica.

Mas existem traços comuns entre todas essas manifestações?

Há, principalmente, três elementos. Em primeiro lugar, a busca de modernidade e inserção dos evangélicos na lógica social da tecnologia, da mídia, do mercado e da política. Numa segunda perspectiva, tivemos as transformações na forma de cultuar e na ética de costumes de um significativo número de igrejas. Veja que atualmente não é mais possível identificar o que é um culto batista, ou um culto metodista, ou um culto presbiteriano. Identificamos, em nossas pesquisas, uma só forma de cultuar com as mesmas características. E, em terceiro lugar, um discurso comum que privilegia temas como “vitória” e “poder”, com ênfase no aqui e agora, bem diferente da tradição evangélica, cuja pregação privilegiava temas como o céu e a segunda vinda de Cristo como compensação pelos sofrimentos do presente. Essa produção de cultura alcançou uma amplitude que perpassa, senão todas, a grande maioria das igrejas e denominações evangélicas brasileiras.

O louvor tem importância cada vez maior nos cultos. Por que as igrejas têm dado tanto valor à música?

Quem é Deus e quem é Jesus na maioria das canções? A maior parte das composições traz imagens da teofania monárquica do Antigo Testamento. Assim, Deus e Jesus são intensamente relacionados a imagens de reinado, majestade, glória, domínio e poder. Nesta linha, ganha novo sentido a figura dos levitas, que passam a ser destacados e traduzidos na contemporaneidade como “os ministros de louvor”, terminologia assumida nas igrejas. Disso resulta também o estabelecimento de uma hierarquia de ministérios. Há maior destaque aos levitas, e isso pode ser observado no lugar que ocupam no culto. Quem toca e canta é considerado ministro; já quem realiza outras atividades de serviço raramente é apresentado e destacado dessa maneira.

Essa nova cultura gospel tem espaço para a ética cristã?

Vivemos hoje uma forte crise de ética cristã quando privilegiamos um modo de ser baseado no “eu” e na experiência. Isso é totalmente incompatível com o Evangelho. E a coisa se agrava quando aprendemos que ser cristão é consumir bens e serviços religiosos e divertir-se não como mera assimilação da cultura do mercado, mas como expressão religiosa. Quer dizer, a cultura gospel permitiu aos evangélicos brasileiros a inserção de elementos profanos na forma de viver sua fé e de relacionar-se com o sagrado.


Em seu livro Explosão gospel, a senhora diz que o fenômeno mercadológico mudou o jeito de ser evangélico no país. Afinal, o que mudou?


Mercado religioso não é novidade. A oferta de produtos relacionados à religião e à fé sempre existiu. O que ocorre hoje é que o mundo vive um momento em que o mercado é o centro da vida socioeconômica, determina políticas e relações. E esse momento tem reflexos no cristianismo quando, por exemplo, experimentamos um crescimento sem precedentes do mercado religioso e os cristãos se tornam segmento de mercado.

Qual o efeito disso sobre a teologia evangélica?

Observamos hoje o surgimento de teologias que resultam deste predomínio da lógica do mercado na cultura dos povos. A teologia da prosperidade, que apregoa o sucesso material, especialmente o financeiro, como resultado da bênção de Deus, é fruto disso. A confissão positiva, do “eu que tudo pode” – então, a bênção passa a ser resultado do esforço pessoal –, e a noção da guerra espiritual, que combate as forças espirituais malignas que prejudicam o homem, também. Mas não é só isso. Existe a idéia de que, ao comprar um produto de orientação cristã, o crente não está só adquirindo um bem, mas chegando mais perto de Deus. Ou seja, o caráter sagrado atribuído aos produtos cristãos os tornam uma espécie de mediadores entre Deus e o consumidor. Por isso, as pessoas compram adesivos para que seu carro seja protegido do mal ou adquirem camisetas que vão guardá-las de infortúnios. Isso sem falar em gente que compra um CD daquele cantor “abençoado”, acreditando que ouvir as músicas pode até proporcionar uma cura.

O individualismo é uma marca do cristianismo contemporâneo?

Ocorre hoje uma exacerbação desse individualismo porque a cultura do mercado que predomina entre os povos bebe dessa fonte, o que se reflete na religiosidade evangélica. Por isso, as canções nunca trouxerem tanto o predomínio do “eu”, do gozo espiritual intimista; ao mesmo tempo, muito pouco ou quase nada se fala do valor do outro, do serviço, da partilha e da mutualidade.

O surgimento das chamadas comunidades evangélicas, cujo apogeu ocorreu nos anos 1980, foi determinante para o surgimento da cultura gospel?

As igrejas alternativas surgem como uma reação ao protestantismo tradicional e ao seu comportamento restritivo. Por isso eram, e ainda são, majoritariamente jovens e modernas. Esse fenômeno contribuiu, sim, para a formação da cultura gospel, mas não podemos dizer que é responsável. Foi um elemento a mais. Mas vale dizer que este vanguardismo das igrejas alternativas nunca abdicou dos elementos básicos da cultura evangélica no Brasil – apenas deu-lhes nova roupagem.

Hoje, é comum as igrejas copiarem modelos eclesiásticos considerados de sucesso, sobretudo os grandes ministérios liderados por dirigentes carismáticos. Qual o papel da mídia nisso?

A cultura da mídia, que é um elemento forte nas sociedades contemporâneas, promove uma padronização de discursos e práticas. Temos um padrão para cantar, para se comportar, para falar de Deus e da Bíblia. Isso porque as grandes igrejas e os grupos mais expressivos, com suas respectivas lideranças, conseguem espaço na mídia e viram modelos a serem copiados ou adaptados para a realidade de um sem-número de comunidades.

Qual a crítica que a senhora faz ao uso que os evangélicos têm feito da mídia no Brasil?

