segunda-feira, 10 de junho de 2013

A casa de meu pai e suas muitas moradas. Resenha do livro de Clóvis de Oliveira Paradela

A casa de meu pai e suas muitas moradas.  Resenha do livro de Clóvis de Oliveira Paradela





Tive imenso prazer em ler este relato emocionante da vida, do ministério e da família do reverendo Celsino Paradela, mineiro do fim do mundo, autor de uma obra pastoral imensa e muito reconhecida pelos que dela usufruíram, não estou certo se também pelos ocupantes de cargos e funções de poder da sua Igreja Metodista do Brasil. O autor é igualmente pastor, seu filho Clóvis, nascido quase no fim da fila de cinco homens e três mulheres que permaneceram na fé cristã que aprenderam com seus pais.


O livro é bem escrito e bem humorado, uma homenagem do autor ao centenário de nascimento do seu pai. Ele recorre a diversos depoimentos de familiares, dos irmãos e irmãs em primeiro lugar, de colegas de ministério do pastor Celsino, de amigos da igreja, de professores, com nível excelente de expressão vernacular de todos eles. Por vezes, tive dificuldade para identificar quem estava lendo: o autor ou um depoente. Isto porque ele adotou dois tipos de destaques para os depoimentos. No primeiro, aparece a identidade da pessoa no subtítulo e o texto segue na formatação similar ao texto do próprio Clóvis. No segundo, o depoimento aparece em letra menor e margem recuada. Caso o livro receba merecidas edições posteriores, valeria a pena equacionar sua formatação de modo a facilitar a leitura.


Sou de uma família presbiteriana que tem alguns pastores que começaram a atuar no início do século passado; outros, por volta dos anos 40 e 50. Minha geração teve candidatos ao ministério (é o meu caso), mas partimos para outras formações e outra relação com nossas igrejas de origem. No meu caso ainda, com a Igreja Metodista da qual me tornei membro por transferência no contexto de minha breve experiência como estudante da Faculdade de Teologia de Rudge Ramos no ano das múltiplas crises: 1968.


Mantenho uma relação mais ou menos próxima com a Igreja Metodista nas últimas décadas. Penso que acompanhei suas opções, suas orientações e seus desafios. Em razão deste quadro de referência, deste pano de fundo, ao longo da leitura eu mantive um diálogo intelectual com o autor e com o biografado, cuja trajetória me faz lembrar o semeador da parábola. O pastor Celsino semeou todos os dias durante décadas; variaram os terrenos que receberam suas sementes, as pessoas, as lideranças e as circunstâncias, como ocorre na vida de qualquer pessoa. Porém, quantas igrejas e quantos metodistas não se inscrevem na colheita vasta do que foi plantado por este pastor?


Celsino foi pastor de igrejas pequenas, tornou-as mais numerosas em membros e trabalhos, fundou e regeu corais, deslocou-se pelo território mineiro por todas as maneiras possíveis quase sempre com exclusão de carros e ônibus. E pensar que quase sua postulação ao ministério não foi acolhida porque era franzino!


Incomoda este julgamento do poder eclesiástico a respeito da aparência, não do coração do jovem aspirante ao ministério. É o segundo caso de que ouço falar. O rev. José Borges dos Santos Júnior, pastor presbiteriano, foi presidente do Supremo Concílio desta igreja, professor do Seminário de Campinas, além de pioneiro em programas de rádio. Pois bem, contou-me minha tia Irany, que foi sua secretária por muitos anos, que ele foi rejeitado ao pastorado metodista porque era não tinha um perfil físico adequado!


Os relatos ora me provocaram alegria, ora me entristeceram; ora vontade de rir, ora de chorar. Gostei de todos os depoimentos, mas seu neto Cleber foi muito feliz ao escrever:


“hoje tenho orgulho muito grande de ser neto de um homem trabalhador, que conseguiu formar e dar educação a tantos filhos, e educou espiritualmente tantas famílias por tanto tempo. Os frutos plantados por ele serão colhidos por muito tempo” (p. 290).


