segunda-feira, 16 de novembro de 2009

QUE METODISMO É ESSE?

QUE METODISMO É ESSE?
                                 Messias  Valverde


       Em 2000 o Colégio Episcopal lançou a Carta Pastoral sobre a Aliança com Deus. Orientações Pastorais para o projeto “Renovando a Aliança com Deus”. Nela, os bispos declaram que em Is 61,1-2, Deus estaria desafiando a Igreja Metodista a uma atuação centrada no anúncio do “Ano Aceitável do Senhor” (Is 61,2).

       Foi elaborado então um plano de ação com temas motivadores anuais como: no primeiro ano “o perdão”; no segundo, “Crescendo na fé e no conhecimento de Deus”; no terceiro, “Renovar a Aliança com Deus para servi-lo em todos os lugares” (p.6).

       A renovação da Aliança estaria alicerçada na “mensagem do Evangelho” e nos “ensinos da prática da tradição metodista” (cf.p.7)buscando despertar “na vida e no ministério da Igreja o sentido de Igreja Corpo de Cristo: Igreja viva, cheia do Espírito Santo” (p.7).

       Nessa perspectiva, Rm 12.1-2 seria lido na ótica do inconformismo com as situações de morte e injustiças que envolvem os espaços sociais onde a Igreja está inserida. inconformismo carregado de esperanças explicitado no anúncio/denúncia desenvolvido pela Igreja Metodista(cf.p.8), na convicção de que a Igreja não existe para “triunfos e sucessos” mas para “riscos constantes” (cf. p.8).

       Outro elemento importante da fundamentação bíblica é a menção dos diversos momentos da panorâmica bíblica de Abraão a Cristo, em que pessoas e comunidades foram conclamadas a renovarem a aliança com Deus. A título de exemplo, cita-se Js 24.14-25, entre muitos outros (cf.p.9s).

       No caso específico da Pastoral sobre a Aliança, que se propõe a trabalhar um “pacto de fé” que leve a Igreja Metodista a anunciar o “Ano Aceitável do Senhor”, como já afirmamos anteriormente, retoma-se o texto bíblico de Lv 25 por conter a gênese dessa proposta ministerial, ou seja, ano sabático, descanso da terra e perdão de dívidas a cada sete anos; e, a cada 50 anos, “ano jubilar”, ano seguinte ao quadragésimo nono (7X7), “ perdão das dívidas, libertação dos escravos, devolução das terras aos antigos donos”(cf.p10s).

       Duas constatações são feitas: biblicamente, a mensagem profética denuncia “a opressão do órfão e da viúva” como o primeiro sinal de “quebra da aliança com Deus” (p.10); e, anuncia que  o “Ano da Graça” seria reestabelecido  com a vinda de um libertador enviado por Deus (Is 9.6-7; Mq.5.2-5; Is 61). Condição que Jesus Cristo chama para o seu ministério em seu sermão em Nazaré (Lc 4.16-21).

       O desafio ao povo metodista, via renovação da Aliança com Deus, à luz da mencionada pastoral, é a busca de uma Igreja Missionária que “trabalhe para que o Ano da Graça de Deus seja mais efetivamente vivo no Brasil”. Uma “Aliança Missionária que supere as diferenças e reconheçam a diversidade de ministérios presentes no Corpo de Cristo (cf. p.11s).

       Dessa forma, a Igreja Metodista estaria apta a colocar em prática um princípio básico de sua existência: “Reformar a nação, particularmente a Igreja e espalhar a santidade bíblica por toda a terra”.

       A Pastoral ressalta que os primeiros metodistas buscaram esses objetivos fundamentados nos “vinte e cinco artigos de religião; nos sermões de João Wesley; em suas Notas sobre o Novo Testamento, e que, o metodismo brasileiro pode acrescer a esses, o “Credo Social e o documento Vida e Missão, entre outros” (cf p.11s).

       O programa da Pastoral visa “alcançar todos os membros da Igreja:
*Aos alegres, comprometidos, estímulo e força;
*Aos que estão enfraquecidos, renovação e orientação;
*Aos que estão frios na fé, alerta e convite a rever a vida” (p.22).

       À luz dessa pastoral, e logo após a sua publicação, a IV Região Eclesiástica chegou a desenvolver um programa de Renovação da Aliança com pastores(as) nos diversos distritos eclesiásticos. Não tenho lembrança se o fez também    com os(as) membros das igrejas locais.