A mídia evangélica é extremamente comercial. Ela reproduz a lógica da mídia secular e não faz diferença no meio. É diferente de mídias cristãs de outros países, que produzem documentários, lideram campanhas de cunho social, exibem mensagens bastante criativas relacionadas ao calendário cristão. Ainda não assisti a nenhuma programação desta natureza em nosso país. O programa mais criativo que assisti nos últimos tempos saiu do ar – era o 25ª hora, da Igreja Universal, que debatia temas da conjuntura com especialistas e pessoas cristãs que os relacionavam ao desafio do Evangelho. Os poucos programas de debates nas rádios ou TVs evangélicas de hoje são apenas doutrinadores do grupo que os lidera. O debate já tem conclusão antes de terminar. O tom evangelístico, de buscar a adesão de novos fiéis à proposta evangélica, é coisa do passado na mídia. Os programas não são mais dirigidos aos não-cristãos, mas sim a quem é crente, ligado a qualquer igreja, para receber doutrinação que corresponde ao discurso da cultura gospel e as ofertas dos produtos de quem lidera aquele veículo. A divulgação dos locais de reuniões públicas dos grupos condutores da programação é apenas um apêndice à veiculação massiva de conteúdo musical, já que o mercado fonográfico do segmento é uma força. Os demais aspectos da programação – debates, sessões de oração, estudos e sermões – não têm aquele cunho proselitista clássico, mas é carregado de ênfase doutrinária para conquistar novos espectadores e consumidores para os produtos oferecidos.

A Renovação Carismática Católica assemelha-se ao pentecostalismo pela espontaneidade litúrgica e na ênfase nos dons do Espírito Santo; contudo, é um movimento bastante conservador, por exemplo, na devoção a Maria. A senhora acredita que os pontos de identificação entre os dois grupos podem chegar ao ponto de superação das diferenças teológicas?

Ainda não tenho elementos para falar sobre este fenômeno de maneira mais sistemática, mas esta é uma realidade. O fato é que a Igreja Católica Romana têm perdido membros durante as últimas décadas para o pentecostalismo, assim como as igrejas evangélicas históricas. A Renovação Carismática Católica tem buscado práticas de inspiração pentecostal para preservar sua membresia, atrair de volta os fiéis perdidos e conquistar outros. Marcelo Rossi e os outros padres cantores, assim como a Rede Canção Nova, são fruto desta conjuntura. A liturgia é chave deste processo. Não é possível ainda fazer previsões, mas uma intuição me leva a dizer que não podemos esperar a superação das diferenças. Ao contrário, deve haver um reforço da competição, pois membresia e números são chaves motivadoras de tal processo. O tom da visita de Bento XVI ao Brasil em 2007 deixou isso claro.

A flutuação de membros é fenômeno comum nas igrejas evangélicas deste início de século, ao contrário da valorização do pertencimento que se observava até bem pouco tempo. Quais os motivos que levam a esta infidelidade denominacional?

Vários sociólogos da religião têm estudado este fenômeno e o denominado “trânsito religioso”. Eles indicam que é fruto deste fluxo de modernidade que experimentamos na contemporaneidade – o individualismo, a busca extrema da satisfação pessoal imediata, a valorização do descartável. As pessoas transitam por igrejas em busca da satisfação pessoal imediata. Descartam experiências em busca de outras mais intensas e interessantes, e o descompromisso dá o tom deste processo.

A senhora é membro da Igreja Metodista, denominação fortemente envolvida com o diálogo ecumênico. No Brasil, o ecumenismo é veementemente rechaçado por igrejas de linha pentecostal. Esta rejeição deve ser atribuída ao desconhecimento acerca do movimento ecumênico ou trata-se mesmo de preconceito?

Um dos mais fortes impedimentos para o ecumenismo é a indiferença ecumênica. Há, sim, o anti-ecumenismo, a manifestação contrária de gente que é contra e diz por quê. Mas o que é maior não é a oposição declarada, e sim a indiferença à necessidade da busca de unidade entre os cristãos. Podemos chamar isso de “convivência tranqüila” com as divisões. Entre as razões da rejeição ao ecumenismo, podemos fazer uma pequena lista. Existem, claro, as divergências teológico-doutrinárias que as igrejas enfrentam. Muita gente não sabe o que é ecumenismo, não conhece a sua história – preferem dizer que é “coisa da Igreja Católica”. Há ainda o preconceito, o exclusivismo religioso, o medo do diferente e a crise de identidade. Mas, se sabemos quem somos, temos certeza dos nossos valores e do que dá sentido à nossa fé, como podemos ter medo de sermos influenciados? Então, vou aprender e reter o que é bom.

Qual é a viabilidade do diálogo ecumênico em um universo religioso tão multifacetado como o brasileiro?

O diálogo ecumênico é algo de Deus. Pluralismo religioso sempre existiu e vai continuar existindo. Enquanto as religiões, principalmente as igrejas, não dialogarem e superarem suas divergências, o mundo não vai crer, como disse Jesus. Isso não quer dizer deixar de ser quem é e assumir outro jeito de ser. Diversidade é coisa boa. Deus permite isso porque quer que seja assim. A questão é sabermos lidar com isso e aprendermos. Precisamos que as igrejas dialoguem e cooperem entre si, a partir do que têm em comum, neste mundo tão dividido por natureza. As igrejas não podem ser mais uma fonte de divisão para este mundo esfacelado. O mundo não vai crer enquanto o crescimento evangélico for baseado em competição e divergências.