Criado em família rural, em condições sociais bem adversas, não se pode afirmar que tenha melhorado de vida ao ter acesso aos estudos no Grambery, instituição educacional metodista de Juiz de Fora. Nem se pode afirmar tampouco que tenha obtida uma boa condição financeira como pastor. Longe disto. Clóvis deixa claro que as dificuldades eram diárias. Certa vez dona Clea ia reter os filhos em casa porque não tinham roupa adequada para uma atividade em sua própria igreja. O problema foi resolvido pela solidariedade de outras pessoas.


Jamais deixou de ter horta e galinhas nas casas pastorais onde viveu com a família. A venda de verduras e ovos complementou a renda familiar durante muitos anos. Os salários baixos nem sempre lhe eram pagos em dia. Há um caso estridente: os administradores (a junta de ecônomos) de uma das igrejas de que foi pastor, diante de uma crise financeira, não lhe pagaram alguns meses de salários, e jamais se redimiram desta dívida. Para dar conta das dificuldades advindas desta injustiça, o pastor Celsino vendeu um pequeno sítio onde abrigara parentes.


Imagino que este pastor atuante - tão procurado por pessoas que se encontravam diante de problemas de saúde, por exemplo – desempenhava (por analogia) uma função de natureza pública, pois atendia as necessidades alheias e não se beneficiava pessoalmente dos bons resultados: buscava vagas em hospitais, hospedava-as em sua casa, dava-lhes segurança e apoio. Fazia-o em decorrência da sua visão do pastorado e de sua missão evangelizadora. A memória destas ações fermenta em depoimentos emocionados.


No início da leitura, eu me perguntei: o pastor Celsino teve amigos católicos? E de outras denominações evangélicas? Sim, ele os teve, e as informações são abundantes. Ele foi amigo de presbiterianos, batistas e assembleanos, teve relações meio atravessadas com adventistas em razão de seu proselitismo agressivo (p. 84, 94,132,171, 274). Teve amigos católicos muito chegados à família, inclusive um padre – e muito se apreciavam (p. 70, 119).


E teve conflitos com um e outro padre. Eram os tempos de estranhamento entre estas igrejas cristãs, certamente antes do Concílio do Vaticano II. Alguns conflitos, típicos de cidade pequena, quase chegaram à violência contra a qual se colocou o pastor Celsino (p. 102-107, 111).


A guarda do domingo é sempre uma questão complicada. Fácil, aparentemente, para quem impõe as regras, nem sempre para quem é obrigado a cumpri-las. O mesmo com relação a dançar (houve quem não gostasse que uma menina dançasse com um palhaço que divulgava a chegada de um circo), ouvir rádio ou ver televisão aos domingos. Rifa, então, nem falar (p. 154). Inicialmente uma coisa mundana que criava aversão, a televisão foi uma bênção (sem exageros) no final da vida do pastor Celsino, apaixonado cruzeirense. Isto porque ele já se encontrava desvestido da camisa de força dos papéis pastorais: livre para ver televisão!


Faço parênteses: eu adorava futebol na minha infância, adolescência e juventude, como ainda hoje, e nunca me conformei com a proibição de jogar aos domingos. Tinha de dar bom testemunho, danando-se minhas convicções e o livre arbítrio. Deixei de me comprometer com equipes por este motivo. Um pastor da minha infância (que casou meus pais, me batizou e fez minha profissão de fé) saiu-se com esta diante da minha questão se era pecado jogar futebol no domingo: “se for brincadeira, não; se for para valer, é pecado”. Casuísmo religioso de um pastor culto e dedicado que tinha de dar nó em pingo d´água.


