segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Igreja e Mercado

Igreja e Mercado




E já que é para brincar de igreja como um mercado, proponho um exercício nesse texto sob essa ótica, embora, em minha opinião, levar isso a sério é abominável, a igreja é um espaço de comunhão e de divulgação do reino de Deus e jamais deve ser tratada como uma empresa, portanto, não levem meu texto ao pé da letra.

Resolvi fazer uma comparação com o mercado de motocicletas (as quais tenho grande apreço), para analisar esse mercado e numa visão inusitada traço aqui meu raciocínio.
Historicamente a igreja metodista nunca foi uma igreja de massa, e sim uma igreja de nicho de mercado, com um produto diferenciado. Difícil definir que nicho ou produto é esse, que não estão necessariamente relacionados à classe social. Diria que algumas características definem o mesmo, um deles é a pluralidade, a igreja sempre foi um local aberto discussões, com uma visão plural convivendo em um mesmo espaço, mas com respeito mútuo sem a imposição de um pensamento dominante, de acordo com a autonomia da igreja local, temos igrejas há pouco quilômetro de distância, de diferentes linhas litúrgicas, mas que se respeitam e entendem essas diferenças.

Uma segunda característica é a identidade, há aquela identificação com a instituição, pelo fato de ser conciliar e conexional, um metodista se sente metodista em qualquer lugar do mundo. Quem nunca teve a reação ao chegar em uma cidade completamente nova e ver uma igreja metodista "olha, uma igreja metodista!". No exterior, principalmente, paramos para tirar fotos ao lado da cruz e da chama.

A terceira é a conexionalidade, que diz respeito nos trás um respeito, em que quando mudamos de igreja, levamos conosco nosso "status" ou respeito de todo trabalho realizado anteriormente, recomendados pelo pastor local o que permite a "novos" membros de uma igreja local, dar continuidade no seu trabalho ministerial sem que tenha que "começar do zero". Pastores aqui não são (ou não deveriam ser) "semideuses", e tem que dar satisfação a um governo, pessoas podem questioná-los e eles ainda têm seu trabalho avaliado (o que muitos acham um absurdo), mas é mais uma peculiaridade desse nosso “mercado”, os leigos têm representatividade nas decisões da igreja.

Essas são algumas das características da igreja, e que pelo menos eu enquanto "cliente", me sinto extremamente confortável e satisfeito de participar dessa instituição. Por isso eu enxergo a Igreja Metodista historicamente como uma Harley Davidson, uma marca a qual muitos tem uma identificação profunda, o ronco do motor é inconfundível e você pode personaliza-la de uma forma a qual a sua seja a única no mundo.

Agora, se olharmos para as igrejas de massa, vamos ver que são completamente diferentes, não há nenhum espaço para questionar (ou você está na "visão" ou está fora, pastores são inquestionáveis, valadões, macedos, RR’s, Malafaias e etc, não há possibilidade de questioná-los, simplesmente, mude de igreja. Não há identidade, as pessoas que pertencem à essas igreja, não se identificam com elas batistas, mas como lagoinenses, ou tem uma identificação muito mais forte com o líder do que a instituição, a igreja do RR ou do Macedo. Essas são as Hondas CG, que vendem aos milhões, estão por toda parte, são produtos baratos e de consumo fácil (aceita cartão, parcelamentos à perder de vista), um pouco do que a gente vê aí nos cultos “fast-food”. 5 músicas, uma oração, uma pregação especial, a oferta (essencial!) e o pão com gergelim.

O que nossos líderes não compreendem, é que não apenas empresas de massa sobrevivem no mercado, mas pelo contrário, muitas deles sobrevivem durante séculos, atendendo um nicho que é extremamente fiel a ela e também é muito respeitada pelos “concorrentes”. Mas o que acontece é que nós queremos nos tornar igreja de massa, crescer quantitativamente e expulsar quem não se encaixa nesse novo modelo. O que considero uma estupidez tremenda, já que "tradicionais" também precisam ir pro céu, e se não tiver igrejas pra esse tipo de pessoas, simplesmente vamos "descartá-las"? Parece que a resposta é sim. É o mesmo que tentar lançar uma Harley Davidson popular, para vender milhões de unidades e ignorar todos aqueles que construíram a marca ao longo do tempo, o que me parece pouco provável de acontecer.

Agora eu me pergunto, por que toda essa necessidade de crescer? É simplesmente para alcançar mais vidas para Jesus ou há alguma razão econômica por trás? Pensando na perspectiva na visão do crente eu questiono: se eu tenho algumas igrejas de massa que me atendem perfeitamente, por qual razão eu vou me mudar pra metodista querendo ser grande? Ou na visão de um não cristão porque ele escolheria se converter em uma metodista se a mídia gospel os inunda com tantas outras opções mais atraentes? E as consequências ruins de temos mega igrejas?