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Indicação de Leitura: História do Metodismo" por Paul Eugene

História do Metodismo", escrito por Paul Eugene Buyers e publicado pela Imprensa Metodista em 1945 é um dos melhores livros escritos sobre a história do metodismo na Inglaterra, Estados Unidos, Brasil e nos lugares onde a Igreja Metodista estava presente nos séculos XVIII e XIX e início do século XX. Para sermos bons cristãos precisamos conhecer a Palavra de Deus, mas para sermos cristãos metodistas precisamos conhecer nossa história e tomarmos posse dela, pois ela nos ensina a razão de Deus ter levantado os metodistas e da razão de respirarmos missão. Esse livro é uma volta ao tempo, é um ótimo instrumento para quem se importa com identidade, santidade e paixão missionária
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quarta-feira, 7 de maio de 2008

POR UMA TEOLOGIA DO CARÁTER CRISTÃO

*Por Bispo Josué Adam Lazier
Pensamentos e Abstrações
Introduzindo o assunto
Tenho pensado no costume de se colocar adjetivos em alguns conceitos ou entendimentos teológicos. Desta forma, há várias teologias professadas e proferidas nos discursos e nos movimentos eclesiásticos e para-eclesiásticos. Sempre surgem entendimentos ou conceitos teológicos que recebem, em função de suas características, um nome. Cito como exemplo, a teologia da prosperidade, teologia da esperança, teologia da guerra espiritual, teologia de missões, teologia do caminho, e assim por diante. Gostaria de refletir sobre um conceito teológico que se coloca, invariavelmente, quando se considera a vivência cristã num mundo secularizado e marcado por um fundamentalismo religioso extremamente individualizado, ou seja, o conceito de caráter cristão.

Seria possível falar de uma “teologia do caráter cristão”? Seria possível caracterizar esta teologia e teria ela relevância na atual conjuntura e cultura eclesiástica? Para tratar deste assunto se faz necessário colocar algumas questões: Qual evangelho tem sido pregado em nossos dias? Quais são os frutos que acompanham a vida dos que proclamam o evangelho de Cristo? Como vivem os líderes da Igreja? Como a Igreja mede o sucesso de seus líderes? Qual o estilo de vida da liderança? Os líderes são avaliados pela sua fidelidade a Deus e aos compromissos assumidos ou pelos resultados obtidos numa perspectiva do mercado? Quem de fato é referência de vida cristã para os novos cristãos? A Igreja tem sido sal da terra e luz do mundo?

Ao definir caráter e caráter cristão, os bispos e bispa da Igreja Metodista assim se expressaram: “caráter é o conjunto de traços particulares relacionados ao aspecto moral do ser. O caráter cristão é o conjunto das características de que a Bíblia fala e que são inerentes a Jesus Cristo ou ao Espírito Santo e, conseqüentemente, deveriam ser parte da vida daqueles e daquelas que nasceram de novo e têm o Espírito Santo”.[1] Ao fazerem esta consideração esperam que todos os membros da Igreja evidenciem o caráter cristão.
Refletindo sobre os contornos de tal teologia
Gostaria de apresentar alguns contornos na busca por uma teologia do caráter cristão.

1. Uma teologia do caráter cristão deve levar em conta os referenciais bíblicos e teológicos que fundamentam a integridade da pessoa que exerce liderança e que vivencia o Evangelho de Cristo. Estes referências são encontradas nas cartas pastorais endereçadas a Timóteo e a Tito. O apóstolo, ao ensinar seus discípulos, elencou qualidades que devem acompanhar a vida dos líderes. Destaco as seguintes: irrepreensível, temperança, sobriedade, modéstia, hospitalidade, aptidão para ensinar, sem violência, sem contendas, sem avareza, vivência familiar equilibrada, maturidade, bom testemunho, respeitabilidade, sem ganância e sem arrogância, além de outras (I Tm 3.1-13).

2. Uma teologia do caráter deve considerar o referencial teológico e doutrinário deixado por João Wesley, ou seja, a santidade bíblica. Ele definia a santificação como amar a Deus de todo coração e ao próximo como a si mesmo. Considerava o amor como prova suprema da presença de Deus e da Sua Ação na vida do cristão. Portanto, uma santidade que se concretizava em atitudes em relação ao próximo, atitudes de respeitabilidade, dignidade, tolerância, solidariedade, consideração e apoio.
Falar de amor nos dias de hoje é repetir um chavão pejorativo e que tem a ver mais com a própria pessoa. Assim, prefiro falar de caridade que apresenta um apelo que vai em direção aos outros e, desta forma, chega no amor abnegado revelado por Cristo na cruz do Calvário.

3. Uma teologia do caráter cristão deve assinalar a integridade que acompanha a vida de uma pessoa transformada pela Graça de Deus. A Graça de Deus é transformadora, capacitadora e, portanto, forjadora da integridade cristã. Integridade vem do latim integritate e significa qualidade de íntegro; inteireza; retidão; pureza. Já o termo íntegro significa inteiro; completo; perfeito; reto; imparcial; brioso.
Desta forma, a integridade começa com o cuidado que a pessoa tem consigo mesma, com as atitudes que toma, com a vida daqueles que estão próximos e com a vida daqueles que estão ao seu alcance. É a integridade física, moral, ética, relacional, familiar, profissional, social, etc.

4. Uma teologia do caráter cristão tem como contorno a espiritualidade, que não pode ser a estereotipada, a da moda, a que promove o ibope pessoal, a que atrai os holofotes, a que apresenta uma imagem superficial e enganosa da pessoa, a da dominação, do grito, da enganação. A espiritualidade na perspectiva de uma teologia do caráter é aquela que se evidencia através do cuidado pastoral, da alegria em servir a Deus em toda e qualquer circunstância e do discernimento maduro e comprometido com os valores do Reino de Deus.

5. Uma teologia do caráter cristão deve levar conta a dimensão pública. Não há liderança que possa ser desenvolvida sem a perspectiva da coletividade, da comunidade e da sociedade em geral. O que a pessoa é enquanto ser vivente e transformado pela Graça de Deus tem que ter respaldo no público da vida, no enfrentamento das questões contraditórias da vida, no testemunho e na defesa do direito e da justiça. Não é porque a pessoa se apresenta como alguém que tem a Graça e o Espírito de Deus que pode se colocar acima da lei e dos direitos dos outros.

