terça-feira, 5 de julho de 2011

Ingrata Surpresa?

INGRATA SURPRESA?

Kyrie eleison!





Paulo Ayres Mattos

Bispo Emérito da Igreja Metodista

Nashville, Julho de 2011



Deve estar sendo uma ingrata surpresa para muitos membros da Igreja Metodista, particularmente para membros da delegação clériga e leiga ao próximo Concílio Geral da denominação, receber os dados estatísticos nacionais da Igreja Metodista no Brasil referentes ao qüinqüênio 2006-2010. Será que serão motivo para acaloradas discussões durante a reunião máxima do metodismo brasileiro que dentro de poucos dias estará tendo seu início em Brasília? Sei não!

Por que ingrata? Porque após as decisões de Aracruz se esperava ver um “boom” no crescimento numérico da Igreja Metodista em todo o território brasileiro já que um dos principais argumentos usados para a desafiliação da Igreja Metodista de órgãos ecumênicos nos quais a Igreja Católica Apostólica Romana participava, e ainda participa, foi que nossa associação com aquela Igreja irmã dificultava o crescimento numérico do metodismo brasileiro. Fora de tais organizações, o metodismo brasileiro ia “arrebentar a boca do balão”. Nas entrelinhas de Aracruz esta era uma promessa (ou profetada?) que acabou não se cumprindo.

Dizia-se esperar por tal “boom” porque agora desvencilhados de laços tão constrangedores já não teríamos mais que andar a explicar a todo o momento nossos relacionamentos com gente apóstata e assim evitar a perda de membros para denominações irmãs que nos antagonizavam por nossa associação esdrúxula com a representante do Anti-Cristo na terra e, mais ainda, conseguir muitos novos adeptos para o metodismo brasileiro entre os próprios aderentes do catolicismo. O argumento principal que subjazia à estratégia dos adversários do ecumenismo institucional que incluísse os católicos romanos era que o crescimento numérico experimentado por denominações irmãs, especialmente as pentecostais como as Assembléias de Deus, devia-se entre outras coisas ao seu explícito e declarado anticatolicismo.

Os defensores da proposta de rompimento de nossas relações eclesiásticas com o catolicismo romano tiveram como sua pedra angular a negação de qualquer eclesialidade da Igreja Católica Apostólica Romana, com delegados brandindo no plenário de Aracruz as páginas das Notas Explicativas do Novo Testamento de Wesley onde nos comentários de textos do Apocalipse nosso pai espiritual faz referências não muito elogiosas àquela Igreja irmã, em que pese outras referências mais fraternas em sua Carta a um Católico Romano em que o fundador do movimento metodista reconhece certas marcas eclesiais daquela Igreja. A nossa associação com a Igreja Católica em organismos como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) e a Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) se constituía para os antiecumênicos num antitestemunho evangélico que facilitava em nosso meio metodista, por um lado, o proselitismo de nossas co-irmãs evangélicas que pescavam novos membros em nossas próprias águas. Por outro, demonstrava uma nossa falta de identidade evangélica que redundava numa complacência teológica diante de práticas católicas tais como a salvação pelas obras, o culto às imagens, a veneração da Virgem Maria e a concepção petrina do papado romano, o que acabava, assim se dizia, por nos imobilizar em nossa prática evangelística já que praticamente nada mais nos diferenciava dos católicos romanos. Afastados, pois, da associação réproba com os católicos romanos agora estaríamos, entre outras coisas, livres da concorrência pedratória das denominações irmãs mais conservadoras, para então crescermos numericamente na mesma proporção delas, mais particularmente de nossas co-irmãs pentecostais.

Ledo engano! Não é isto que as estatísticas agora publicadas estão a revelar. Quero, antes de tudo, deixar claro que não estou deslegitimando a experiência de conversão ao Evangelho dos novos convertidos em nossas comunidades metodistas espalhadas por esse nosso vasto Brasil. Louvo ao nosso Deus por tais conversões. Até porque algumas dessas pessoas recém-convertidas estão em minha classe de escola dominical em nossa Igreja em Rudge Ramos, onde atualmente me congrego na companhia de minha esposa. Reconheço que Deus continua usando muitas de nossas igrejas locais como lugar de acolhimento e bênção para muitas pessoas que jaziam no vale da sombra da morte, independentemente de nossa ortodoxia ou não, pois quem salva, transforma e liberta é Deus por sua maravilhosa graça e não a nossa “sã” doutrina. Gente cuja vida foi radicalmente transformada e liberta pelo poder do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Devemos ser gratos a Deus pelo mover do seu Espírito no ministério de muitas de nossas igrejas locais onde podemos ver o testemunho vibrante de tais pessoas.