Alguns exemplos de trapalhadas que vi de perto, e pra onde o dinheiro suado dos membros tem sido desperdiçado ao longo do tempo:

1) A 4ª região comprou um horário na rede super, num horário digamos "alternativo" sábado à tarde, com um programa de péssima qualidade editorial e mal feito, nível aqueles canais que ninguém vê "TV senado, TV justiça". Não deu outra, deixou de existir, não entenderam que para trabalhar com mídia precisam de técnica e qualidade.
2) Nomearam para a Igreja Central, um pastor "de massa", que chegou derramando óleo sobre helicóptero pela cidade, não deu outra, os membros de longa data, se mudaram para presbiterianas e batistas de linha moderada, e novos membros não vieram. Resultado vai num culto de domingo lá e encontre uma frequência, inferior até a 50 pessoas. Pelo menos foi o que eu vi na última vez que passei por lá.
3) O bispo se autonomeou pastor de uma igreja com o objetivo de fazer uma igreja de 4 mil membros numa das regiões mais carentes de Belo Horizonte, já são 7 anos que isso aconteceu e pelo que me parece, está longe disso ocorrer.
4) Lembro da meta de 1 milhão de membros em 2014 da 1ª região. Onde chegaram? Pelo menos um terço disso?

Não adianta querer ser uma Universal, Internacional do poder de Deus, Assembleia de Deus, não é nosso business. É fundamental que a Igreja encontre este lugar e preencha vazios que ainda existam, ser igual as outras, nada mais é que deixar uma outra minoria e marginalizada à palavra de Deus.

Eu me pergunto, se todas as igrejas forem iguais, quem não se adaptar a elas, está fora? Ou seja, se eu não me sentir à vontade num modelo de células, estou condenado ao inferno? Ou será necessário fundar mais outra denominação nesse mundo de opções para atender necessidades específicas? As pessoas não podem me aceitar pensando diferente sem ser um “herege” ou alguém que “semeia a discórdia” ou “atenta contra um ungido do senhor”?

Não consigo realmente compreender qual a estratégia por trás do Colégio Episcopal com essas mudanças que agora começa tentar atacar a formação dos pastores. Tudo pra mim não passa de uma grande trapalhada de gente que não sabe pensar estratégia de forma séria e nem sabe aonde quer chegar.


Você pode me afirmar que igreja, não é empresa e, portanto, não deve ser pensada assim, e eu concordo. Mas já que a “meta” é ganhar vidas (ou clientes), eu quero demonstrar que para ter sucesso, não necessariamente é bom que se tenha mais membros é a única opção possível, mas certamente não é a mais rentável. Talvez por isso não seja interessante adotar essa “estratégia”, pois querem crescer para ter mais regiões, retalhar o país para existirem mais bispos com suas regalias faturando suas dezenas de milhares de reais e mais oportunidades para pastores crescerem em suas “carreiras”, tudo isso é muito triste e aos poucos o evangelho vai se rendendo ao dinheiro todo poderoso senhor do mundo gospel da atualidade.

Pedro Calixto é leigo e membro da Igreja Metodista em Carlos Prates - Belo Horizonte -  na 4ª Região

3 comentários:

Maurício Ramaldes disse...

Muito bom texto!
Coloca o dedo na ferida da IM do ponto de vista estratégico da organização, pois leva em consideração sua história e tradição diante da necessidade de "atender a demanda" das pessoas.
Esse buraco em que a IM está entrando não tem saída; a única saída é a entrada, ou seja, retornar (arrependimento). Haverá humildade para tal?
Bato na tecla da "tolerância". Parece que toleramos "demais" a ponto de comprometer nossa identidade já "aberta", para tornar-se uma identidade quase sem limites, sem fronteiras. Parafraseando um missiólogo americano, "se Igreja é tudo, ela também é nada".
Continue escrevendo, Pedro.

Pedro Calixto disse...

Maurício, que bom que gostou do texto, o objetivo é provocar a reflexão mesmo... E discutir sob a 'mercado religioso', é um exercício para entender o caminho que estão querendo (ou tentando) chegar... Um grande abraço!

Poló Bracher disse...

Pois é, meu caro Pedro. Eu, que me considero metodista de corpo e alma, debandei para a presbiteriana logo que percebi esses ventos estranhos que, ao que me parece, estão apagando a chama e derrubando a cruz. Ainda encontro, na presbiteriana, a seriedade do evangelho, os hinos, o respeito ao Santo Nome de Deus, mas eu me sinto um pouco deslocado, como alguém de calça jeans numa festa de gala. Sinto que falta algo (e nem entro nas polêmicas de arminianismo x calvinismo); sinto falta desse algo mais que havia na metodista que conheci, que a fazia diferente das demais e que tanto me encantava.
Maurício, haverá humildade para tal?