6. Uma teologia do caráter cristão é alimentada na vivencia familiar e doméstica, onde a pessoa se desnuda e é conhecida pelas reações espontâneas e pelo que ela é “por dentro”. A teologia do caráter cristão começa no íntimo das relações familiares e conjugais, considerando que a família é um meio de graça.
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*Por Bispo Josué Adam Lazier é Bispo Emérito da Igreja Metodista no Brasil. Para ver na íntegra esse ensaio visite a Página do autor: http://josue.lazier.blog.uol.com.br/



Pelas costas... fale bem

*Por Maria Newnum

Falar mal pelas costas é uma “tentação” que persegue a humanidade. Os livros sagrados possuem tratados específicos para combater as línguas, consideradas “felinas”.

De qualquer modo, falar bem pelas costas é um dos elementos que distingue pessoas em todas as esferas da sociedade. Por trás desse gesto, independente se equivocado ou não, há sempre uma grandeza, por parte do que profere as boas palavras.


Conta-se que certa feita um general perguntou ao outro o que ele achava do capitão mor. Ele respondeu: - “Me parece um homem íntegro e gentil”. - “Como você pode dizer isso? Ele anda te difamando aos quatro ventos!” Replicou o outro. - “Ora, você perguntou o que eu pensava dele, não o que ele pensava de mim”; Disse sem pestanejar.

Recentemente liguei para minha amiga Lu agradecendo e dando uma pequena “bronca”, pois soube que ela me “pintou” maior do que sou. Certamente você já foi surpreendido com algo semelhante e constatado que as pessoas que falam bem pelas costas costumam exagerar nos adjetivos. Mas lembre-se, as pessoas que falam mal, exageram muito mais. Todavia, invista mais tempo corrigindo as do primeiro caso.


Não resta dúvida, a realidade marcada por corrupções na política, na sociedade e até nas comunidades religiosas, muitas vezes nos impulsiona a investir mais energia e tempo em destacar o que há de pior nas pessoas e a cairmos no terreno feio e deselegante da fofoca. Para fugir disso é preciso usar os meios e as formas corretas para “denunciar” o que precisa ser ventilado aos quatro ventos. O silêncio nem sempre é “ético”, pouco contribui para mudanças e quase sempre, ajuda a proteger indivíduos e os sistemas corruptos da sociedade.
Denunciar é preciso, é correto e revela os caráteres individuais, indispensáveis à uma sociedade carente de vozes “inconformáveis”.

Mas não esqueça: No limbo também se encontra flores e frutos. Procure-os com cuidado, encontre-os e depois faça um “bom” fuxico.

Face-a-face diga o que precisa ser dito, pelas costas, fale bem.

De Fort Wayne – Indiana – USA – Primavera de 2008.
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*Maria Newnum é pedagoga, mestre em teologia prática, participa do Movimento Ecumênico de Maringá é Coordenadora do Café Teológico de Maringá.
Para comentar ou ler outros artigos acesse: http://br.groups.yahoo.com/group/LittleThinks/ e http://br.groups.yahoo.com/group/LittleThinks/

sábado, 3 de maio de 2008

Não Fazemos qualquer Negócio

Por Nilson da Silva Júnior

É mera repetição dizer que vivemos sobre a influência do mercado. Num dia desses assisti pela televisão uma reportagem sobre pais que remuneram os filhos para os pequenos serviços da casa – arrumar a cama, preparar a refeição, limpar o quarto e coisas afins. Segundo eles, esta prática desperta as crianças para a vida, à dinâmica do receber proporcionalmente pelo que se faz, do ganho e da perda.

O mercado permeia a vida. Dentro e fora de casa, vivemos como vítimas de suas tensões. De certa maneira, estamos cotados, diariamente, como que numa bolsa de valores, que pesa, remunera e cobra tudo o que fazemos. Entre créditos e débitos, existem poderes que nos regem… se temos, exigimos, se devemos, lamentamos. “Quem tem mais, chora menos”… esta é a lei. Isto nos confunde como um todo, inclusive nossa devoção.

A religião em tempos pós-modernos, serve como moeda de domínio e, pasmem, inclusive de Deus. Quem tem muita fé, obrigatoriamente, precisa ter resultados, porque a “fé de mercado” é regulamentada por certas normas, por exemplo: que quem “paga o preço”, exige. Se a pessoa paga a Deus seus débitos – orando, jejuando e participando de reuniões – ela tem o “direito” de alguns favores, afinal, o mercado se caracteriza por troca. A nova lógica é que o/a ‘crente’ acumula saldos diante do Altíssimo e, no devido tempo, cobra. O que coloca em cheque esse mercado da fé, são as provações. Diante delas, geralmente as pessoas encontram duas saídas: considerá-las como pecado – débito – ou como ameaça da concorrência – o diabo. Os imprevistos, na lógica do mercado, devem ser previstos. Mas na vida, e de forma mais evidente, na fé, existem causas imprevistas e inexplicáveis, não processáveis pela cartilha da “fé de troca”, de direitos adquiridos.

Quando fatos naturais a qualquer pessoa – afinal, segundo o próprio Cristo, Deus “… faz o sol nascer sobre maus e bons” (Mt 5.45) – surpreende os alicerces dessa fé que só vive por decretos e exigências, a “bolsa quebra” e os argumentos faltam.

Talvez nesta hora seja necessário evocar o drama de Paulo, que admitiu ter um espinho incurável, a amargura de Jó, que viu sua vida ruir, ou mesmo a dor de Estevão, diante da morte. Existem momentos em que a fé foge à razão do mercado e, ao contrario dele, conclui-se que não fazemos qualquer negócio. Aliás, me parece que ter a noção de que não se faz qualquer negócio é a grande tônica do evangelho de Cristo. Quando mais consciência disso se tem, mais força e valor – que contradição com o “evangelho” que se escreve nos tempos atuais!A lei que contraria o mercado e nos lembra de nossa fragilidade é, no meu modo de ver, a possibilidade da dependência, da humildade, da disposição de andar segundas, terceiras milhas. Parece-me que é assim que nos livramos da arrogância do mais forte, do determinismo do intolerante, do devaneio do autoritário.