Mas não é sobre isto que estou falando. É sobre coisa muito diferente.




Estou falando, sim, sobre a falácia do argumento de que nossa associação com órgãos ecumênicos onde se acha também presente a Igreja Católica Romana se constituía num grande impedimento para o crescimento numérico do metodismo no Brasil. É esta falácia que, entre outras coisas, as estatísticas do último qüinqüênio acabam de revelar, pois o crescimento do metodismo brasileiro no último qüinqüênio não foi muito diferente do crescimento dos tempos em que fazíamos parte do CONIC e da CESE. Em algumas de nossas regiões até pelo contrário.

Vejamos:



QUADRO ESTATÍSTICO DO ROL DE MEMBROS DA IGREJA METODISTA

PERIODO 2006-2010*

1ª.

2ª.

3ª.

4ª.

5ª.

6ª.

7ª.

8ª.

TOTAL

Número de Membros no ano de 2006

81741

10143

17559

24014

20859

17313

3647

2412

177688



Número de Membros no ano de 2010

105632

11922

18278

26521

21463

22850

4963

3086

214715



Crescimento no Período

23891

1779

719

2507

604

5537

1316

674

37027



Crescimento em Porcentagem %

29,23%

17,54%

4,09%

10,44$

2,90%

31,98%

36,08%

27,94%

20,84%



Crescimento Populacional do Brasil 2005-2010**

2005: 183.300.000

2010: 193.250.000

Crescimento anual: 0,92%

5anos = 4,6%



* Dados apresentados nas estatísticas nacionais da Igreja Metodista – 2006-2010

** Dados do IBGE – 2001-2010


Tomemos por régua e compasso a 1ª. Região, o carro chefe do crescimento do metodismo brasileiro nos últimos vinte anos, que nos últimos anos vinha tendo como alvo o crescimento anual de 15% (quase metade dos atuais metodistas brasileiros hoje se encontra no Estado do Rio de Janeiro).

Durante todo o quinquênio a 1ª. Região teve o crescimento de 29,23%, isto é, quase que somente o previsto para dois anos; as 6ª, 7ª e 8ª Regiões tiveram crescimento um pouco acima do que seria previsto para dois anos, com especial destaque para a REMNE, o que vem ocorrendo desde os anos 1990; a 2ª Região um crescimento um pouco maior do que seria previsto para um ano; as 3ª, 4ª e 5ª crescimento muito abaixo do que seria previsto para um ano, com especial referência para as 3ª e 5ª Regiões que de fato decresceram no quinquênio, mais a 5ª com 2,9% (!!!!!!) do que a 3ª com 4,09%, se tomarmos por base o crescimento da população brasileira  que no quinquênio foi de 4.6%.

No cômputo geral o crescimento oficial da Igreja Metodista no Brasil durante o quinquênio 2006-2010 foi de 20,84%, cinco vezes menos se o alvo da 1ª Região fosse adotado por todas as demais regiões; se tomássemos por base o alvo estabelecido anos atrás pela 1ª. Região dever-se-ia ter alcançado, salvo melhor juízo, mais de 100% de crescimento numérico, que no final de 2011 seria por baixo mais de 370.000 membros para toda Igreja Metodista no Brasil. As atuais estatísticas indicam que segundo tais projeções haveria uma diferença de cerca de 150.000 pessoas que deixaram de ser incorporadas à Igreja Metodista no Brasil. Mas nem mesmo a 1ª Região conseguiu manter o ritmo de alguns poucos anos atrás; o Bispo Paulo Lockmann em carta dirigida ao seu corpo pastoral reconheceu recentemente de forma honesta o retrocesso no crescimento numérico da região sob sua superintendência episcopal. Diante de tais números fica mais fácil entender o por quê da manifesta insatisfação da Igreja com o desenvolver da ação missionária dos metodistas brasileiros conforme a avaliação publicada em número recente do Expositor Cristão.