Celsino e sua esposa Clea educaram os filhos com o apoio de instituições metodistas, mas também sem elas. Tiveram este objetivo, como milhares de casais protestantes para quem a educação possibilita a leitura da Bíblia, em primeiro lugar, e prepara os filhos para o futuro. Clóvis desfila as profissões, os graus acadêmicos de toda a família: irmãos e irmãs, noras e genros, filhos e filhas, sobrinhos e sobrinhas. Uma linha ascensional é nítida: os filhos estudaram mais do que os pais porque tiveram mais oportunidades, havia mais escolas; todavia, sem o impulso dos pais, provavelmente não teriam ido tão longe (p. 126-127, 263-265).


Vou comentar pontualmente alguns aspectos da vida profissional do pastor Celsino.


  1. Relação com o poder eclesiástico nos níveis local, regional e nacional. Os relatos remetem ao poder da igreja local como uma mistura de estruturas presbiteriana (conselhos, juntas) e batista ou congregacional (o poder do conjunto dos membros ativos). Pessoas influentes que permanecem durante muitos anos em posições de poder, tendendo a um conservadorismo estrutural; famílias que disputam posições de poder. Um exemplo interessante: uma família deixa uma igreja local e funda uma igreja presbiteriana! A divisão que levou à criação da Igreja Metodista Wesleyana resulta, segundo Clóvis, de um conflito de famílias.
  2. Em que pese sua autoridade moral e legal, o pastor depende destes outros níveis. Com relação à região, o poder é desempenhado pelo bispo que, sobretudo, nomeia os pastores para as igrejas e exerce a disciplina. Celsino nem sempre foi designado para a igreja que queria, nem sempre ficou naquela em que se encontrava bem. Isto em razão do poder do bispo, submetido, por sua vez, aos grupos de pressão. Não fica claro como o pastor Celsino se relacionou com o poder regional. Se ele jamais quis ser bispo, quem ele apoiou, a quem se opôs? Por que motivos?
  3. A Igreja Metodista foi tomada por crises importantes durante seu pastorado. Especificamente, fechou sua Faculdade de Teologia em 1968, renovou o Colégio Episcopal, reabriu esta escola e avançou em seu caminho ecumênico; anos depois, a crise diz respeito às tensões e disputas pelo poder entre tradicionais e carismáticos, sendo que diversas orientações teológicas vicejam no meio-campo. Como Celsino viveu a crise de 1968?
  4. Ele não se engajou no ecumenismo, mas foi tolerante com outras denominações e com o catolicismo. Virtude rara a tolerância, mesmo entre ecumênicos. Como ele se relacionou com a orientação fortemente ecumênica da Igreja Metodista?
  5. Dividir para multiplicar: Celsino foi estrategista no desenvolvimento das igrejas de que foi pastor. Estimulou a chegada de jovens a funções de direção; abriu-lhes o púlpito; realocou os membros em congregações por critérios geográficos (antes e depois de um rio, por exemplo) para que se tornassem igrejas.

Deixo o pai para comentar uma bela ideia do filho-autor. Trata-se de um projeto eclesiástico semelhante à confederação entre países independentes: um acordo para a realização de objetivos comuns, mantendo-se os estados membros (como seria com as igrejas) sua plena soberania no tocante a outros aspectos. Clóvis define o problema e a solução:


“Se somos um povo só, o que nos impede de nos unirmos novamente? Por que não somos uma só igreja? Tenho um sonho, uma visão que Deus me deu: sonho com uma confederação metodista no Brasil, composta por federações (Igrejas) autônomas, porém unidas nas doutrinas básicas do metodismo histórico, em projetos missionários e nas ajudas mútuas, somando forças para a implantação do Reino de Deus. Cada federação (Igreja) poderia manter sua organização eclesiástica própria, suas peculiaridades, mas teria uma forte relação na visão e prática do Evangelho à luz do metodismo wesleyano” (p. 191).

Um sonho? Talvez. Mas pode ser uma semente.


Eliezer Rizzo


http://www.filhosdagraca.com.br/index.php/component/k2/item/52-casa-meu-pai

Um comentário:

Maria Newnum disse...

Parabéns ao autor pelo conteúdo e pela capa que também ficou lindíssima.