Quando leio sobre o Cristo da cruz e me lembro do mercado, fico em crise. Porque um me leva para o auto-sacrifício, o outro para a queda de braços, um me remete ao oferecimento, o outro para o ganho próprio… um para os outros, o outro, para mim mesmo.
Lamento que o mercado venha abarcando nossa vida de maneira tão poderosa e que não existam muitas esperanças de evitá-lo. Espero que a fé volte logo para a cruz e que voltemos a ser uma contracultura, tal como eram nossos pais… que voltemos a ter, novamente, nossas próprias referências… sem medo de ser sal – que mesmo em pouca quantidade, faz-se notar – e luz, que esclarece, que ilumina sem alardes.

Que tenhamos pudor para não fazer qualquer negócio em nome de nossa fé.
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Rev. Nilson da Silva Júnior é Pastor da Igreja Metodista. Para ler outros ensaios:http://www.revnilsonjr.wordpress.com/

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Jesus não estabelecia pontos de atendimento. Sua igreja era ambulante...

Por Derrel Santee
Jesus saiu dali e, no caminho, viu um cobrador de impostos,
chamado Mateus, sentado no lugar onde os impostos eram pagos. Mateus 9.9 (leia 9.9-13,18-26) – BLH

Jesus não ficava sentado, esperando os outros chegarem a ele. Não montava salões para onde encaminhava os necessitados a buscar socorro. Não marcava reuniões de cura e de bênçãos. Pelo contrário, ele era quem caminhava em direção aos necessitados e os encontrava onde eles estavam. As curas e as bênçãos aconteciam em qualquer lugar a qualquer hora!... Eram espontâneas, sem necessidade de “criar ambientes apropriados”. Os que o procuravam até tinham dificuldade em encontrá-lo! Jesus não estabelecia ponto de atendimento. Sua “igreja” era ambulante.

Também enxergava o que era despercebido por todos. Quantas pessoas passaram por Mateus sem realmente vê-lo? Para o povo, Mateus era uma pessoa a ser evitada. Representava o mal. Era o “bicho papão” do governo. Cobrava impostos. Para Jesus, Mateus era uma alma carente de amizades e de desafio maior na vida. Jesus simplesmente demonstrou amizade e propôs uma caminhada juntos por caminhos novos. Mateus topou e tomou novo rumo na vida.

Jesus não foi bem compreendido pelos fariseus que queriam conservar a pureza da religião. Para eles, pessoas santas não se misturavam com pecadores. Para Jesus a santidade só é válida na convivência com pecadores. Jesus se sentia melhor entre os pecadores do que entre os santos. Até hoje, os santos não conseguem entender isto e se empenham em permanecer separados dos pecadores. Os pecadores, por sua vez, sentem a rejeição dos santos.

Uma religião moralista é igual um hospital sem enfermos. O hospital é uma mistura de pessoas sadias e doentes. O hospital existe em torno de doentes – a igreja, de pecadores.

Mas, na prática, não é bem assim. Os hospitais têm sua equipe de obreiros sadios, mas internam somente pessoas enfermas. A finalidade é curá-las e lhes dar alta. São devolvidas à sociedade para fazer a sua contribuição como cidadãos sadios. Não dependem do hospital para manter a saúde. Em contraste, as igrejas têm sua “equipe de santos” para atender os pecadores, mas querem internar somente os santos e mantê-los internados para sempre. Para ser internada na igreja, a pessoa precisa demonstrar que não é mais pecadora. Se recair em pecado pode ser expulsa da igreja. O pecador “curado” precisa ficar na igreja para manter a sua saúde espiritual.
A religiosidade dos “perfeitos” era pedra de tropeço para os pecadores. Nada mudou. Mesmo hoje, a tendência da religião é sacrificar a bondade em favor de práticas religiosas que alienam os pecadores dos santos. Por exemplo, os santos consideram a Ceia como o privilégio dos bons, não como remédio para os pecadores. Nas igrejas, “pecadores” são barrados do ritual que simboliza o corpo e sangue de Jesus dado pelos pecados de todo o mundo. A ceia, somente para crentes, é uma ironia! Foge do propósito de Jesus.

Jesus continua ser um desafio para as pessoas que querem ser do bem. O convite de Jesus, “Venha comigo”, ainda está de pé e aguardando quem o aceite. Temos a coragem de romper barreiras, as nossas próprias barreiras?
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Derrel Santee é missionário aposentado veja outros artigos em http://sementesbiblicas.blogspot.com

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Conselhos para sobreviver ao mundo gospel

O mundo gospel se torna cada dia mais patético; distante do protestantismo; em rota de colisão com o cristianismo apostólico; transformado numa gozação perigosa; adoe­cendo e enlouquecendo mil­hares que são moídos numa engrenagem que condena a um duplo inferno.

Não consigo responder a to­das as mensagens que ento­pem minha caixa postal. Mi­lhares pedem socorro. Eu pre­cisaria ter uma equipe de es­pecialistas, todos me ajudan­do a atender os que me per­guntam: “ a maldição do pas­tor vai pegar mesmo?”; “é preciso aceitar as patadas que recebo do púlpito?”; “em nome da evangelização, devo aturar esses sermões ralos?”.
Realmente não dá mais. A grande mídia propaga o que há de pior entre os evangéli­cos com petição de dinheiro, venda de “Bíblias fantásticas”, milagres no ata­cado e simplismos hermenêu­ticos. As bobagens alcança­ram níveis intoleráveis.