Ora, o surpreendente é que as estatísticas agora divulgadas deixam claro que o problema do baixo crescimento numérico da Igreja Metodista no Brasil neste último quinquênio se deu principalmente em alguns dos bolsões metodistas onde a mensagem antiecumênica prévia ao Concílio de Aracruz teve maior repercussão em suas delegações. Foi aí nesses bolsões que se encontravam os delegados em Aracruz mais aguerridos na luta pela desafiliação nossa de alguns dos organismos ecumênicos. E agora vemos número ínfimos e pífios nestas mesmas regiões. E não venham dizer agora que é a falta de crescimento em tais regiões é consequência do “efeito memória” dos nossos tempos de ecumenismo com os irmãos católicos[1], pois a Igreja Metodista não é pilha de NiCd para ter “efeito memória”.

O baixo crescimento de algumas regiões e o decréscimo de outras é resultado de outras questões que não têm a ver principalmente com a questão ecumênica, cuja discussão em profundidade não cabe neste artigo. Talvez o próximo Geral, se não empurrar o problema para debaixo do tapete, tome decisões para determiná-las de forma objetiva e clara. A verdade que as estatísticas referentes aos últimos cinco expõem é que o metodismo brasileiro sem ecumenismo institucional, sem participação ativa mesmo nos organismos ecumênicos onde ainda participa, não cresceu numericamente, repetindo o mesmo fenômeno que nunca desapareceu da vida denominacional desde 1930, a falta de crescimento numérico. Com ecumenismo ou sem ecumenismo o metodismo brasileiro teima em não crescer em número, não seguindo o padrão experimentado por outras igrejas evangélicas, até mesmo pelos presbiterianos e batistas.

Outra falácia da qual quero falar e que as estatísticas atuais ajudam a desmascarar é a propaganda insistente que alguns setores da Igreja Metodista no Brasil, os chamados carismáticos, fazem em favor da pentecostalização de nossa denominação (é verdade que não somente no Brasil, mas em outras partes do mundo também essa propaganda tem ganhado força nos anos recentes). Creio, contudo, que ao invés de falar de pentecostalismo, devia eu falar de propaganda do neopentecostalismo nos meios metodistas brasileiros. Sim, neopentecostalismo metodista! Basta ver o que pulula no número enorme de sites e blogs metodistas livremente postados e disponíveis na Internet. Porque por experiência pessoal e profundo estudo nos últimos dez anos, estou convicto de que muito do que está acontecendo em certos arraiais metodistas nada tem a ver com o movimento pentecostal! Nada, nada! Não quero e não posso negar a experiência pentecostal de muitos metodistas. Entretanto, em diversos lugares metodistas o que vemos não é a busca do poder do Espírito Santo para o serviço cristão no mundo, a grande aspiração dos primeiros pentecostais, mas simplesmente uma vulgarização da experiência liminar do pentecostalismo, o falar em línguas. Acontece que em muitos casos não há nos meios metodistas pentecostalizados nem a doutrina nem a disciplina características das Assembléias de Deus e da Congregação Cristã, o que de certa maneira leva à submissão de muita gente nossa aos modismos novidadeiros mais estapafúrdios que com grande rapidez surgem e desaparecem no meio evangélico brasileiro. É um tal de correr atrás da bênção e da unção aqui, ali e acolá que não tem fim... Daí pular para a pretensa superioridade espiritual sobre quem não tem a unção é, parafraseando Wesley, um fio de cabelo. Isso se vê já em muitas igrejas locais, onde quem não tem a experiência tem sido excluído da liderança leiga em diversos dos ministérios, exclusão essa que tende alastrar-se para níveis superiores da burocracia eclesiástica.

Deixo claro que me considero uma das pessoas que no meio metodista brasileiro reconhecem e afirmam sem titubear a legitimidade do avivamento pentecostal começado em Azusa Street (invoco de maneira especial o testemunho de alunos e alunas, principalmente os/as pentecostais, de minhas aulas sobre história e teologia do movimento pentecostal na Fateo – do presencial e do CTP). Entretanto, afirmo que o que acontece entre nós é frequentemente nada mais nada menos do que puro mimetismo neopentecostal! Imitação, sim, e barata! Mas voltando à falácia da propaganda do [neo]pentecostalismo entre metodistas brasileiros... a falácia tem a ver acima de com a equivocada equação “crescimento numérico = avivamento pentecostal”... Ainda que seja verdade, como acima reconhecido, que igrejas locais que têm experimentado grande crescimento numérico são na maioria das vezes as que têm adotado o figurino pentecostal em suas práticas e ensino, insisto que a equação é equivocada pelos motivos expostos a seguir. E, com [neo]pentecostalização, ou sem [neo]pentecostalização, o metodismo brasileiro teima em não crescer em número, repito, não seguindo o padrão experimentado por outras igrejas evangélicas, até mesmo pelos presbiterianos e batistas.