       O que está sendo trabalhado na atualidade é um programa denominado “EMpacto – Encontro Metodista do Pacto”[1] que se desenvolve em um retiro de final de semana, “iniciado na sexta-feira às 20 horas e encerrado no domingo às 19 horas”.[2]

       A estratégia de funcionamento envolve músicas, silêncio dos participantes e “14 palestras sobre a vida e a maturidade cristã,”[3]concluídas, em muitas ocasiões, com a tríade: Orar, Cair, Levantar.

       Define-se esse expediente eclesiástico, entre outros, como: “o alicerce do novo programa de discipulado que está sendo desenvolvido na IV região, visando a implantação de células.”[4]

       Ora, se considerarmos a Pastoral da Aliança elaborada em 2000 e a Carta do Colégio Episcopal sobre a questão do G 12 endereçada aos metodistas “no Pentecostes de 2004,”[5]chegaremos à conclusão de que a intenção do EMpacto reúne elementos que os documentos oficiais da Igreja separou. Observem o posicionamento dos Bispos(a) sobre o assunto:

“O termo G12 é uma importação dos EUA, e tenta designar uma Igreja organizada em células, ou grupo de 12 pessoas, orientadas por um líder...esta metodologia de discipulado tem trazido dificuldades pastorais e desvios doutrinários, semeando divisões em várias igrejas que assimilaram tal programa...A proposta está centrada  numa aparição do Senhor ao pastor César Castelano e sua esposa Claúdia Castelano (Colômbia), designando-o como iluminado e enviado de Deus para o governo dos 12.
Enfatiza a necessidade de todo o crente ter o seu Peniel, ou encontro com Deus...Nada contra retiros espirituais, pois eles são bem vindos...A distorção do Peniel está em menosprezar as experiências anteriores (grifos meus)...A outra distorção do G12 é que não há espaço para a imensa diversidade de dons e ministérios, pois, no grupo, em casas de família, não há muito espaço para o exercício como ministério de ação social, tão vital num país como o nosso...não há espaço para a saudável experiência dos grupos societários, histórico espaço para treinamento e amadurecimento na fé. [O mesmo ocorre] com ministérios proféticos como: luta contra o racismo, menores infratores, pastoral carcerária.

Deste modo, a Igreja Metodista é absolutamente incompatível (grifos nossos) com o sistema de  igreja em célula do G12...Assim sendo, o Colégio Episcopal, ao analisar as propostas do G12 declara que elas são incompatíveis com os documentos, doutrinas e caminhada da Igreja em dons e ministérios e que pastores e pastoras não têm o direito de envolver a comunidade local em propostas que não foram avaliadas pelos respectivos concílios...regional, distrital e local. O(a) Pastor(a) que assim proceder estará contrariando a orientação doutrinal da Igreja e atraindo para si toda responsabilidade. Desta forma estará sujeito ao que prescreve os Cânones da Igreja Metodista”.[6]

À luz dessas posturas oficiais do Colégio Episcopal explicitadas em documentos recentes, cabe-nos perguntar: Há alguma decisão dos Bispos e Bispa que encaminhe de forma diferente essas questões? A Pastoral sobre o Caminho do Discipulado- de Jesus a nós –dezembro de 2000- também procedente do Colégio Episcopal, tem sido considerada nos programas de discipulado desenvolvidos nas regiões Eclesiásticas da Igreja Metodista?

O método “Orar, Cair, Levantar” presente na maioria desses retiros é compatível com a tradição teológica cristã e protestante sobre a pneumatologia?


É razoável a utilização desses recursos em eventos que envolvam jovens, juvenis e crianças?

Não estaria a Igreja Metodista desenvolvendo uma demonização excessiva das coisas, inclusive de símbolos e brinquedos infantis?
O que estaria levando a Igreja Metodista a negar as experiências de fé e vida dos(as) obreiros clérigos e leigos(as) que atuaram nas últimas décadas na IV Região Eclesiástica?

Por que a formação teológica tem sido apontada em algumas falas e textos oficiais como obstáculo à caminhada ministerial da Igreja?




[1] Site da Igreja Metodista Central de Juiz de Fora- MG.
[2] Site da Igreja Metodista Central de Juiz de Fora – MG.
[3] Idem
[4] Ibidem
[5] Os Bispos e Bispa datam assim o referido documento.
[6] Carta do Colégio Episcopal  sobre a questão G12– Igreja em Células- pentecostes de 2004.

Um comentário:

keller apolinario rosa da silva disse...

Relendo o texto encontro muitas perguntas e pouca tentativa de resposta, estaria o pr. espantado ou frente à um aporia?

Keller