O que fazer? Tenho algumas idéias.
Aconselho que os crentes pa­rem de consumir produtos evangélicos por um tempo. Não compre Cd de música ou de pregação - inclusive os meus. Deixe os livros evangé­licos encalharem nas pratelei­ras - idem, para os meus. De­pois que baixar a poeira do prejuízo, ficará notória a dife­rença entre os que fazem mis­são e os que só negociam.
Não vá a congressos - inclusi­ve o que eu promovo. Passe ao largo dos "louvorzões". Não sintonize o rádio. Boicote todos os programas na televi­são. Não comente, nem criti­que, a pregação de pastores, bispos, evangelistas e apósto­los. Afaste-se! Silencie! De­sintoxique mente, alma e espí­rito da linguagem, pressupos­tos e lógicas da "teologia da prosperidade". Volte a ler a Bíblia sem nenhum comentá­rio de rodapé. Alimente seu interior em pequenos grupos. Reúna-se com gente de bom senso.
Estanque seus dízimos e ofer­tas imediatamente. Repense com absoluta isenção onde vai dar dinheiro. Mas prepare-se; no instante em que dimi­nuírem as entradas, os lobos vestidos de pastor subirão o tom das intimidações. Não te­nha medo.
Faça essa simples auditoria antes de investir o seu suor em qualquer igreja ou minis­tério:
Quanto tempo é gasto no cul­to para pedir dinheiro?
A hora do ofertório vem acompanhada de uma lingua­gem com “maldição, gafanho­to ou licença legal para ata­ques do diabo”?
Prometem-se “prosperidade, colheita abundante, bênção, riqueza”, para os que forem fiéis?
Existe alguma suspeita na ad­ministração dos recursos arre­cadados? – Lembre-se que há dois níveis de integridade: o ético e o contábil. Não basta manter os livros em ordem; o dinheiro também só pode ser gasto no que foi arrecadado.
Se a resposta para alguma dessas perguntas for sim, nin­guém deve se sentir culpado quando não der oferta.
Só haverá arrependimento no dia em que os auditórios se esvaziarem junto com uma crise financeira - o monumen­tal ufanismo evangélico preci­sa deflacinar.

Concordo, ninguém agüenta o jeito como as coisas estão.
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Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda no Brasil e mora em São Pau­lo. É autor de, entre outros, Orgulho de Ser Evangélico. Gondim foi um dos convidados a falar no Encontro Nascional de Pastor@s da Igreja Metodista.

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Ministério pastoral: em busca de novos caminhos


Por Rev.Ronaldo Sathler-Rosa
[...]

7 - A atual supremacia da competição e da comercialização disseminada na aldeia globalizada se instalou, igualmente, no interior de igrejas alinhadas com o cristianismo.

É fator ponderável que ergue barreiras para a credibilidade da Igreja, na recepção pelo mundo contemporâneo da mensagem cristã. Ademais, a competição aninha sentimentos de superioridade, de arrogância e conseqüente rigidez doutrinária, acobertada por “argumentos” de “pureza da fé”, de “defesa dos autênticos valores cristãos”. Acompanham-na atitudes de desapreço e até mesmo de exclusão de outras igrejas e grupos de pessoas que não partilham as mesmas ênfases teológicas.
Concluindo, o fascínio que a vocação pastoral exerce sobre muitos de nós e sua abrangência muito além dos limites institucionais tradicionais é o que nos leva a submeter essas anotações a colegas, a leitoras e leitores interessados na missão da Igreja na atualidade. Outros caminhos vão se abrindo à medida que interagimos em resposta aos desafios desses “sombrios” tempos atuais. O diálogo com a sociedade é, também, expressão de nosso compromisso com o Evangelho que nos convoca: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa” (Mateus 5.14-15).


Para ler o texto completo acesse http://www.metodista.org.br/index.jsp?conteudo=6267
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Rev. Ronaldo Sathler-Rosa
Professor da Faculdade de Teologia e da Pós-Graduação em Ciências da Religião da UMESP. Adaptado de “A nova cidadania do cristianismo: da tutela à imersão”, artigo de Ronaldo Sathler-Rosa, publicado em Estudos de Religião, 32, 2007.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Uma religião que precisa “doutrinar” seus adeptos não é libertadora

* Por Derrel Homer Santee
Eu porei a minha lei na mente deles e
no coração deles a escreverei;
eu serei o Deus deles,
e eles serão o meu povo.
Jeremias 1.33 (leia 31.31-34) – BLH

Podemos pensar em Deus só em termos humanos dentro do nosso contexto cultural. No Antigo Testamento, Deus era entendido dentro do contexto do patriarcado. O pai da família era a autoridade máxima. Ele tinha a última palavra e traçava os rumos da família. Deus é retratado como o grande chefe da família tribal. Havia escolhido Abraão, Sara e seus descendentes como sua família. Ele os acompanhou através das gerações, orientando-os, protegendo-os e castigando-os. Mas estes “filhos adotivos” sempre lhe “davam trabalho”. Conforme o profeta, Jeremias o Deus Eterno viu que precisava mudar o relacionamento que não estava dando certo.

O primeiro modelo, a Aliança entre Deus e os descendentes de Abraão e Sara, era unilateral. Deus tomava as decisões e ditava as leis. Ele amava o povo, mas o medo do castigo era o motivo de obediência. Deus era culpado pelo povo quando tudo não estava de acordo com o seu gosto. Este modelo falhou. Neste texto, Deus está propondo um novo relacionamento, o que nasce da mente e do coração do povo.

A religião autoritária, dona da verdade e imposta, usando chantagens, ameaças e medo, não é libertadora! Pode ser bem sucedida em termos de crescimento numérico e financeiro, mas não deixa de ser uma forma de opressão. No caso do povo israelita, a vida servil, maléfica do Egito foi trocada por outra servil, benéfica de mandamentos divinos. Não deixava de ser uma forma de servidão imposta.
Qualquer tipo de servidão provoca revolta e desobediência.

Jeremias apresenta uma visão libertadora do Reino de Deus em que o amor é o valor supremo. O amor e lealdade não podem ser impostos. No amor, as pessoas aprendem e não precisam ser ensinadas. Buscam por si a sabedoria e o conhecimento... A motivação é interna. Uma religião que precisa “doutrinar” seus adeptos não é libertadora.

Os fundamentalismos modernos: cristão, judaico ou islâmico, são sistemas que usam a manipulação para segurar seus adeptos e incentivá-los a ir contra os demais. Ensinam a “verdade” absoluta que, em vez de promover amor, fomenta desconfiança, ódio, separação e hostilidade. Um exemplo é a retirada da Igreja Metodista de órgãos ecumênicos que incluem a representação da Igreja Católica Romana. O governo Bush dos Estados Unidos é outro exemplo clássico do fundamentalismo cristão utilizando com arrogância o poder político, econômico e militar para impor seus valores. Exige conformismo. É opressivo, não libertador.