Ora qualquer estudioso sereno e rigoroso da história dos avivamentos, inclusive os das últimas cinco ou seis décadas no Brasil, desde o aparecimento do pentecostalismo no Brasil em 1910, passando pelas visitas de Ridout, Orr e Jones nas décadas de 30 a 60, chegando-se aos dias atuais, sabe que tal equação não é um axioma, isto é, uma verdade que se afirma por si própria não necessitando de maiores comprovações. Antes de mais nada, nos últimos vinte anos, a propaganda para a pentecostalização da Igreja Metodista tem sido em alguns casos uma arma do arsenal político-ideológico para galgar-se prestígio e, depois, poder na estrutura eclesiástica do metodismo brasileiro. Tal coisa não acontece nem entre os batistas da CBB nem com os presbiterianos da IPB, onde os conservadores-fundamentalistas mantêm a máquina burocrática denominacional sob estrito controle (vide a cúpula de ambas igrejas onde carismáticos não têm vez de forma alguma... É bom lembrar que a figura mais popular do presbiterianismo brasileiro, o Rev. Hernandes Dias Lopes, em seus livros deixa bem claro sua oposição às línguas estranhas como evidência inicial do batismo do Espírito Santo).

Por que faço tal afirmação? Explico-me: porque temos claras evidências históricas de que há avivamento que não produz crescimento, e de crescimento numérico que não é fruto de avivamento. No primeiro caso cito o exemplo das denominações surgidas do movimento de renovação espiritual da década de 1960, sob a influência de Rosalee Appleby, e dos batistas José Rego do Nascimento (pastor da Lagoinha em BH) e de Enéas Tognini (do  Colégio Batista de São Paulo), que se formaram a partir do pressuposto de que se as denominações tradicionais se pentecostalizassem, cresceriam na mesma proporção das Assembléias de Deus e da Congregação Cristã na década de 1950. Tal ingênuo pressuposto nunca se concretizou historicamente falando; tais denominações até hoje não alcançaram o mesmo patamar de crescimento das igrejas pentecostais tradicionais, a Assembléia de Deus e a Congregação Cristã, e nem das igrejas pentecostais de cura divina, como as do Evangelho Quadrangular e da “Deus é Amor”, e nem muito menos das neopentecostais como a Universal, a  da Graça e a Mundial. Parecem-se muito mais com as igrejas de onde surgiram. Por outro lado, denominações que não adotaram o modelo pentecostal têm crescido a olhos vistos, mesmo sem fazer barulho, como é o caso da Adventista do Sétimo Dia, que já tem mais de um milhão e meio de membros em todo território brasileiro (segundo um colega meu adventista no Conselho Diretor de Diaconia, somente no Nordeste há atualmente mais de 350.000 adventistas!). Isto sem entrar em maiores detalhes sobre o vertiginoso crescimento dos batistas brasileiros. Isto me leva a recordar uma conversa que tive lá nos idos de 1970 com o meu amigo Rev. Antonio Elias, o velho e respeitado evangelista e avivalista presbiteriano, numa série de conferências evangelísticas dele na Igreja Central de Niterói onde eu pastoreava, quando ele me disse: “Paulo, carroça vazia é que faz barulho!”.

Portanto, repito, a história contemporânea das igrejas evangélicas no Brasil demonstra que há movimentos de avivamento que não produzem grande crescimento e há grande crescimento sem a adoção de doutrinas e práticas pentecostais. E digo isto sem qualquer preconceito contra o pentecostalismo e contra crescimento numérico. Digo isto mais para desconstruir o uso político-ideológico da propaganda pentecostal entre nós metodistas que é difundida sob diferentes aparências de santidade. Se fosse verdade tal equação, o avanço de práticas e ensinos [neo]pentecostais da parte de muitos pastores e pastoras metodistas, por diversas igrejas locais espalhadas por todas nossas regiões, e até por algumas lideranças leigas de nossas organizações societárias, teria provocado um crescimento muito maior do que aquele acusado pelas estatísticas recém publicadas, pois o que não falta hoje em muitos lugares e encontros de metodistas é o apregoar-se do avivamento que finalmente chegou aos arraiais metodistas... .