A nova aliança, baseada no amor e perdão, é libertadora e ecumênica! Não exige conformismo. Cada pessoa tem a liberdade de se relacionar com Deus sem a interferência de outras. Ninguém precisa “converter” o outro.

Viver a nova aliança não é fácil. Exige abrir mão de muitos preconceitos instalados em nossa cultura: sociais, raciais e sexuais. Como os profetas do passado, poderemos ser discriminados e julgados pelos “espirituais”.
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Derrel Homer Santee é missionário aposentado e Confessante. Fonte: http://sementesbiblicas.blogspot.com

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Movimento metodista confessante busca o ecumenismo e defende o dissenso



RIO DE JANEIRO, Brasil, Dezembro 4, 2007

A decisão conciliar da Igreja Metodista de auto-exclusão dos organismos que tenham a presença da Igreja Católica motivou o surgimento do movimento de metodistas confessantes, que tem, entre outros, o propósito de testemunhar “em tempos de obscurantismo e autoritarismo”, e recuperar o dissenso na experiência e a unidade na vida comunitária.

O movimento toma o nome emprestado da Igreja Confessante da Alemanha nazista, daquela parcela da Igreja Evangélica alemã que não se dobrou ao Terceiro Reich, explica em artigo no blog “medotistaconfessante” o professor e jornalista Jaider Batista da Silva, que soma-se à iniciativa “a partir do protestantismo liberal, promotor da razão e da crítica”.

Batista da Silva se diz preocupado com a idéia do episcopado vitalício que “há muito ronda nossos concílios”. Ele frisa que para os metodistas a ordem é presbiterial e o episcopado “deve ser o humilde exercício extraordinário do presbiteriato”. O episcopado, argumenta, é condição temporária e especial “e a depender da continuidade dos abusos, pode vir a ser tomado como excrescência, superfluidade”.

Entre confessantes, define, “devemos defender o princípio bíblico e doutrinário do sacerdócio universal de todos/as os/as crentes, como antídoto ao culto à personalidade promovido por pastores/as e bispos que se comportam como gurus, reduzem a participação leiga à obediência cega e submetem comunidades inteiras ao abuso espiritual. Deve ser antídoto também para a tentação ao governo episcopal despótico”.

Cristãos que são sal e luz do mundo defendem os Direitos Humanos, procuram ampliar a participação das mulheres na igreja e fora dela e seguem “o único ponto de consenso da Igreja no seu primeiro concílio”, o de Jerusalém: não se esquecer dos pobres.

O diretor do Centro Universitário Bennett, do Rio de Janeiro, defende o ecumenismo como “afirmação da recusa das religiões de continuar a espalhar o ódio” num mundo em que o mapa das guerras e conflitos armados aponta as religiões organizadas como o maior fator de ira entre os povos. O ecumenismo, assinala Jaider, é o espaço, também conflitivo, de afirmação e busca da paz.

Nas comunidades locais, preconiza o professor, é preciso anunciar, na fidelidade a Jesus, que aquele ou aquela que as procurar não será lançado fora, “em vez de seguirmos, sem compaixão, orientações episcopais desamorosas e vexatórias para segregarmos maçons e nos posicionarmos contra o projeto de lei que torna crime a homofobia”.

Jaider defende, ainda, as instituições metodistas de ensino, do terceiro grau aos colégios, capazes de exercer influência social. “Não temos televisão, mas temos a rede de educação que, com todos os problemas, é a mais consolidada, qualificada e influente de todas as igrejas evangélicas do país”, afirma.

A educação, para os metodista, diz, é meio de graça. “Por meio dela Deus age na vida das pessoas e as abençoa, muitas vezes apesar de nós. As instituições metodistas de ensino ajudam nossa igreja a não se comportar como seita, ao estabelecer relação entre elas, minoritária, pequena, ainda meio estrangeira, com a sociedade abrangente”, afirma.

Fonte: http://www.alcnoticias.org/articulo.asp?artCode=7144&lanCode=3

Com que discurso eu vou?

Com que discurso eu vou?
Reflexões sobre a Crise Identificatória do Metodismo Brasileiro

Cleber Lizardo de Assis ‘Kebel’*


Primeiramente, aponto a linha de meditação que pretendo desenvolver: o da reflexão, que etimológicamente refere-se a um exercício de ‘se pensar’, pensar de forma que o produto retorne a si, gerando novos reflexos, idéias e possibilidades.


Procurarei falar do lugar das idéias-gérmen, da reflexão-verbo, reverberadora e geradora de novos ciclos, provocativos, dinâmicos e sem a pretensão da conclusão fechada, unívoca e detentora do saber final.
Nem por isso nego pontos de partidas, pressupostos e um lugar de chegada, mesmo que, ao caminhar esteja em permanente tensão e diante de um a-topos, um sem-lugar definitivo.

Nossa perspectiva ainda será a do pensamento complexo e, portanto, conjuntivo, evitando-se as dicotomias que se excluem mutuamente e as secções antagônicas (por ex, categorias como ‘direita’ ou ‘esquerda’, ‘ortodoxo’ ou ‘progressistas’, ‘secular’ ou ‘sagrado’).
As categorias e os argumentos servirão como instrumentos provisórios, caminhos mínimos para se chegar a algo, conceitos não estanques nem rigidamente seccionados.

O tema da identidade é sempre delicado e complexo de ser abordado: seja na sua dimensão individual ou na coletiva.
Para começar, um problema: que identidade é constituída individualmente, auto-fundada? Sua construção exige interações entre diversos sujeitos, no mínimo dois, tornando-a construto interacional.
Problema dois: identidade não é estanque, produto pronto e acabado, mas um processo dinâmico, minimamente estável e que permite um ‘identificar-se’ um ‘si mesmo’. Logo, mesmo havendo algo de natureza mais fixa (Personalidade? Caráter?), existe uma abertura à reconstrução e à metamorfose, tanto que em psicanálise prefere-se falar em identificação, ou seja um processo dinâmico de incorporação de elementos notadamente relacionais.