Se é verdade que a [neo]pentecostalização de alguns bolsões do metodismo brasileiro, como a região de Cabo Frio e Macaé, na 1ª Região (e disso eu tenho sido testemunha ocular em mais de uma das visitas a Cabo Frio onde mantenho excelentes relacionamentos dentro e fora da Igreja ainda nos dias de hoje apesar de ter servido como pastor naquela área somente até 1973), e do Norte do Paraná, na 6ª Região (onde somente tenho ouvido o testemunho de terceiros), tem trazido significativo crescimento numérico para as igrejas aí localizadas, com inegáveis frutos de conversão, transformação e libertação na vida de pessoas novas-convertidas ao Evangelho, é verdade também que a pentecostalização promovida até por autoridades maiores de nossa Igreja não tem produzido os números prometidos e apregoados pelos seus defensores em todas as regiões eclesiásticas – e isto é o que as estatísticas agora apresentadas evidenciam de forma clara e irrefutável. No fundo tem se constituído em propaganda falsa: têm prometido um produto que não têm sido entregue ao seu maior interessado – a cúpula burocrática da Igreja Metodista (sim, um produto religioso resultante da comoditização dos bens religiosos na sociedade neocapitalista brasileira de FHC e de Lula – e toma consumismo inveterado – e a indústria gospel vai muito bem, obrigado!).

As práticas neopentecostais entre nós metodistas brasileiros são de fato cópias mal-feitas de uma matriz que nada tem a ver com o metodismo da verdadeira santidade de coração e vida, da santidade pessoal e santidade social, da santidade bíblica conforme vivida e ensinada, entre outros, pelos irmãos Wesley, Fletcher, Phoebe Palmer, William e Catherine Booth, Fanny Crosby, Frances Willard, Phineas Breese, e Stanley Jones, todos comprometidos em expressar sua fé mediante do exercício das obras de piedade e de cotidiana e engajada prática das obras de misericórdia, na vivência concreta da santidade e do compromisso com os pobres.

A prática da verdadeira religião vivida e pregada pelo metodismo wesleyano nada tem a ver com igreja em células da visão, com encontros esotéricos “com Deus” (sic) que não passam de arremedo de cursilhos da cristandade, ou pior, de sessões fechadas de sociedades secretas, de grupos de doze, de apóstolos enrustidos, de cursos de rápida duração de como falar em línguas sem qualquer relação com o ensino e disciplina bíblica sobre os dons espirituais, de encontros proféticos que nada profetizam e só servem para desperdiçar recursos que poderiam estar sendo investidos no fortalecimento daquelas experiências missionárias que estão profeticamente mudando as vidas das pessoas nas fronteiras extremas da vida, a exemplo do que faz a Catedral Metodista de São Paulo com o projeto Comunidade Metodista do Povo de Rua ou a JOCUM no complexo do Morro do Alemão. A prática da verdadeira religião vivida e pregada pelo metodismo wesleyano nada tem a ver com anacrônicas práticas judaizantes (de entronização em nossos altares de menorahs, shophars e bandeiras do Estado Sionista de Israel (que os judeus mais conservadores repudiam como ofensa à soberania de Iahweh na restauração de Israel), uso de kipahs e talits nas cerimônias litúrgicas metodistas, etc., etc., etc.,). A prática da verdadeira religião vivida e pregada pelo metodismo wesleyano nada tem a ver com o mimetismo grosseiro de práticas umbandistas como correntes de prosperidade, cultos de libertação que são verdadeiras réplicas de sessões de descarrego do neopentecostalismo, e outras que tais (com todo respeito pela liberdade de escolha de quem faz conscientemente opção por tal religião afro-brasileira – direito esse que evangélicos brasileiros no passado defenderam até com o preço de suas vidas, direito esse como inalienável liberdade que nos foi dada pelo próprio Deus). A prática da verdadeira religião vivida e pregada pelo metodismo wesleyano nada tem a ver com o clericalismo exacerbado reinante em muitas igrejas metodistas brasileiras onde a liderança leiga foi abafada, reprimida e censurada sob o pretexto neopentecostal de que na Igreja a divergência com certas orientações pastorais são rebeldia e, portanto, pecado mortal de feitiçaria contra os “homens de Deus” que tudo podem e de forma alguma podem sofrer qualquer contestação em sua “autoridade”. A prática da verdadeira religião vivida e pregada pelo metodismo wesleyano nada tem a ver com a morte da escola dominical substituída arbitrariamente pelas escolas de líderes onde o que vale é a vontade pastoral. E tudo isto, gente, está aí para quem quiser ver nas páginas dos blogs e das redes sociais da Internet...