Posto esse problema de se pensar a identidade individual, coisa que vimos ser essencialmente social, ficamos diante de algo maior, a identidade grupal, coletiva e institucional.

A chamada ‘identidade metodista’ precisou passar por diversos momentos de identificação ou incorporação, desde os elementos judaicos, gregos e sua transição ao cristianismo, passando pelas mediações católico-romanas, pelo protestantismo nascente e o anglicanismo, do metodismo primero ao metodismo em solo norte-americano até desembocar num solo latino-americano com suas particularidades.

E o processo identificatório do metodismo não encerra aí, porque teríamos que, para além dos elementos estritamente religiosos, analisar outros transversais e em ocorrência concomitante, de dimensões políticas, ideológicas e culturais que envolvem os processos humanos.

Assim posto, como apresentar um produto fechado sob o rótulo ‘metodismo brasileiro’? como aferir o discurso reto e verdadeiro (ortodoxia) diante de possíveis desvios e heresias? Como localizar uma essência mínima nos conteúdos herdados e separá-los dos joios de tantos embates históricos? Árdua tarefa, considerando que o próprio Cristo sinalizou a mesma dificuldade, remetendo a sua resolução a um tempo escatológico.

Como se o problema identificacional fosse pequeno, temos ainda os recortes que cada sujeito, de leigo a clérigo com suas idiossincrasias e incorporações, vão agregando ao discurso e à instituição ‘metodista’.
Alguns corolários: ao se discutir um conceito, deve-se ao mínimo, estabelecer acordos sobre sentidos que o mesmo evoca, delimitar pressupostos e possíveis pontos de chegada, e mais, construções e consensos básicos e mínimamente estáveis para possibilitar o diálogo.
Essa prática de um sujeito ou grupo de definir fechadamente a questão, como por exemplo, o que é ser metodista, quaisquer que sejam os bons fundamentos discursivos, está equivocada.

Do mesmo modo, o movimento de justificar argumentos baseando-se num suposto ‘depósito original e exclusivo’ consiste em erro e perigo ainda maior: daí nasce os fundamentalismo nacionais, políticos, raciais e religiosos.

O fenômeno das crises identificatórias, sejam individuais, grupais e institucionais deve ser analisado para além das categorias religiosas, buscando também as interações e embates sociais, políticos, científicos, ideológicos e simbólicos por que passa a dinâmica desse tempo que se convencionou denominar de pós-modernidade, modernidade tardia e outros títulos.

O que se estuda nas diversas ciências são o descentramento paradimático de antigos referenciais geradores de sentido (as religiões por ex) e mesmo da ciência positiva e exata; uma certa diluição de ordem subjetiva diante da multiplicidade de novas instituições-reservas de sentido como as mídias e novas espiritualidades; um fortalecimento das tecnologias midiáticas em detrimento de permanentes dificuldades comunicacionais; uma busca desenfreada e consumista facilitada por um capitalismo desalmado que conduz à exaustão, a novas crises de sentido e a uma iminente destruição global.

Dentro desse bojo, a crise perpassa desde pequenas comunidades de fé, passando pelas religiões monoteístas e pelos blocos denominacionais históricos que precisam sobreviver diante da pluralidade de referências.

Diante dessa guerra velada, consciente ou inconscientemente, os grupos se aliam a outras instituições religiosas e espiritualidades (daí, a relação imbricada entre pentecostalismo e animismo), a instituições poderosas como as mídias televisivas e musicais (não se sabe onde começa a igreja e termina a empresa) e também a instituições políticas e jurídicas numa das formas mais privilegiadas de garantir a tutela do Estado e o aparato jurídico a favor do próprio discurso (no Brasil, por exemplo, quem ousa dizer que de fato o nosso Estado e o aparato jurídico são laicos?).

As crises identificatórias por que passam as próprias religiões, o próprio cristianismo e mais estritamente as igrejas históricas, incluindo o metodismo, referem-se a uma busca de novas parcerias e alianças institucionais para fortalecer a reserva de sentido que vinham oferecendo e que se encontra escasseado. O Sal cristão vem se tornado insípido, a sua luz sem brilho próprio.

Ao discutir a ‘identidade metodista’, para que não caiamos nos chavões que tudo e nada dizem, não basta reduzir a discussão a que tipos de cânticos e liturgias queremos ou devemos praticar, nem mesmo seguir por uma reflexão isolada sobre o que é ou deve ser o metodismo.
Entendo que algumas pistas seriam ouvir nosso povo com uma auto-estima coletiva desequilibrada diante de grupos que crescem da noite pro dia sem qualquer critério e ética válidos; seria um trabalho efetivamente docente sobre o carisma de ser uma comunidade de fé vocacionada para servir e não ser servida, que dialoga e resiste criticamente, que conduz à maturidade e não à regressão infantilóide; seria defender o Evangelho como única e suficiente reserva de sentido para a humanidade; seria oferecer ao rebanho um pastoreio profético e não de manutenção, mais parecido com o do Mestre e menos com os de líderes e empresários do mercado.

Entendo que a discussão deve buscar como ponto de partida o evento Crístico, sobretudo os princípios propostos pelo Rabi, fundamentos de uma ordem a-temporal e a-tópica chamada de Reino de Deus em torno da qual deve girar nosso processo identificatório, ou como queiram outros, nossa identidade.

Capital das Minas Gerais, 03 de dezembro de 2007.

* Educador, Teólogo e Psicólogo. email: kebelassis@yahoo.com.br

Delincrentes & tristemunhos

Igreja, sim, casa de espetáculo, não"

Deus não é surdo, orem baixo!

Respeitem o sossego dos outros, respeitem a lei.











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