Creio que esse tipo de religião vigente em muitos círculos do metodismo brasileiro nos tem produzido um grave problema, pois grande parte dos membros de nossas congregações é constituída mais por meros assistentes passivos e/ou por clientes em busca de produtos religiosos do que de irmãos e irmãs na fé com forte compromisso e prática missionárias, participantes ativos dos grupos de discipulados (cujos dados estatísticos agora divulgados são mais do que decepcionantes, mas sim vergonhosos!), especialmente em suas atividades cotidianas no mundo secular onde vivem e trabalham. Dentro do atual quadro religioso brasileiro, creio que o nosso exacerbado clericalismo é um enorme obstáculo para uma compreensão e prática da obra missionária em termos de missão integral. Sem leigos maduros, ativos, participantes e comprometidos não poderá haver missão integral.

É por isso que o crescimento numérico dos evangélicos brasileiros, apesar da extraordinária transformação na vida pessoal de milhares de pessoas, não tem causado maior impacto transformador em nossa sociedade (Rio de Janeiro, o estado brasileiro com a maior população evangélica, que o diga!) Neste sentido, no Brasil não temos visto o que o avivamento metodista na Inglaterra, sob a liderança de Wesley, e o avivamento liderado por Finney e Phoebe Palmer nos Estados Unidos, na primeira metade do século dezenove, foram capazes de provocar não somente levando multidões à conversão a Cristo, mas também a mudanças importantes e significativas na vida moral, social e política em ambas sociedades.

O que vemos é que mesmo o grande crescimento numérico de outras denominações irmãs, em minha opinião, não tem sido acompanhado de um maior compromisso missionário em todos os campos da vida brasileira reclamando um eficaz testemunho evangélico (exceto pela recente articulação contra a PL122). Creio que precisamos com urgência de uma NOVA REFORMA no evangelismo brasileiro que deverá ter como seu centro a compreensão e a prática da missão como obra de Deus na implantação e sinalização do seu Reino entre nós e não como obra humana forjada nas regras do mercado e da exacerbada competição institucional entre as igrejas para o crescimento numérico a qualquer custo e da mimetização de ensino e práticas que nada tem a ver com a religião do coração aquecido, da santidade de coração e vida, das obras de piedade e das obras de misericórdia. Só com uma radical reforma no mundo evangélico brasileiro será possível a nossas igrejas contribuírem para a construção de uma sociedade com alto padrão espiritual e ético, segundo a maneira de ser exposta por Jesus no Sermão do Monte (Mateus 5 a 8).

Creio que o tipo de [neo]pentecostalização que o metodismo brasileiro tem sofrido nas últimas duas décadas vai na contramão dessa necessária reforma evangélica e é em muitos casos o responsável pela falência do projeto de crescimento numérico vigente no metodismo brasileiro de nossos dias conforme os números de nossas últimas estatísticas. Na imitação grosseira e barata dos grupos neopentecostais o povo das comunidades onde estão inseridas nossas igrejas locais em sua grande maioria prefere ir para as matrizes e não para as imitações das filiais não autorizadas, um tanto quanto envergonhadas, pastoreadas por nossos pastores e pastoras neopentecostalizados. Graças aos escrúpulos ainda presentes entre nós a maioria de nossos neopentecostais não chega a cruzar as fronteiras que nos separam das manifestações quase indecentes de grande parte do mercado religioso brasileiro. Mas aí ficam a meio caminho essas cópias envergonhadas que nada têm a ver com o metodismo wesleyano e a original igreja neopentecostal da cidade ou do bairros ou da esquina ainda é mais atraente que a cópia metodista...

Diante de tais disparates reinantes em muitas de nossas igrejas, sob a liderança de muitos de nossos pastores e pastoras, creio que o metodismo está realmente numa encruzilhada histórica: ou deixa de ser metodismo e assume o ser neopentecostal para valer, ou volta a ser uma alternativa não de massas, mas sim parte reserva escatológica do Resto de Israel que não se curva diante do deus do mercado dos bens religiosos do sucesso a qualquer custo, da prosperidade financeira do consumismo grosseiro que anima a propaganda televisiva do neopentecostalismo e do crescimento numérico que sustenta os privilégios financeiros e políticos do “sacerdócio” e bajula o poderoso mamon de nossos dias e persegue e mata os profetas de Javé (Isaias 10 e 11). A escolha certamente não dependerá de decisões da máquina administrativa da Igreja em qualquer nível de sua organização burocrático-eclesiástica, mas sim de uma profunda e nova espiritualidade evangélica que nos leve a uma nova forma de ser Igreja, tal como aconteceu com a reforma protestante no século dezesseis e o movimento metodista no século dezoito. As palavras de Jesus ao homem religioso de seu tempo mais uma vez ressoam entre nós: “É necessário nascer de novo... O Espírito sopra onde quer...” Uma reforma que antes de tudo mude o nosso coração e nos leve a viver radicalmente no cotidiano de nosso povo a singela mensagem do Jesus ressuscitado, em dedicados e comprometidos atos de piedade e misericórdia, conforme Wesley nos testemunhou por sua vida e ensino.

Como Lutero diante da Dieta de Worms, declaro:

A menos que me provem pelas Escrituras e claros argumentos da razão que eu estou enganado – porque não acredito nem no papa nem nos concílios já que está provado amiúde que estão errados, contradizendo-se a si mesmos – não posso e não me retratarei. Minha consciência é cativa à Palavra de Deus. Ir contra a minha consciência não é correto nem seguro. Aqui estou e permaneço eu. Não há nada mais que eu possa fazer. Para tanto que Deus me ajude. Amém.

Maranatha!






[1] Ironicamente, “irmãos católicos” é uma expressão que está sendo usada “ad nauseam” pelos líderes evangélicos na campanha contra a PL 122 em sua santa união com católicos e até espíritas! Imaginem que o antigo axioma de que os extremos se encontram num giro de 360º, finalmente se torna realidade entre os setores do conservadorismo evangélico e católico. Coincidência? Não, de jeito nenhum! Convergência? Claro, pois a matriz é a mesma que se chama “integrismo”, no catolicismo romano, e “fundamentalismo”, no protestantismo-evangélico – sem que com isso eu ande por aí pregando a fogueira para ambos, já que a liberdade de consciência é um valor que os protestantes sempre defenderam, tanto para um lado, como para o outro. De passagem, lembro-me que certa feita, numa conversa amigável com o Rev. Dino Fernandes (mola propulsora do antiecumenismo pré-Aracruz) disse a ele que eu tinha (e ainda tenho) muito mais razão do que ele nas divergências com o catolicismo romano (pois tenho convivido bem próximo de irmãos e irmãs daquela Igreja que têm sido alvo da perseguição da Cúria Romana por suas opiniões em favor de uma profunda reforma em sua Igreja, como o teólogo Leonardo Boff, um amigo pessoal) e, por isso, mesmo defendia (e defendo), ainda que com certas reservas, nossa participação em organismos ecumênicos onde estão também nossos irmãos e irmãs da Igreja Católica. Porque divirjo radicalmente de certas doutrinas e práticas da Igreja de Roma é que sou cada vez mais ecumênico, já que estou convicto que só o diálogo entre os diferentes, e até mesmo antagônicos, ramos do cristianismo podemos avançar no respeito mútuo e no conhecimento sincero uns dos outros, mesmo divergindo e sem jamais abrir mão daquilo que para nos é a cláusula pétrea, o “princípio protestante”.

2 comentários:

Unknown disse...

deve estar havendo algum engano. estive pessoalmente com o bispo da primeira região e ele garantiu que o trabalho estava sendo feito e os resultados sendo alcançados. o motivo pelo qual eu o procurei foi pelo fato de eu fazer evangelismo na rua por minha conta e no meu distrito eram 33 igrejas. buscava apoio. ele me disse textualmente que são mais de 1500 evangelistas... não precisa mais etc.... pode confirmar suas informações. pelo menos as fontes? será que o bispo da primeira região se enganou? Henrique Novaes (henriquelia@oi.com.br)

Fabio Martelozzo Mendes disse...

Prezado irmão Henrique.

As fontes estatísticas deste texto são as estatísticas oficiais da Igreja Metodista. E toda a análise é feita com metodologia sociológica e teológica para compreender o atual estado de troca de identidade visando o crescimento numérico.

Todavia, como as estatísticas mostraram, o crescimento real foi menor que o esperado, pois ele não está diferente do crescimento da população evangélica como um todo.